segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
domingo, 27 de dezembro de 2009
qUANDO a aRTE iMITA a vIDA*
Drama arquitetado para tocar as massas, Lula: O Filho do Brasil sonha com bilheteria histórica e é criticado por possível influência nas eleições de 2010"Oculto por trás de um milhar de faces, emerge o herói por excelência, arquétipo de todos os mitos", ele escreveu a respeito, no livro publicado originalmente em 1949.
As hipóteses norteadas por Campbell elucidam muitas das razões pelas quais a cinebiografia Lula, O Filho do Brasil, sobre a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vem causando rebuliço no terreiro da política nacional meses antes de entrar em cartaz.
Indiferente de época ou local, conforme ensina Campbell, o enredo dessa jornada sempre é o mesmo: o herói parte de seu mundo, aventura-se em terras distantes, enfrenta inimigos e provações. Depois, regressa transcendido para casa, munido das informações que o levam a sublimar a existência ordinária.
Secularmente, a humanidade vem contando e recontando as mesmas histórias. Não à toa, O Herói de Mil Faces está à cabeceira dos cineastas George Lucas, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg.
O livro também fez a cabeça de Fábio Barreto, diretor de Lula, O Filho do Brasil, que já planeja uma minissérie mais abrangente sobre o presidente-personagem:
É esse o aspecto mais importante, defende Barreto, e não o fato de ele ser "'o cara' do Obama, das Olimpíadas ou da Copa do Mundo".
Para o antropólogo Roberto Da Matta, O Filho do Brasil é uma tentativa de santificação que "ultrapassa os limites de bom-senso do liberalismo": "Por que Lula transformou-se num herói exclusivo? O PT é avesso ao rodízio de heróis. Só podem ser os deles."
Na apreciação de Da Matta, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso igualmente cumpriu a trajetória do herói; todavia, o estadista teria sido severamente "demonizado" pelo Partido dos Trabalhadores.
Ignoraram, segundo ele, a histórica estabilidade fiscal-monetária cimentada nos anos de governo FHC: "Uma forma de demonizar é esquecer", alude o antropólogo, que não tem dúvidas: a força do filme será imensa no pleito de 2010.
"Achei a história superinteligente: Lula não chega à presidência. Essas coisas amedrontam-me. É assim que se constroem seres humanos intocáveis."
Carlos Gerbase, professor de cinema da PUC-RS, alega que a imagética popularidade de Lula (que subiu para 78,9%, de acordo com a última pesquisa CNT/ Sensus), a qual enseja o debate sobre a recém-lançada cinebiografia, não deriva de sua obra política, tampouco dos erros ou acertos de sua administração.
A explicação "semiótica", na visão dele, não é racional.
"Inconsciente coletivo, irracionalidade e 'forças subterrâneas' são acionadas sempre que o ser humano vai tomar uma decisão, o que inclui escolher seu presidente. Lula é 'quase invencível' porque está prestes a cumprir uma jornada inteira como herói", Gerbase explica.
Sem focar-se exatamente na vida partidária do presidente da República, Lula, O Filho do Brasil – filmado em dois estados (Pernambuco e São Paulo), sete cidades e 70 locações ao custo de R$ 16 milhões – viaja pelos itinerários da trajetória humana de Lula: o longa enquadra as profundas transformações pessoais sofridas pelo ex-metalúrgico, do ingrato sertão pernambucano, onde nasceu, à periferia de Santos, onde cresceu, aos tempos do sindicalismo no ABC paulista.
Para David Fleischer, cientista político norte-americano e professor da Universidade de Brasília (UnB), caso o novo mandato fosse possível, Lula seria reeleito em 2010 impulsionado por seus 80% de popularidade.
Glória Pires, cuja dramaticidade conferida ao papel da mãe de Lula, Dona Lindu, garante momentos de excelência artística da produção, enxerga na "mensagem" do filme muito mais humanidade do que política.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
i'M a dUDE!
- Esse é o disco que falei pra vocês! É esse é o disco...
Anos após o sumiço de All The Young Dudes, noite dessas eis que o desaparecido me ressurge numa versão expandida & remasterizada. Isto é, sumo e suprasumo. O suprasumo são os outakes de "Black Scorpio" e "Ride On The Sun", além das canções gravadas ao vivo.
Para fechar um grande álbum de glam rock, nada mais apropriado do que uma baladona. "Sea Diver" navega na melhor tradição (e pungência) de "Lady Stardust", "Life's a Gas" e "Rock'n'Roll Suicide".
LINE UP
Verden Allen – orgão, backing vocals
David Bowie – saxofone
Dale 'Buffin' Griffin – bateria
Ian Hunter – guitarra, piano, teclado, vocal
Mick Ralphs – guitarra
Mick Ronson – cordas, arranjos
Pete "Overend" Watts – baixo
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
dOM nATURAL
Surpreso, o brigadeiro quis saber se o filhote do aviador também era capaz de "pilotar um violino". O menino respondeu “sim” – no entanto, só o conhecia "por fotografia". Rogou cinco minutos a sós com o instrumento; na volta, anunciou, malandro: "Pode escolher a música".
"E tocou maravilhosamente o violino para o brigadeiro. João toca qualquer coisa – só precisa saber onde fica dó-ré-mi-fá-sol-lá-si", descreve a testemunha ocular.
