sábado, 28 de fevereiro de 2009

eNTREVISTA: jÚPITER mAÇÃ


POR CRISTIANO BASTOS - BIZZ

A cédula de identidade não mente: o cara se chama Flavio Basso. Com esse nome de ascendência italiana, ele foi frontman dos Cascavelletes, uma das bandas que inventou o rock no Rio Grande do Sul e cuja (má) fama está registrada em artefatos como "Menstruada", "O Dotadão" (gravada pelos Ratos de Porão) e "Minissaia sem Calcinha".

Nos vetustos 1989, Basso protagonizou um dos grandes momentos de picardia do rock brasileiro, quando o semi-hit "Nega-Bom-Bom" (do refrão bubblegum "Bom-bom-bom faz aquela nega do outro lado daquela rua/Baby/Punhetinha de verão") entrou na trilha sonora da novela Top Model.

Flavio Basso, então, saiu de cena. Voltou realinhado, anos mais tarde, folk e dylanesco, como Woody Apple - mas também foi fogo de palha. Transformou-se em Júpiter Maçã, alcunha com a qual lançou o clássico A Sétima Efervescência, com devidos créditos a Timothy Leary, Albert Hofman e aos laboratórios Sandoz.

Mas não durou.

Num ataque semântico-artístico, renomeou-se outra vez como Jupiter Apple e adotou o inglês para embarcar de vez no desbunde do álbum Plastic Soda (1999). Em Hisscivilization (2003), a criatura seguinte, deu um passo a frente ao testar sonoridades que - é preciso perseverança, às vezes - não se decidem entre o indigesto e o incompreendido.

O lançamento do próximo rebento, Uma Tarde na Fruteira (que não é mais segredo desde que vazou na web), já está engatilhado.

Sai primeiro na Espanha, em julho, pelo selo madrilenho Elefant. Pouco depois, será lançado no Brasil pela gravadora Monstro Discos. Enquanto isso não acontece, Júpiter liberou um aperitivo para aplacar a curiosidade dos fãs: Bitter, um álbum com canções assinadas por ele e Bibmo (sua atual consorte e companheira de banda).

Bitter é gravado em inglês, no melhor estilo take one - rápido e cru. Outra novidade é a reedição de A Sétima Efervescência, no segundo semestre de 2007, acrescido de quatro faixas bônus dos tempos dos Pereiras Azuis, banda que o acompanhou no início da sua imersão psicodélica.

Recém-chegado da Inglaterra e ainda tentando achar a chave para voltar para "dentro da casinha", em Porto Alegre, Júpiter Maçã deu essa entrevista exclusiva para o site da BIZZ. Depois, ele pretende marcar a coletiva de imprensa "Bed In II - Beatnik Talks", onde quer reunir cerca de 30 jornalistas (!) no quartíbulo de hotel onde mora no centro de Porto Alegre.

"Mais do que coletiva, o encontro terá clima de happening, juntando música, artes e bate-papo", diz. Se você tem alguma idéia a respeito do universo e dos códigos jupiterianos, já sabe: não espere dele respostas convencionais para perguntas "mais ou menos convencionais". Ou você acha que é todo o mundo que fica um mês sem tomar banho, que se diz um "encantador de um rio curvilíneo" e que, um belo dia, acorda e pensa que é o John Lennon em pessoa?

Em Uma Tarde na Fruteira (pelo que já podemos ouvir nas nossas cópias falsificadas) você assume uma cultura tropicalista. Já em Bitter, o tráfego de influências é o oposto: new wave, pós-punk, Dylan, Stones fase Emotional Rescue, Jefferson Airplaine, Buzzcocks, The Jam. Onde estava com a cabeça quando redirecionou sua musicalidade para o rock de língua inglesa?

Júpiter - Andava meio zonzo... Mas, na realidade, sempre fui o mesmo. Minhas influências já fazem parte de mim. Portanto, não importa por quais caminhos eu ande - o fato é: a canção não está diretamente ligada à influência em si e, sim, a uma espécie de complemento da existência. Algumas vezes soa melhor e, em outras, é melhor ainda! It's getting better all the time!

Por que lançar Uma Tarde na Fruteira primeiro na Espanha?

Júpiter - Porque, na real, foi o único selo que se interessou pelo disco antes de qualquer outro.