Lysias Ênio é parceiro-irmão – o poeta de Donato. A consangüinidade artística verte fácil nas abundantes composições da dupla. São deles "Amazonas", "Até Quem Sabe", "Café com Pão". Donato entra com o som, Lysias traz a poesia.
Declara a irmandade, versejando:
"Volúvel, comparsa indissolúvel na harmonia do DNA e na parceria de vida. Somos águas do mesmo rio. Meu irmão, nas ondas da música; eu, no balanço da poesia. A musicalidade está em tudo".
Compor com Donato, conta Lysias com a franqueza de família, é bom. "Mas às vezes é chato. A afinidade é mais estética do que genética", diz. A memória musical mais antiga com o irmão, armazenada ad eternum, é a de uma sanfona de brinquedo:
"Uma, não, duas! Uma minha, outra dele. Na minha, meti a tesoura pra ver o que tinha dentro. Onde eu ouvi ruído, ele ouviu som".
Até o começo dos anos 50, João Donato e Eneyda (que debutaram artisticamente com o nome Irmãos Oliveira) freqüentaram o Sinatra-Farney Fan Clube, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Por quase dois anos, o clube – das primeiras escolas da geração bossa-nova, fundado por Johny Alf – foi um dos poucos redutos cariocas consagrados às audições de jazz.
No rol dos associados ilustres, estavam o futuro parceiro de Donato, o clarinetista Paulo Moura, e as cantoras Nora Ney, Dolores Duran, Doris Monteiro e Silvia Telles.
E os novos compositores: Luís Bonfá, Billy Blanco e o imortal Tom Jobim.
"O pessoal se reunia para ouvir Frank Sinatra e Dick Farney, porque os discos ainda eram escassos no Brasil", recorda Eneyda.
Nos laureados anos 50, novidades fonográficas de jazz norte-americano aportavam no Brasil com meses de atraso, na cadência engatinhante da infância da bossa. O jovem Donato era inquieto.
Para se atualizar, não perdia os musicais da Metro Goldwyn-Mayer no cinema, sessões direto das 2 às 4 e das 4 às 6. Chegava em casa à tardinha e ia ao piano reproduzir as trilhas sonoras dos filmes, para não esquecê-las. "Um recorde!", orgulha-se Eneyda.
À meia-noite, o adolescente lançava os temas hollywoodianos, furando as gravadoras, no programa Ritmos da Panair no Ar, gravado na Boate Meia-Noite do Hotel Copacabana Palace. "João fazia isso tudo aos 15 anos de idade, escondido de papai", dedura, 50 anos depois, a irmã.
O crítico musical Tárik de Souza qualifica João Donato como peça-mestra na engrenagem da MPB. A regionalidade, pontua, é porto de partida para se abranger o colossal caminho percorrido pelo compositor. No caso, a música nordestina dominante na mídia do final dos anos 40 e início dos 50:
"A bordo de uma sanfona, Donato chegou a se apresentar no programa de Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, autor de ‘Mulher Rendeira’ e das composições do filme O Cangaceiro", situa.
Rápido, se engajou nas transições estéticas que desaguariam na bossa nova. Em 1951, aos 17 anos, participou do histórico disco precursor de Luiz Bonfá. Toca acordeom e estréia como compositor em parceria com João Gilberto, com "Minha Saudade".
Pela primeira vez, a avançada percepção harmônica fazia-se perceber no acetato. No outro lado do Atlântico, o pianista tingiu-se da influência caribenha, atuando com os músicos Mongo Santamaria e Tito Puente. Grava com Bud Shank, saxofonista, e inicia-se na mestiçagem MPB & jazz em três discos, a partir de 1953.
Nos Estados Unidos, deixa a trinca formidável de álbuns: Piano of Joao Donato – The New Sound of Brazil, com o alemão Claus Ogerman (arranjador do álbum Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim), em 1965; Donato/Deodato, em 1968; e o antecipador A Bad Donato – em que inaugura o instrumental eletrônico que começava a ser usado em 1970.
De volta ao Brasil, em 73, lança Quem É Quem, marco de sua carreira, no qual os instrumentais recebem letras. Dois anos depois, sai Lugar Comum, marcado pela parceria com Gilberto Gil, que assina a maioria das faixas. É a fase da expansão do repertório e das parcerias – de Gil e Caetano Veloso a Martinho da Vila e o irmão Lysias.
Caetano repartiu com o amigo Donato "A Rã", "Surpresa" e "O Fundo". O tem como beatífico:
"Donato é um santo da música. Nele, a precisão matemática é como se fosse um aroma. E a forma concisa da canção se mostra capaz de enfrentar a grande arte geral da composição. Tocando piano, vai fundo no terror da existência – densidade e amplitude na harmonia – e sobe à tona da delicadeza de um brinquedo – soltura nas melodias e ritmos. Sempre foi velho sábio e menino esperto. Sempre será".
Notória pela voz e laços de família (irmã de Chico Buarque, casada com João Gilberto, mãe de Bebel Gilberto), Heloísa Maria Buarque de Hollanda, a Miúcha – que compartilhou da música e amizade de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, também se derrete em elogios:
"Donato vai direto ao ponto. Sua leveza e humor são enormes, na música ou na personalidade. Sou muito fã".