Em três músicas do disco ("Síndrome de Pânico", "Beatle George" e "Casa de Mamãe") você evoca eflúvios alcoólicos. O componente etílico interfere no seu processo de composição?

Júpiter - Sou obcecado por chá, todavia, nunca tive coragem de assumir. A propósito, o vinho espanhol é bem interessante.

Como foi o seu encontro com Sean Lennon?

Júpiter - Foi como encontrar meu cúmplice!

Quando lançou A Sétima Efervescência, em 1996, tinha noção do culto que o álbum teria com o passar dos anos?

Júpiter - Na época, não tinha noção do que iria acontecer. Era um período em que eu era um solteirão, dormia em praças e tomava o café da manhã no Bar João [lendário moquifo da Avenida Oswaldo Aranha, em Porto Alegre, tragado pelo empreendedorismo imobiliário]. Na real, eu não sabia o quanto estava inspirado. Foi uma época lisérgica, sim! Uma década depois eu entendo a importância deste álbum, do quanto ele mexeu com a vida de algumas pessoas. Na nova capa, elaborada para a sua reedição, particularmente, me pareço bem melhor - pareço Syd Barrett... [risos] Ele foi remasterizado, mas mantém as características originais. Foi um disco que me surpreendeu - e me assustou - quando se tornou um clássico com vida própria.

Recentemente, A Sétima... foi eleito o melhor disco do rock gaúcho numa votação com 50 especialistas do Rio Grande do Sul. Isso te toca?

Júpiter - A lisonja me pegou de surpresa quando eu tinha 15 anos, portanto, já sei lidar com este tipo de sensação há bastante tempo. Quando me elogiam em excesso, posso reagir como Liam Gallanger ou Bob Dylan, mas não me importo. Pra você ver, hoje acordei pensando que era John Lennon...

Em "Golden Light", de Bitter, a Bibmo evoca alguns vocais que lembram Grace Slick nos tempos do Jefferson Airplaine. Esses vocais, que as vezes parecem os duetos que Slick fazia com Paul Kantener no Airplaine, transportam diretamente praquele climão São Francisco, White Rabbit, LSD...

Júpiter - A Bibmo me encontrou morando num quarto de hotel no centro de Porto Alegre. Ela me salvou daquele quarto de hotel. Foi lá que bati meu recorde: um mês sem tomar banho. Grace Slick tinha a mesma fama... O LSD e a química que ele ocasionou no mundo mudaram contextos e, de certa forma, mudaram o mundo também. Hoje, vivendo com a Bib, eu tomo banhos. Não sei se vou morar em Nova Iorque ou em qualquer outro lugar do mundo, mas a expectativa é que os próximos álbuns me levem a traduzir e a concretizar mais e mais - tanto no plano da existência como no da experiência.

Dizem por aí que você anda chafurdando na literatura beatnik. Na busca do quê, escrita automática, jazz, acampamentos e fogueiras, vagões de trem, comida enlatada, vagabundos iluminados?

Júpiter - Respondo com um aforismo beat de minha lavra: "A partir do momento em que você simplesmente se rende a sua existência e procura um novo lugar pra viver um segundo de cada vez, o resto é conseqüência".

Até que ponto a Madonna - que você sempre cita - é mais uma influência?

Júpiter - Na inveja. Tenho inveja de duas pessoas: Madonna e Bob Dylan. Não tenho inveja do David Bowie... Nem do Lou Reed.

E suas incursões cinematográficas? Depois da realização de Apartament Jazz e Pescando Júpiter Segundo Huxley, qual seu novo projeto de filme?

Júpiter - Depois que disseram que eu precisava de uma plástica para não parecer mais a Giulietta Masina [atriz de cinema italiana e esposa do cineasta Frederico Fellini], resolvi dar um tempo pra câmera [risos].

O clipe de Eu Quis Comer Você dos Cascavelletes no Programa da Angélica virou hit no YouTube. Dá impressão que ninguém fazia a mínima idéia do conteúdo altamente sacana da letra. Como você explica isso, assistindo o vídeo quase 20 anos depois?

Júpiter - O Lobo Mau tem a resposta. Os Beatles também!

E hoje, você renega aquele Flavio Basso com pinta de Mick Jagger ou espreme no seu caldo musical?

Júpiter - Já o engoli!

Os Cascavelletes têm uma porção de hits. Tem gente que conhece as músicas da banda nos recantos mais absurdos do Brasil. Ainda há lugar para reminiscências daquela fase?