Gilberto Gil, por sua vez, brinca com a poesia do nome: "João é dó natural, é dom natural", simplifica.
Voltando à magical mistery chair, preterindo a sagrada prática de Debussy, Donato passou a madrugada inteira montando a poltrona. "Seu Trono", caçoa a gaúcha Ivone Belém, 42, esposa, que em 2005 trocou o Planalto Central para viver com ele na Urca. Ela administra sua carreira dentro e fora dos palcos:
"O João tem mania de ir aos supermercados dos outros países. Compra biscoitos, pasta de dente, creme de barbear, leite condensado – só besteira. Experimentou a poltrona várias vezes antes de comprá-la", entrega.
Pelotense tresloucada de olhos azuis-orbitais, Ivone fala do relacionamento com o marido. Seu jeitão "meio maluca-para-quem-não-conhece" foi das coisas que, de cara, chamou a atenção do quieto observador Donato – que na rubrica amor não é marinheiro de primeira viagem.
Foi namorado de Dolores Duran. Ela costurava os seus pijamas e morreu no mesmo dia em que ele embarcou para os Estados Unidos. Lá, engraçou-se por Patrícia, mulherão de quase 2 metros, atriz e filha de latinos, com quem teve a filha Jodel. Ficaram juntos sete anos.
Casou-se depois com Ana Maria, uma das mulatas do Sargentelli. Nasceu Joana. O matrimônio com Leila, mulher presenteada com mais de 30 canções (entre as quais "A Paz" e Leilíades, álbum gravado em 1986), foi o mais conturbado. Ivone e Donato se conheceram em Brasília.
Ele foi lançar o songbook organizado pelo músico Almir Chediak (assassinado em 2003). Ela, acompanhar uma amiga que preparava reportagem sobre o "mito da bossa nova". Em pleno show no Carpe Diem, Donato mal a avistou e não se fez de rogado: abandonou o piano, foi à mesa e tascou-lhe um beijo na boca, relembra a mulher.
Foi amor à primeira vista. No primeiro encontro, em dezembro de 1999, o experiente coração não segurou a emoção do novo amor e teve um infarto. Passou dez dias no Hospital de Base de Brasília.
Em retribuição à atenção de médicos, enfermeiros e pacientes, após ganhar alta, deu um show no auditório do hospital. A casa de Donato esconde musicalidades sortidas em cada canto: o som do piano, o piar da natureza.
No quintal, o calopsita Elvis assovia a linha melódica de "Bananeira" para os passantes – ensinada por Donato. Há anos imemoriais não muda hábitos. Sempre disposto, as horas ao piano são à noite. Ao largo do dia, o descanso.
Na intimidade de um dos mais altos espíritos da MPB, decodifi cador da bossa nova, visionário da discoteca, “o homem que levou o Acre mais longe”, à noite a casa recolhia-se para dormir – menos Donato.
Madrugada adentro, ao piano, dedilhou amenamente seu Debussy.
Muitas dessas histórias a cineasta Tetê Moraes vai rodar no documentário Simplesmente João Donato, em fase de captação de recursos. "Será revelada a chave do pensamento musical donateano: as pinceladas sinfônicas, a imersão na salsa, a fusão do partido alto com a bossa, o flerte constante com o jazz", enquadra a diretora.
Ela conta que o projeto nasceu do desejo, expresso pelo artista, de assistir sua vida adaptada à linguagem cinematográfica. O filme parte de sua primeira composição, aos 6 anos, no Acre. Navega por sua explosão de genialidade criativa, no Rio de Janeiro, e deságua na consagração internacional.
Os parceiros Caetano, Chico Buarque, Gal Costa, Henri Salvador, Joyce, João Gilberto, Nana Caymmi e Paulo Moura dão seu testemunho. Nasci para Bailar: João Donato ao Vivo em Havana é outro projeto de Tetê Moraes – e realização de antigo sonho de João, que há tempos queria registrar um álbum ao vivo com músicos cubanos.
O material foi gravado no Festival Internacional de Jazz Plaza, em Havana. Em duas apresentações, Donato fez uma jam session com o pianista Chucho Valdés. Os shows em Cuba antecederam a renúncia de Fidel Castro, que retirava-se da presidência após 49 anos no comando.
O brasileiro estampou os jornais cubanos do dia 15 de fevereiro; e a carta de Fidel foi assinada no dia 18 – embora a notícia tenha saído na edição especial do dia seguinte. Por isso, antes mesmo de ser lançado, Nasci para Bailar já é gravação histórica.
Entre os parceiros musicais de Donato, Clifford Everett "Bud" Shank pode ser considerado um dos mais significantes. Recém-chegado nos Estados Unidos, o acreano fazia périplo pelas gravadoras tentando emplacar sua música pouco aceita no Brasil.
Acabou na Pacific Jazz, onde foi recebido pelo diretor musical Richard Bock, que dele gostava por tê-lo ouvido no álbum João Donato e Seu Trio Muito à Vontade (1962). Bock se encontraria com Bud Shank, artista contratado da Pacific Jazz, para tratar da gravação de novo disco e prometeu que mostraria a música de Donato ao saxofonista.
"Shank gostou tanto que marcou uma gravação inteira com as minhas composições", conta Donato. Bud Shank & His Brazilians Friends é o álbum resultante desse encontro: "Desde a escolha do repertório, tudo foi feito por Donato", escreve Shank na contracapa do disco.
Em seguida, fizeram uma série de apresentações por São Francisco – "Foi quando as portas dos Estados Unidos se abriram para Donato", contextualiza o músico norte-americano. O cantor Henri Salvador, francês nascido na Guiana Francesa, tinha forte ligação com o Brasil.
Sua canção "Dans Mon Île", de 1957, segundo catedráticos, teria influenciado Tom Jobim na gênese da bossa nova. Seu último álbum antes de morrer, Révérance (2006), foi arranjado por Jacques Morelenbaum e teve a participação de Donato.
"Quando Henri me procurou, querendo dar sabor brasileiro ao disco, imediatamente pensei no sotaque musical de Donato", ilustra Morelenbaum. "Concluí que seria a escolha perfeita para o disco, além de deliciosa oportunidade de conviver e aprender com ele".
Próximo dos 90 anos de idade, Salvador declinou de vir ao Brasil para fazer a gravação das bases de Révérance. Sabendo da maestria de Donato e confiando na reputação de Morelenbaum, o músico francês deixou a responsabilidade nas mãos dos dois – só apareceu no estúdio mais tarde, nas gravações das partes orquestradas com cordas e sopros.
"As sessões foram enormemente ricas, pois a cada passada das canções novas pérolas se criavam – e Donato, com o desprendimento dos verdadeiros gênios, estava sempre pronto e disposto a experimentar", lembra o regente.
Porém, de todos os músicos com quem tocou, Donato descreve Chet Baker como um dos mais afáveis. Os dois se conheceram nos nigthclubs de Los Angeles nos anos 60. Baker o tinha visto uma noite qualquer, conta Donato.
"Um bom menino", comprova. Na época, admite, seu conjunto era ruim, a ponto de o gerente do Clube Trident, em Salsalito, dizer-lhe: – "Puxa, esse trio está horrível!"
E sugeriu: – "Você não conhece nenhum jazzista para botar na banda?" – "Conheço, sim: Chet Baker", respondeu Donato.
O grupo foi reformado para apresentar Chet, convidado especial. "A gente tocava coisas dele e nossas, brasileiras", dedilha o pianista.
Anos antes, o trompetista conhecera fama e tornara-se mito com "My Funny Valentine" – que, recorda Donato, interpretaram nas poucas datas em que tocaram juntos. Não durou muito:
"Certo dia, Chet apareceu ensangüentado no hotel. Dentes quebrados, dizia ter sido agredido na Broadway Street. Introvertido, falava pouco e desaparecia. As pessoas me perguntavam: 'Cadê Chet?' Todos os dias, a mesma dúvida: apareceria ou não? Nunca mais apareceu e esse foi o fim da história".
Donato encomendou sua biografia ao jornalista carioca Antonio Carlos Miguel. A idéia partiu do próprio biografado, com o desejo de contar sua vida em detalhes. A história de ambos, entretanto, inicia-se em 1974, quando Miguel o "descobriu" no disco Cantar, de Gal Costa – no qual toca piano e compõe:
"Fui atrás do LP que lançara pouco antes, Quem É Quem, e confirmei o quanto sua música era especial", afirma Miguel.
Donato ligou certa noite, em 1985, relembra o jornalista, e disse que teria um show em São Paulo na semana seguinte: precisava de um texto biográfico para a divulgação. Miguel disse que tudo bem, teria o maior prazer em redigi-lo – poderiam combinar um encontro no dia seguinte.
A proposta não foi aceita.
"Me disse que viajaria cedo para São Paulo e que só sobrara aquela noite. Era perto das 22h e não tive alternativa. Donato pegou um táxi, chegou em casa e, enquanto eu escrevia, sentou no piano e ficou conversando comigo e minha mulher, que esperava nosso primeiro filho. Depois, disse que não tinha como me pagar, mas escreveria uma música para Kati e o bebê. Até hoje a música não nasceu – Marlon tem 21 anos e também adora Donato e sua obra. Além do ídolo próximo, ganhei um amigo para toda a vida", homenageia o amigo.
Quando pára pra pensar em Donato, a história mais marcante que vem à cabeça do músico Marcos Valle é a dos tempos de Quem É Quem.
"O Donato me ligou um dia, de passagem pelo Rio. Estava em busca de um amor perdido e, como não o achou, disse estar de malas feitas para voltar aos Estados Unidos. Quis saber por que não ficava mais um pouco. Explicou nada mais ter a fazer no Brasil, a não ser que lhe conseguisse algo. Pedi um tempo – meu objetivo era gravar um disco dele pela Odeon, gravadora com a qual eu possuía contrato como intérprete".
Valle foi conversar com o amigo Milton Miranda, diretor artístico da gravadora, e lançou a idéia. Entretanto, por mais que Milton gostasse de Donato, recusou-se totalmente – pelo trabalho, sabia que o acreano daria. O músico, porém, não desistiu.
Conversou com o amigo por horas, até vencê-lo pelo cansaço: "Milton disse que, se produzisse o disco, se tomasse conta, liberava para gravação", conta.