Júpiter - Sou uma espécie de gene embrionário nos Cascavelletes. Logo, tudo que tenho feito desde então é seqüência daquilo que pode ser considerado - ou não - um resultado sonoro "similar" ao dos Cascavelletes.

Você se orgulha dessa fase? Como definiria os Cascavelletes?

Júpiter - Caras muito bacanas agora e, ontem, um cantor super babaca - eu! Mas um ótimo dançarino, é verdade, como pode ser observado no vídeo de "Eu Quis Comer Você" [risos].

Algum déjà vu - ou flash back - na volta temporona dos Cascavelletes aos palcos?

Júpiter - Sim, eu era tão babaca... Uma vez o Nei Van Sória me chamou num canto e disse: "Eu sou um cara muito inteligente, mas você é um gênio. E você sabe que um gênio não sabe comer filé a parmegiana sem sujar as calças brancas, né?".

O que viu de legal na temporada que passou em Londres?

Júpiter - Me tornei a husband da Bibmo. Acordava as dez da manhã pra comprar manteiga. No caminho, eu bebia um refrigerante. Eu era um poeta das docas, um encantador de um rio curvilíneo, the best and the worst - saca?

Como foi tocar por lá? Acredita que o público o tenha compreendido?

Júpiter - Modéstia realmente à parte, se facilitar, ficaremos muito famosos...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

pLEASE, sUCESS*

Com todas as facilidades para se lançar um disco hoje em dia, pelo caminho da independência ou não, é incompreensível que o cultuado álbum Por Favor, Sucesso, uma pérola perdida nas profundezas do rock brasileiro, permaneça sem reedição no formato digital.
A história dessa peça rara está ligada à era dos festivais de música popular brasileira que, nos anos 60 e 70, tinha para os artistas o valor de um passaporte ao reconhecimento.
Depois do Liverpool – que inaugurou o rock no Rio Grande do Sul com as bandas Os Cleans e Os Brasas – vencer o II Festival Universitário da Música Popular Brasileira, em Porto Alegre, o tema "Por Favor Sucesso" (de autoria de Carlinhos Hartlieb) foi classificado para as eliminatórias do IV Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, em setembro de 1969.
A banda não arrebatou prêmio algum, mas ganhou um contrato com a gravadora Equipe, para produzir o primeiro – e único – LP do Liverpool, o homônimo "Por Favor, Sucesso". O disco, com sua combinação de harmonias ousadas, distorções fuzz no talo e acidez verde-amarela, mergulha na fonte do rock inglês e norte-americano, levando bossa-rock, folk e boogie-woogie em estrondosa colisão com a tropicália.
Composições como "Olhai os Lírios do Campo", "Impressões Digitais" , "Voando" e "Cabelos Varridos" são retratos expressivos da juventude da época.
O segundo o crítico de música Juarez Fonseca, participar de um festival universitário, e vencê-lo, motivou ainda mais a banda do bairro IAPI que, no começo, só tocava Rolling Stones, mas que já começava a mostrar músicas próprias no programa que o disc-jockey Glênio Reis tinha na TV Gaúcha.
"Por Favor, Sucesso" não vendeu quase nada, contudo, tornou-se objeto de culto – até mesmo fora do Brasil – graças à receita de música brasileira moderna e jovem, feita por cinco cabeludos carismáticos e muito bons músicos:
"O disco colocou o Liverpool em pé de igualdade com os Mutantes e, logo depois, com os Novos Baianos, como definidor de uma nova linguagem, para além da ingenuidade banal da Jovem Guarda".
*Testemunhei o Andrio Maquenzi, da Superguidis, presentear (em mãos) - com uma cópia zerada e conservadissíma de Por favor, Sucesso - Mark Arm e Steve Turner, do Madhoney. O LP, na verdade, era do Fernando Rosa, e cavou baita sorrisão na cara dos dois surpresos grunges...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

iNEVERDRINKWINE...


lOS aNGELES mOTHERFUCKERS

Quando se fala de rock, Johnny Thunders é capítulo a parte na história. Mais um daquelas personagens cujo "fracasso de vida" encanta – é verdade. Como F. Scott Fitzgerald, infelizmente.
Fracasso relativo - ora - como o grande autor de The Great Gatsby, atualmente identificado como "o escritor de O curioso caso de Benjamin Button" (vergonhosamente modificado para caber num enredo tolo de amor).