O maestro Lindolf Gaya, integrante da diretoria, também precisava ser convencido. Sua reação foi idêntica à de Milton, ou seja, um "não" bem grande. "Mas insisti até convencê-lo. Pronto, gravaríamos Quem É Quem".
Imediatamente, Marcos Valle ligou para Donato, deu-lhe as boas-novas e ordenou que desfizesse as malas:
"Marcamos o primeiro encontro do álbum lá em casa. Nesse dia, por acaso, o cantor Agostinho dos Santos fazia uma visita. Ouvimos umas fitas do Donato com músicas inacabadas – todas sem letra – e comecei a organizar aquilo tudo".
Valle e Donato foram escolher letristas e arranjadores para o novo disco. Ao ouvir Donato cantarolar "umas coisas estranhas" nas fitas, Valle teve a idéia de anotar as frases. Depois, pediu para o músico as repetir no estúdio.
"Visava manter o clima das fi tas, e assim foi feito em Quem É Quem. Fico feliz em ter mantido o Donato no Brasil, vendo-o trabalhar, compor e gravar.” Ficar no país, de fato, só fez bem a Donato.
Não esconde seu entusiasmo com Quem É Quem na carta a João Gilberto, de 13 de setembro de 1973:
"É meu melhor trabalho em discos até o momento, tendo-se em conta o tempo que demorou, o que demonstra o máximo cuidado com o que tudo aconteceu. E o resultado é um disco que eu acho adorável".
Nos final dos anos 60, Sérgio Mendes levou Donato ao Japão pela primeira vez, acompanhando o grupo Bossa Rio. A viagem, revê Mendes, foi a semente que frutificaria na gravação do mitológico A Bad Donato.
Bob Krasnow, diretor do selo californiano Blue Thumb, foi junto na turnê, viu o "Goldfinger" do Acre em ação e saiu de lá alucinado. O resto é história. As afinidades musicais entre Mendes e João cruzaram o tempo.
Timeless e Encanto, os últimos blockbusters de Mendes, têm cinco canções de Donato. Foi o acreano quem o acolheu em Los Angeles, ainda na década de 50:
"Ele já morava lá e encontrou o meu primeiro apartamento", faz justiça. E complementa: "É um dos artistas mais incríveis que conheço. Como pianista, sou grande fã. É o 'piano econômico do bom gosto'", escolhe as palavras.
Antes de falar sobre seu disco mais psicodélico, o criador anuncia a novidade – a gravação de A Bad Donato 2, prevista para este ano. Ele explica como será produzida:
"A metodologia será a mesma de 38 anos atrás, mas com tecnologias e sonoridades atuais. A cabeça é a mesma de sempre", constata. – E a música de A Bad 2?
– "Só precisa ter suingue, balanço, ritmo, animação, sei lá como é. Senão fi co meio sem graça", descontrai.
– "A Good Donato", arrisco. Ivone rebate prontamente: "A God!".
E todos desabam em gargalhadas.
Lá pelos idos de 1970, Donato não desconfiava da atemporalidade do disco: "Nunca tenho idéia da importância das coisas. Nada é pretensioso ou ambicioso. Faço fazendo. Tudo é tão simples”, desmistifica.
– Como foi gravar A Bad Donato? – quero detalhes.
– "Entrei no estúdio e saí tocando com os camaradas. Busquei o estilo funk de James Brown, que me entusiasmava na época e ainda hoje", diz com a peculiar simplicidade.
- E a malvadeza do nome?
– "Partiu do pessoal da companhia. Deveria ser João Donato & sua Orquestra, mas era muito careta. Alguém pensou em A Bad Donato e ficou" – narra o protagonista.
Ano passado, Donato foi convidado para fazer o show inédito – no Brasil e no mundo – de seu disco mais experimental. Topou. Recrutou os músicos de sua banda – Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo), Jessé Sadoc (trompete) e Ricardo Pontes (sax e flauta) –, chamou o reforço de Bocato (trombone) e alistou o filho, Donatinho (23, tal qual o pai, autodidata do piano), para cuidar dos efeitos siderais do espetáculo A Bad Donato.
A experiência foi testada no projeto Virada Cultural. "Foi sensacional", diz Donatinho. "O público urrava quando meu pai adentrou o palco vestindo casaco com capuz, boné e óculos escuros". Donato pai aprova e quer repetir a dose: "Deu vontade de tocar mais".
Só para constar: Donato tem 198 gavetas abarrotadas de fitas cassete com gravações autorais, de todas as suas fases – ora organizadas pelo jornalista Marcelo Froes, proprietário do selo fluminense Discobertas. Talvez, um dia, essa preciosidade ganhe edições.
No apartamento na urca, diante da fiel Shiatsu Massaging Cushing, João Donato – homem cuja musicalidade fala no lugar das palavras – repete ao piano a harmonia composta a partir dos ruídos emitidos pelo assento musical.
Ouso propor: "Que tal 'Samba da Poltrona Magnética'?".
Ri, quase aprova e, sorridente: "Samba da Cadeira de Massagem", refaz, satisfeito.
O jornalista Cristiano Bastos é co-autor do livro Gauleses Irredutíveis (Editora Sagra Luzzatto). Rolling Stone/Junho de 2008.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
fRANK sINATRA: a aRTE dE dIZER
domingo, 29 de novembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
o cORAÇÃO dELATOR*
EDGAR ALLAN POEOuvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.
É impossível saber como a idéia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal.
Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso!
Um de seus olhos parecia o de um abutre - um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.
Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra!
Nunca fui tão gentil com o velho como durante toda a semana antes de matá-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza!
E então, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeça, punha lá dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e então eu passava a cabeça. Ah! o senhor teria rido se visse com que habilidade eu a passava.
Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para não perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeça toda pela abertura, o mais à frente possível, para que pudesse vê-lo deitado em sua cama. Aha! Teria um louco sido assim tão esperto?
E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado — ah!, com tanto cuidado! —, com cuidado (porque a dobradiça rangia), eu a abria só o suficiente para que um raiozinho fino de luz caísse sobre o olho do abutre.
E fiz isso por sete longas noites, todas as noites à meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e então era impossível fazer o trabalho, porque não era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno.
E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava Com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite.
Então, o senhor vê que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, à meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia.
Na oitava noite, eu tomei um cuidado ainda maior ao abrir a porta. O ponteiro de minutos de um relógio se move mais depressa do que então a minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira a extensão de meus próprios poderes, de minha sagacidade.
Eu mal conseguia conter meu sentimento de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo pouco a pouco a porta, e ele sequer suspeitava de meus atos ou pensamentos secretos.
Cheguei a rir com essa idéia, e ele talvez tenha ouvido, porque de repente se mexeu na cama como num sobressalto. Agora o senhor pode pensar que eu recuei — mas não.
Seu quarto estava preto como breu com aquela escuridão espessa (porque as venezianas estavam bem fechadas, de medo de ladrões) e então eu soube que ele não poderia ver a porta sendo aberta e continuei a empurrá-la mais, e mais.
Minha cabeça estava dentro e eu quase abrindo a lanterna quando meu polegar deslizou sobre a lingüeta de metal e o velho deu um pulo na cama, gritando:
— Quem está aí?
Fiquei imóvel e em silêncio. Por uma hora inteira não movi um músculo, e durante esse tempo não o ouvi se deitar. Ele continuava sentado na cama, ouvindo bem como eu havia feito noite após noite prestando atenção aos relógios fúnebres na parede.
Nesse instante, ouvi um leve gemido, e eu soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de tristeza — ah, não! era o som fraco e abafado que sobe do fundo da alma quando sobrecarregada de terror. Eu conhecia bem aquele som.
Muitas noites, à meia-noite em ponto, ele brotara de meu próprio peito, aprofundando, com seu eco pavoroso, os terrores que me perturbavam. Digo que os conhecia bem. Eu sabia o que sentia o velho e me apiedava dele embora risse por dentro.
Eu sabia que ele estivera desperto, desde o primeiro barulhinho, quando se virara na cama. Seus medos foram desde então crescendo dentro dele. Ele estivera tentando fazer de conta que eram infundados, mas não conseguira.
Dissera consigo mesmo: "Isto não passa do vento na chaminé; é apenas um camundongo andando pelo chão", ou "É só um grilo cricrilando um pouco". É, ele estivera tentando confortar-se com tais suposições; mas descobrira ser tudo em vão.
Tudo em vão, porque a Morte ao se aproximar o atacara de frente com sua sombra negra e com ela envolvera a vítima. E a fúnebre influência da despercebida sombra fizera com que sentisse, ainda que não visse ou ouvisse, sentisse a presença da minha cabeça dentro do quarto.
Quando já havia esperado por muito tempo e com muita paciência sem ouvi-lo se deitar, decidi abrir uma fenda — uma fenda muito, muito pequena na lanterna. Então eu a abri — o senhor não pode imaginar com que gestos furtivos, tão furtivos — até que afinal um único raio pálido como o fio da aranha brotou da fenda e caiu sobre o olho do abutre.
Ele estava aberto, muito, muito aberto, e fui ficando furioso enquanto o fitava. Eu o vi com perfeita clareza - todo de um azul fosco e coberto por um véu medonho que enregelou até a medula dos meus ossos, mas era tudo o que eu podia ver do rosto ou do corpo do velho, pois dirigira o raio, como por instinto, exatamente para o ponto maldito.
E agora, eu não lhe disse que aquilo que o senhor tomou por loucura não passava de hiperagudeza dos sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um ruído baixo, surdo e rápido, algo como faz um relógio quando envolto em algodão.
Eu também conhecia bem aquele som. Eram as batidas do coração do velho. Aquilo aumentou a minha fúria, como o bater do tambor instiga a coragem do soldado.
Mas mesmo então eu me contive e continuei imóvel. Quase não respirava. Segurava imóvel a lanterna. Tentei ao máximo possível manter o raio sobre o olho. Enquanto isso, aumentava o diabólico tamborilar do coração. Ficava a cada instante mais e mais rápido, mais e mais alto.
O terror do velho deve ter sido extremo. Ficava mais alto, estou dizendo, mais alto a cada instante! — está me entendendo? Eu lhe disse que estou nervoso: estou mesmo.