Os leitores do magnífico volume de contos Tales of the Jazz Age, de Fitzgerald, do qual a história de Button foi roubada, certamente ficaram de cara. Na tumba, o escritor deve ter soltado um "oh, shit!".

Além dos discos dos New York Dolls, Thunders deixou uma porção de álbuns solo: uns excelentes; outros, somente vagabundices de um viciado que precisava arrumar troco pro pico seguinte. A vida de Johnny Thunders foi praticamente essa: o próximo pico.

Antes de virar junkie profissional foi jogador de baseball e, no pretérito da breve fama, ganhou fama de bom amante junto às groupies.

Please Kill Me tem depoimentos emocionados de Sable Starr, a famosa groupie que namorou. Sable conta que, nos últimos tempos, o estadinho do cara dava dó. Pobre John Anthony Genzale Jr... Johnny Thunders (1952/1991).

Depois de abandonar os Dolls, o lendário guitarrista cooptou Jerry Nolan (batéra dos Dolls) e, com Ricard Hell no baixo (saído do Television), formou os Heartbreakers. Legaram L.A.M.F – um dos melhores álbuns de punk já gravados em toda história do rock, pode ter certeza.

Só que Hell não güentou o ritmo de Thunders, abandonou o barco e formou os Voidoids. Antes, em turnê pela Inglaterra os Heartbreakers lançaram L.A.M.F, onde fizeram (má) fama e amigos na cena britânica.

Back to USA, em fins de 1979, Johnny Thunders começou outro projeto: o Gang War, com John Morgan, Ron Cooke e Wayne Kramer (o ex-MC5 saído recentemente da prisão por tráfico de heroína). Gravaram alguns demos e fizeram meia dúzia de shows.

Não durou nada. Também pudera: com tamanha drogadição.

A obra-prima de Thunders é So Alone, álbum de 1978, do qual participa uma porção de gente legal: Chrissie Hynde, Phill Lynott e Glen Matlock. Foi numa dessas que Johnny conheceu Sid Vicious.

A duplinha formou a banda Living Dead, contudo, também não tinha como dar certo. Quando Vicious morreu, Thunders deixou pra ele "Sad Vacation", canção tristonha que sempre dedicava ao parceiro de pico nos shows.

Novo encontro - predestinado também a não dar certo - aconteceu quando, numa tour pela Inglaterra, conheceu Dee Dee Ramone. Os dois pretendiam montar uma banda e chegaram a ensaiar juntos. Até tentaram gravar um álbum, mas Johnny, na fissura, roubou o casaco de Dee Dee pra trocar por herô nas ruas.

Revoltado, Dee Dee arrebentou a guitarra de Thunders - único bem que ainda lhe restara. Seu "ganha pão". O que veio depois foi apenas queda e solidão.

Como alguém definiu na época: "Johnny Thunders toca sua guitarra como quem solta cusparadas". Pegou? Só vendo.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

hELLO cRAZY pEOPLE!

nAS gARRAS dOS sLEESTACK

o eLO pERDIDO dE lOST

(fONO) (gRAMAS)

O segundo álbum do De Falla, apelidado pelo vocalista Edu K de It's Fuckin Boring to Death (controverso, pois o nome só é perceptível na lombada do vinil), é o último disco da banda pelo selo Plug da major BMG.

Cercados pela crítica, que aguardava novo sopro de criatividade, o DeFalla não frustrou expectativas: do pós-punk do primogênito LP, partiram pro crossover maluco de rap, funk e heavy metal, em 1988 - o que prova que estavam ligados nas últimas tendências estrangeiras que, há 20 anos, deixavam o berço.

São perceptíveis as influências de Run-DMC, Beastie Boys e Red Hot Chili Peppers, sem que a banda perdesse de vista microfonias, vinhetas absurdas e letras fundindo português e inglês (como em "I Have to Sing a Song").

O De Falla também não fez concessões à peculiar obssessão pelos temas sexo & violência. O disco é um dos pioneiros do uso do sampler no Brasil. Entre outras colagens, quem prestar atenção vai sacar uma fala de Denis Hopper no filme Veludo Azul, de David Lynch.

Logo na abertura, "Como Vovó Já Dizia", de Raul Seixas, ganha upgrade numa versão rap com muitos escratch e batidona arrasa quarteirão.

Na opinião do guitarristra Mini, dos Walverdes, o disco sintetiza parte importante do espírito do rock gaúcho - que é estar extremamente conectado no que está rolando mas, ao mesmo tempo, cultivar certa atitude de "não tô nem aí para nada":

"Nesse álbum, a mistura de pop, hip-hop, rock, pós-punk e funk soa incrivelmente chinela e sofisticada ao mesmo tempo".

A insanidade prossegue faixa após faixa, como na versão desconstruída de "Revolution" (que era pra ser uma versão dos Beatles e, como não ficou nada semelhante à original, virou música do De Falla mesmo) e no hit "Repelente".

O lado B começa com "It's Fuckin' Boring to Death", cuja letra cita o filme Nascido para Matar, de Stanley Kubrick. Depois segue com o groove demoníaco de "Satã (é coisa do diabo)". Tonho Croco, da Ultramen, confirma a diversão: "Gastei o vinil e a fita cassete de tanto ouvir!".

It's fuckin' boring to death

Repelente

I was trying to shoot a gun

Como vovó já dizia

Satã é coisa do Diabo


hISSSSSSSSSSSSSSSSSSS



*Grátis emepetrês do tema "Land of the Lost"!

sICRANO*

*"Jackson do Pandeiro com Adoniran Barbosa". Por Nik Ilustrador

eVERYBODY'S GOTTA lIVE





LOVE cLASSICS







domingo, 15 de fevereiro de 2009

pEGADA dE lEOA

rOCK pRETO

Já tinha ouvido falar em garage africano anos 60? Nem eu. Não dá nada: a compilação Cazumbi - African Sixtie Garage trata de (re)alinhar o velho continente no "mapa global do rock".

Cazumbi, que significa "Zumbi", reúne obscuridades - sem trocadilhos - do quilate de Gino Garrido & Os Psicodélicos, Os Rebeldes, Os Gambuzinos, Kriptons, Os Rocks.

Entre outros. As bandas "apartheide" ficaram de fora.

Há 40 anos, arrastada pelo Fab4, a invasão britânica varria a Terra como Tsunami. E insulflava, em inusitados pontos, uma miríade de conjuntos beat: do Leste Europeu à Ásia, cruzando as américas do Latina & do Sul, e chegando ao Brasil.

E, finalmente, África. Cazumbi, afinal, é prova irrefutável da supremacia beatle nos quatro pontos cardeais do planeta.

O legal dessa "expedição musical" - organizada em dois volumes - é que ela não se detém apenas no Sul do continente, onde o caucasianismo vincou marcas profundas: a coletânea (espécie de Peebles/Nuggets) resgatou, por exemplo, raros compactos de grupos do Moçambique, Congo e Angola.

O african rock é cantado tanto em português e inglês como no africanês, o dialeto derivado do holandês. Como no Brasil daquela época, imperam versões para hits internacionais: Eletric Prunes, Shocking Blue, The Animals e Screamin' Jay Hawkins ganharam releituras bem particulares.

As modinhas branquelas receberam de lambuja um "espírito das savanas". Roubo e eterno retorno...Milhares de milhas marítimas não impediram que os "negões" perdessem o pendor.

A matriz do rock é negra. A do homem que ao certo não se sabe.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

mAMA áFRICA



Os Inflexos - Furtivo olhar

Os Gambuzinos - Kalumba Angola



The Invaders - No Money no honey




Os Rocks - I put a spell on you



tUPI oR nOT tUPI?

Agora sério. Revirando terrenos baldios da internet trombei essa jóinha da música negra: Soul Rock (1974), álbum da dupla Ezy Hart & Isaac Olashugba.

Um daqueles "vira-latas" abandonados pelo dono. Ou, sabe-se lá, outra vítima de catástrofe natural - como o álbum Paêbirú, talvez. Certeza somente quanto ao bom pedigree do cão.

Áridas informações sobre Ezy & Isaac reforçam a raridade da obra.

Uma clássica conceituação sobre Soul Rock: "A super italian rare soul-afro-funk-rock". Obscuro , porém iluminadíssimo, o disco foi gravado em Milão, na Itália. O lançamento é da Rifi Recordings.

A produção e os arranjos levam a rubrica de um tal Funky Fella - o qual, transparece nas músicas, sabia bem o que tinha em mãos.