E agora, altas horas da noite, em meio ao silêncio pavoroso dessa casa velha, um ruído tão estranho quanto esse me levou ao terror incontrolável. Ainda assim por mais alguns minutos me contive e continuei imóvel.
Mas as batidas ficaram mais altas, mais altas! Achei que o coração iria explodir.
E agora uma nova ansiedade tomava conta de mim — o som seria ouvido por um vizinho! Chegara a hora do velho! Com um berro, abri por completo a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele deu um grito agudo — um só.
Num instante, arrastei-o para o chão e derrubei sobre ele a cama pesada. Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado. Mas por muitos minutos o coração bateu com um som amortecido. Aquilo, entretanto, não me exasperou; não seria ouvido através da parede. Por fim, cessou.
O velho estava morto. Afastei a cama e examinei o cadáver. É, estava morto, bem morto. Pus a mão sobre seu coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava bem morto. Seu olho não me perturbaria mais.
Se ainda me acha louco, não mais pensará assim quando eu descrever as sensatas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava, e trabalhei depressa, mas em silêncio. Antes de tudo desmembrei o cadáver. Separei a cabeça, os braços e as pernas.
Arranquei três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Recoloquei então as pranchas com tanta habilidade e astúcia que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia detectar algo de errado. Nada havia a ser lavado — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue.
Eu fora muito cauteloso. Uma tina absorvera tudo - ha! ha!
Quando terminei todo aquele trabalho, eram quatro horas — ainda tão escuro quanto à meia-noite.
Quando o sino deu as horas, houve uma batida à porta da rua. Desci para abrir com o coração leve — pois o que tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais de polícia.
Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeitas de traição haviam sido levantadas; uma queixa fora apresentada à delegacia e eles (os policiais) haviam sido encarregados de examinar o local.
Sorri — pois o que tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, disse, fora meu, num sonho. O velho, mencionei, estava fora, no campo. Acompanhei minhas visitas por toda a casa. Incentivei-os a procurar — procurar bem. Levei-os, por fim, ao quarto dele.
Mostrei-lhes seus tesouros, seguro, imperturbável.
No entusiasmo de minha confiança, levei cadeiras para o quarto e convidei-os para ali descansarem de seus afazeres, enquanto eu mesmo, na louca audácia de um triunfo perfeito, instalei minha própria cadeira exatamente no ponto sob o qual repousava o cadáver da vítima.
Os oficiais estavam satisfeitos. Meus modos os haviam convencido. Eu estava bastante à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia animado, falaram de coisas familiares. Mas, pouco depois, senti que empalidecia e desejei que se fossem.
Minha cabeça doía e me parecia sentir um zumbido nos ouvidos; mas eles continuavam sentados e continuavam a falar. O zumbido ficou mais claro — continuava e ficava mais claro: falei com mais vivacidade para me livrar da sensação: mas ela continuou e se instalou — até que, afinal, descobri que o barulho não estava dentro de meus ouvidos.
Sem dúvida agora fiquei muito pálido; mas falei com mais fluência, e em voz mais alta. Mas o som crescia - e o que eu podia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito parecido com o som que faz um relógio quando envolto em algodão.
Arfei em busca de ar, e os policiais ainda não o ouviam. Falei mais depressa, com mais intensidade, mas o barulho continuava a crescer. Levantei-me e discuti sobre ninharias, num tom alto e gesticulando com ênfase; mas o barulho continuava a crescer.
Por que eles não podiam ir embora? Andei de um lado para outro a passos largos e pesados, como se me enfurecessem as observações dos homens, mas o barulho continuava a crescer. Ai meu Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — vociferei — xinguei!
Sacudi a cadeira na qual estivera sentado e arrastei-a pelas tábuas, mas o barulho abafava tudo e continuava a crescer. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E os homens ainda conversavam animadamente, e sorriam.
Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não? Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! - Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia!
Qualquer coisa seria mais tolerável do que esse escárnio. Eu não poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouça! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!
— Miseráveis! — berrei — Não disfarcem mais! Admito o que fiz! levantem as pranchas! — aqui, aqui! — são as batidas do horrendo coração!
*Mestre.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
bAÚ mUITO bEM tRANCADO*
Disputas judiciais entre familiares de Raul Seixas barram novos lançamentos do músico baianoPOR CRISTIANO BASTOS
Nos anos 60, o "vidente" da comunicação Marshall McLuhan profetizou: "O meio é a mensagem". E a mensagem é, justamente, a herança mais valiosa transmitida pelo missivista do rock brasileiro - Raul Seixas (1945-1989).
A música foi o "meio" escolhido, veículo através do qual, por toda a vida e obra, insultou o "monstro sist". Hoje, contudo, refém de várias contendas judiciais pelo imaterial espólio, tem seu libelo asfixiado pelo mais complexo e surpreendente dos sistemas: a família.
Dos milhares de fãs de Raulzito, morto aos 44 anos, poucos sabem que ele deixou três herdeiras: as filhas Simone Vannoy (38) e Scarlet Vaquer (33), que vivem nos Estados Unidos desde crianças, e Vivian Seixas (27), no Brasil.
As duas primeiras, frutos da união conjugal de Raul com as norte-americanas Edith Wisner e Gloria Vaquer Seixas (hoje Sky Keys), respectivamente; a terceira, fruto do relacionamento amoroso com Angela Affonso Costa, autointitulada Kika Seixas.