Nas notas de agradecimento, as reverências de Ezy & Isaac vão todas para Fella, que deve ter dilapidado-lhes muito.

No oracular Google, ocorrem parcos resultados para as palavras-chave "Ezy/Isaac" ou "Soul Rock". Há somente um único link para download no site Djalma's Soul Food. Este, agora, deve ser o segundo.

Então não durma no ponto.

Tudo certo até aqui, não fosse o factóide: uma das únicas resenhas encontradas sobre Soul Rock, a qual se pode ler na internet, fala o seguinte sobre a dupla:

"They are 2 brazilian boys and they recorded this obscure LP in Milan, Italy in 1974".

Se forem brasileiros, quem são? Estarão vivos? Aonde: Maceió, Cascavel, Não Me Toque, Parintins? Como ganham a vida?

Não há respostas.

Brasileiros transando ítalo-funk em Milão, nos anos 70, é muito bizarro para ser real! Ouvindo fica na cara que, de "verde-amarelos", não possuem nada.

Mas quem garante?

Entre os colecionadores, Soul Rock é conhecido como "The Holly Grail" dos breaks.

Um arebatado neófito descreve sua experiência pessoal ao som dos brazilian boys:

"Man is it cold at the moment. The general chill that has hit the country over the last few days is being felt particularly severely in my house as the boiler has packed up leaving me to spend my evenings huddled round a gas fire watching my muttered curses freeze in the air before my eyes. When I put on an album like Ezy & Isaac's Soul Rock all troubles quickly disappear and sitting still is the last thing on my mind.

Put together by two Brazilian gentleman and released in Italy (naturally) the album sold itself to me as soon as I saw the front cover. The mixture of bling, pure joy on Ezy and Isaac's faces topped off with the helpful "Black Sound" note in the top left (no shit!) meant that whatever laid inside the sleeve was an added bonus from the off".

(...) No doubt because of their Brazilian background Ezy & isaac's singing style is a curious thing indeed. Don't get me wrong these guys can sing but there's a slurred garbled edge and unexpected harmonies (the caaaaaaar one slays me) that add something unique to the mix"

"Take Off!!!": spaghetti pomodoro

"Bawagbe": afrofunk hipnótico.

"Got To Move": a real killer track

"Bad Day": não tão mal


Dois anos após Soul Rock, que, por sinal, deve ter dado em nada, Ezy & Isaac reapareceram com o single "I can't help myself".

E deu (em nada). Mais precioso que Soul Rock, no entanto, só o compacto Bawagbe.

A bolacha é avaliada em ardidos € 250: "O Paêbirú do euro-funk".

E os discos são do mesmo ano...


oS mÁSCARAS


The Maskers - Vem! (Help)

nESTE mUNDO lOUCO

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

lICANTROPIA jUVENIL

dE eSTIMAÇÃO




Mel Caven and the Kokonuts - My Mummy

aGORA sTIV bATORS é uM gAROTO mORTO









zUMBIS & mAIS zUMBIS

Johnson Brothers - Zombie Lou


The Upperclassmen - Cha cha with zombies


Johnny Fever - Zombie

nA tERRA dO sOL


Lena Rios & Los Lobos - Eu sou eu o Nicuri é o Diabo




Rock do Diabo - Raul Seixas























qUANTAS vOLTAS bABY...

Novos Bahiano + Baby Consuelo - As voltas que o mundo dá

sHE sAID!



vIVINHOS dA sILVA





gOO gOO mUCK


Rony Cook and the Gaylades - The Goo Goo Muck


o gATO nEGRO (tHE bLACK cAT)*

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e instruíram.

No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror - mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto - assim se chamava o gato - era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento - enrubesço ao confessá-lo - sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.

Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão - dissipados já os vapores de minha orgia noturna, experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo - coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.

Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme - tão grande quanto Pluto - e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo - e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse - detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê - seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente -, passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo - apresso-me a confessá-lo -, pelo pavor extremo que o animal me despertava. Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso -, quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável - um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso - encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim - pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros - os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade - e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite - e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia - e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

- Senhores - disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada -, é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? -, estas paredes são de grande solidez.

Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.

Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

*
Conto de Edgar Allan Poe (1809/1849) publicado no Saturday Evening Post, edição do dia 19 de agosto de 1843. Estudiosos consideram The Black Cat um "estudo da psicologia da culpa"

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