Além da abastada fortuna musical, Raul Seixas não deixou patrimônio significativo, sequer existe espólio aberto. Nesses 20 anos, tudo o que suas filhas herdaram consiste em direitos autorais - de execução e imagem - pagos ao longo dos anos.
O astro baiano é o que se pode chamar de "long-seller": verdadeiro fenômeno, absolutamente espontâneo. Antiga, a briga (que nada tem a ver com música) desenrola-se em um cenário "internacional".
Nos Estados Unidos, as sucessoras de Raulzito defendem o lançamento de vários projetos envolvendo a obra do pai - muitos dos quais vetados na Justiça por Kika Seixas, que hoje atua como procuradora legal da filha, Vivian Seixas.
A procuradora de Simone Vannoy, a advogada Flávia Vasconcelos, ressalta que as três herdeiras detêm todos os direitos de autor e conexos relativos à obra de Raul Seixas, assim como os direitos de uso de sua imagem e nome.
Na prática, pontua, significa que somente elas podem autorizar ou desautorizar qualquer projeto:
"O equívoco ocorre porque muitos consideram Kika como 'viúva de Raul Seixas' e, em consequência, detentora de tais direitos. No entanto, como não se casaram oficialmente, ela não é viúva dele". Apenas Simone, Scarlet e Vivian são as legítimas herdeiras.
Primogênita de Raul, Simone conta que, na medida do possível, procura não envolver-se nesses conflitos judiciais, mas, regularmente, diz cultivar a memória do pai.
"Tenho todas as músicas dele em meu iPod e as escuto com frequência. Escutar sua música, assistir seus vídeos, ouvir suas entrevistas e ler artigos sobre ele me ajudam a entender o homem e pai que não cheguei a conhecer".
Em outra declaração, escudada por Vivian, Kika justificou sua decisão baseando-se pelo "teor do livro". Segundo disse a caçula de Raulzito à reportagem da Rolling Stone, o jornalista insistiu em bater na tecla da relação do cantor com as drogas.
Proibido pelas filhas de Garrincha, que diziam defender a "integridade moral" do pai, o livro, posteriormente, foi liberado. Castro é curto e grosso: "Biografia autorizada não é biografia; é press-release".
AS PROIBIÇÕES
sábado, 21 de novembro de 2009
vETO a bIOGRAFIAS eSTÁ pERTO dO fIM, aFIRMA pALLOCCI
Deputado é autor do projeto de lei que tramita na Câmara e modifica artigo sobre obras não autorizadasterça-feira, 17 de novembro de 2009
pRENDA&tROVADOR




*Nas fotos, Teixeirinha posa ao lado de sua "consorte" (amante, na realidade: ele era casado com Zoraida), a cantora e acordeonista Mary Terezinha Cabral Brum, Mary Terezinha - hoje rebatizada Mari Terezinha.Com Mary, o astro gaudério teve dois filhos e ao lado dela travou trovas de arrebatador sucesso, os chamados "desafios": "Briga de Amor", Chumbo Grosso", "Desafio da Louça".
Antes de conhecer o cantor de "Coração de Luto", ainda guria Mary sabia tocar todas as músicas do ídolo. Essa foi a razão pela qual, logo que ele a revelou, levou a alcunha de "Teixeirinha de saias".
Em 1961, aos 13 anos conheceu Teixeirinha numa das andanças do trovador pelos pagos de Tupanciretã, interior do Rio Grande do Sul.
Detalhe: na última foto, note o 45 empacotado no coldre do "galo velho". Para defender a prenda, certamente. O ciúme, diz-se, era o ponto mais fraco de Teixeirinha.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
tEIXEIRINHA: o dONO dAS bILHETERIAS
sábado, 14 de novembro de 2009
tEIXEIRINHA eSPECIAL (1985)*
*Especial da RBS TV sobre a morte do grande astro (trovador, compositor, realizador cinematográfico) Vítor Mateus Teixeira, o Teixeirinha (1927/1985), também chamado "O Rei do Disco".
Para saber mais sobre quem foi este universal artista, que um dia fez dupla com a linda "prenda" Mary Terezinha, dê uma passada no excelente blog - ainda que desativado - Revivendo Teixeirinha.
O blog era tocado pelo Chico Cougo, mestrando que se aventura numa tese sobre o gaúcho de Rolante. A família também mantém site oficial sobre Teixeirinha, autor do milionário single "Coração de Luto".
Sobre o especial da RBS: um "bah!" para a cobertura "marrom" (parte 4) da emissora, que, na ocasião, pôs mais lenha na fogueira televisionando intimidades um tanto sórdidas sobre o espetacular divórcio da dupla Mary & Teixeirinha.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
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Quem sou eu
- Cristiano Bastos
- Mar das Caraíbas, Jamaica
- Self Made-Man. Jornalista. Co-autor do livro Gauleses Irredutíveis. Colaborava com a Bizz. Foi repórter da Bien'Art (Fundação Bienal de São Paulo). Escreve no site Senhor F. Faz reportagens para a Rolling Stone. Dirige o doc Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho













