quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

sÓ nÓS dOIS (1970/lP)

1970 RCA Victor
BBL 1540

Só nós dois - (Joaquim Pimentel)
Lágrimas - (Bracchi/Vrs. Amilcar Cerri-G. Pazzali)
Conselho - (Oswaldo Guilherme/Denis Brean)
Trazendo vida à minha vida - (Altemar Dutra)
Saudade danada (Nelson Gonçalves)
Dá pena (Osmar Navarro)
Insensatez (Tom Jobim/Vinicius de Moraes)
Funeral de um sambista (Jair Amorim/Evaldo Gouveia)
Foi Deus (Alberto Janes)
Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)
Cadê sono pra dormir (Anicio Bichara/José Messias)
Samba do perdão (Benil Santos/José Orlando)


a mEIA lUZ





segunda-feira, 29 de dezembro de 2008


In Brazil from the late 1960's onward, Caetano Veloso, Jorge Ben, Tom Zé, and many others blended elements of psychedelic rock, jazz, indigenous folk, with more "classic urban styles (bossa nova, samba, etc) and instrumentation.
As much a political identity movement as a cultural one (are they ever truly separate?), Tropicalia artists as a whole were interested in using artistic expression as removing barriers and as a means of enabling other societal freedoms.
Simultaneously, but across the Atlantic, European mystical trance rock of the time, beginning with outfits like Parson Sound and Amon Düül, and continued by Träd Gräs och Stenar and Algarnas Tradgard, were mining a ritualistic folk vein with electric and steel tools and similar utopian ideals. Integrating modern compositional techniques with earthy rhythms and distortion, they too blurred the lines between high and low culture.
Even though the true genesis of the recordings that became "Paêbirú" is cloaked in mystery, one can imagine Lula Côrtes and Zé Ramalho’s epiphany as it dawned on them how the quests and aesthetics of these geographically disparate movements could be combined and integrated with their own spiritual concerns.
Call it a missing link or a Rosetta Stone, but in hindsight, but "Paêbirú" is at once an utterly unique and intuitively obvious mapping and melding of all of these pieces. Bringing together an extremely talented coterie of like minded musicians (many only credited by a single name) armed with instruments ranging from the fiery (fuzzed out electric guitars and Farfisa organs) and the earthy (all manner of percussion), to the watery smooth (saxophone) and the airy (flute), Côrtes and Ramalho composed a song cycle with an LP side dedicated to each of these four elements and their place in indigenous cosmologies.
To call it ambitious is a bit of an understatement. Trance inducing yet possessing a streetwise and funky accessibility and lush arrangements, it should have been a monster success story, but then disaster struck. In a bizarrely ironic twist given the theme of the album, almost all copies were consumed in a great fire (or possibly a flood – details are again sketchy).
Rather than being widely appreciated as a masterpiece, it became notorious primarily for its rarity. And what a record the world missed out on.The Terra side begins with "Trilha De Sumé"’s opening strains of vocal chanting and buzzing drones, slithery flutes hover into view above a flurry of percussion as Ramalho's staccato bass line punches through the haze.
Ramalho's hypnotic multi-tracked vocals swarm like flies in the dust before devolving to near pre-lingual vocalization and fading out leaving only the stubbornly persistent bass and a beautifully rendered saxophone solo.
"Culto À Terra" is a chanting percussion circle nattered by a blazingly gonzo guitar lead and a return of the saxophone. This leads into the lazy afternoon jazzy "Bailado Das Muscarias" which features Toni Tôrres' arcing piano scales and Ronaldo's pixie flute eventually sharing the stage with Côrtes signature uplifting picking.Side Ar's "Harpo Dos Ares" floats and whooshes on arpeggiated guitar and flute augmented by Côrtes and Ramalho’s vocal animal calls.
It's a journey through the forest canopy held aloft on a delicate instrumental lattice. I must admit to being at a distinct disadvantage not speaking Portugese because although the lyrics to all songs are printed in the CD booklet, they are only done so as reproductions of the original album sleeves, and not translated to English, so I cannot even begin to decipher the lyrics but "Nâo Existe Molhado Igual Ao Pranto" continues the trip into darker territory musically.
Gone is the lilting picking replaced by a more mournful sparse and blues-tinged conversation between the guitar, sax and flute. Overlapped moans and wails yield only temporarily to Ramalho's nearly spoken vocals in a disorienting but hypnotic whirlpool. "Omm" continues the spiral inwards with its meditative tone. Side Fogo wastes no time clearing the air with Don Tronxo's incendiary guitar solo over Côrtes' self-assured stride.
"Nas Paredes Da Pedra Encantada"'s wavering and fuzzed organ intro recalls some of Tom Zé's best grooves, but Zé never hit the pure motorik rave-up heights that the ensemble achieve here. Lock-step drumming and a throbbingly insistent bass line underly wild organ squiggles, shouted vocal outbursts, and euphoric alto sax calls to the sky as the fire gains strength.
"Marácas De Fogo" steps up the funk as Ramalho seems to exhort the band to flee the studio and dance through the streets. Side Agua's "Louvaçao A Iemanjá" earns perhaps the purest Tropicalia nod with an a capella call and response evoking Veloso's fondness for the simplicity and directness of this arrangement.
"Regato Da Montanha" finds a sweet balance between the sounds of flowing water, nimble distorted electric guitar, and multiple percussive grooves. The call and response of the side opener is recalled in the playful echoing of the guitar lines.
"Beira Mar" successfully marries the fluid jangle and stuttering of guitars with indigenous instruments and field recordings. "Pedra Templo Animal"'s waterfall of a bass line caresses another fine ensemble piece and "Trilha De Sumé" ends the record as the morning mist yields to a beautiful sunburst of acoustic guitar.
A CD reissue faces a difficult problem with this release, namely that the original double LP format is really the best way to present it (will someone please consider a vinyl reissue?!?). Given the spatial constraints of a CD, Shadoks has done a pretty nice job in its presentation.
The CD booklet reproduces the cover art from the original release including pictures of Ramalho's penetrating wide-eyed stare and Côrtes’ intent concentration on his guitar as well as shots of all of the other musicians and Côrtes' liner notes (like the lyrics in the original Portugese).
But perhaps the nicest touch is the lovely photo of the Mayan (?) runes that formed at least part of the inspiration for Paêbirú.
While there may be none remaining alive that can fully decipher the meaning of these ancient stone carvings, it should be hard to find anyone that can remain unaffected by the singular experience of "Paêbirú."

*Steve Rybicki (Foxy Digitalis)




A música de Lula Côrtes e do grupo de artistas que formavam a cena musical de Recife, na década de 70, têm conexões muito fortes com a psicodelia norte-americana, inglesa e européia.
Ao mesmo tempo, tem qualidades desafiantes: poder e significado artísticos mais profundos que - meramente - os "das fronteiras".
Como a melhor arte psicodélica do mundo, a produzida pela "Geração Lula Côrtes", além da originalidade, demonstra visão muito forte ao referendar, por exemplo, os povos indígenas de regiões específicas do Brasil e seu tradicionalismo.
Da exata forma como, a seu modo, estilo e época, o Velvet Underground criou uma sonoridade especificamente yankee, e o Pink Floyd e o Tyranossaurus Rex produziram o equivalente britânico. Na Alemanha, Podem e Faust forjaram a própria música alemã contemporânea...
A música de Lula Côrtes, decididamente, é brasileira. E, territorialmente, do Recife. Claramente, seu trabalho (obviamente, também o de seus colaboradores) seguiu um trajeto de obscuridade através dos anos.
Tão importante quanto o VU, na América, a música dessa geração provou ser verdadeiramente visionária - capaz de criar ondas enormes de inspiração para pouquíssimos povos escutar... Algo que se dá com o indecifrável mistério de Paêbirú.
A arte de Lula Côrtes deixou impressões muito poderosas. No Brasil, nem tanto; mas, agora, no mundo. Nesse artista, há algo que vai além de talento puro e visão e insere sua arte psicodélica de Paêbirú no rol de muitas das "mais finas faixas psicodélicas gravadas na América do Norte e Europa".
A música de Côrtes, verdadeira e fortemente independente (seus colaboradores podiam criar com pleno controle de sua própria visão: não apenas na escrita, mas tocando, gravando, produzindo e embalando arte), refletiu-se no resultado final dos álbuns Satwa, No Sub Reino dos Metazoários e Paêbirú - testamentários, na minha opinião, do "poder profundo da liberdade artística e verdadeira criação".
São obras de energia maciça e transbordante que têm uma carga mágica... Livre espírito: rebelde e bonito ao mesmo tempo. Contrapeso duro de se conseguir, afinal de contas. Os fatos e circunstâncias nas quais tais álbuns foram feitos (aonde, quando e como), os faz ainda mais surpreendentes. Artística, histórica ou heroicamente falando.
Essas são algumas das razões principais que me fizeram querer reeditar as gravações e registros fonográfics desse pessoal. Na música, tudo vem em ondas. Penso que, nesse momento, estamos numa dimensão paralela aos 60’s e 70’s, no rock. Contudo, com a equivalência e a energia desafiantes do punk rock.
Os artistas sempre quiseram se expressar livremente fora de todas as réguas ou limitações. Há uma geração nova inteira de músicos que procuram a inspiração do passado para tanto. Assim, os álbuns de Lula Côrtes & Turma, desde os tempos do selo Abrakadabra, criaram uma dimensão paralela perfeita para a revisão destas épocas e idéias. Sem anacronia.
Muitas facetas dessa música cabem perfeitamente no interesse musical mundial – sempre a renovar-se nos "povos psicodélicos", "subterrâneos" ou "na música experimental" planetária. Também na evidente "natureza livre" que os álbuns do udigrudi nos transmitem.
A atmosfera está abarrotada de música de má qualidade - e radicalmente comercial. Mais do que nunca, entretanto, os fãs da música que fala com sentimento e paixão reais encontram-se pelo mundo.
Espero pelo tempo em que Lula Côrtes será reconhecido como autor-artista verdadeiro. Não somente no Brasil: mas, inserido na comunidade mundial da música. Com o tempo, sua influência se alastrará, com certeza.
Seja nas reedições de discos clássicos ou numa mais do que merecida atenção dos meios de comunicação. Embora eu já esteja muito feliz em vê-la acontecer - em certa medida - e muito orgulhoso por ter feito minha parte para ajudá-la a acontecer longitudinalmente.
*Texto de Nemo Bidstrup escrito para a produção Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú e a cena psicodélica de Recife nos anos 70, o Udigrudi. Bidstrup é proprietário do selo Time-Lag Records, baseado em Portland (Maine), que lança bandas folk e psicodélicas de todo o mundo. A Time-Lag fez reedições especiais - em CD&LP - dos álbuns Paêbirú, Satwa e No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro. Todos esgotados

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

a cRÍTICA...

Na crítica especializada brasileira, os únicos entusiasmados com Paêbirú, na época de seu lançamento, foram os jornalistas Celso Marconi e Paulo Klein.

Na edição de 9 de julho de 1976, Klein, do Diário do Grande ABC, escreveu o texto "Mitos e segredos na Terra de Sumé dos Cariris".

O repórter "cantou a pedra":

"Paêbirú permanecerá silencioso como a Pedra do Ingá, com suas escrituras mágicas, ritualísticas e infinitas, atravessando os tempos com sua verdade muda, gravada a ferro e fogo na rigidez da pedra, impenetrável como a consciência de nossa época.

(...) Quanto à música, é das mais dignas já surgidas por aqui, e passá-la em apreciação é impossível longe de um toca-discos.

O jornalista Celso Marconi resenhou no Jornal do Commercio, de Recife, em 1975: "Ninguém, no Brasil, atualmente está fazendo algo nem mesmo semelhante. É preciso salvar esse álbum, e não é só isso. Fazê-lo chegar a todo o país, principalmente ao mercado Rio/São Paulo. Quem não ouviu (ou não ouvir), inapelavelmente, estará por fora".

lULA cÔRTES: rOSA dE sANGUE (1980)

LULA CÔRTES - Rosa de Sangue Rosemblit - LP 20.005
Folk - Psychedelic - 1980

Lado A

Lua Viva
Balada da calma
Casaco de pedras
Nordeste oriental
Bahjan - oração para Shiva

Lado B

São Tantas as Trilhas
Noite preta
Dos inimigos
A pisada é essa
Rosa de sangue


Em 1978, o lançamento de "Avohay" com Zé Ramalho (ex-'da Paraíba') consolidava a presença da moderna música nordestina no cenário musical brasileiro.
Antes dele, em 1972, Alceu Valença e Geraldo Azevedo já tinham se aventurado pelo centro do país em busca de espaço, gravando, com ajuda de Rogério Duprat, um raro álbum anunciando as novas sonoridades nordestinas, ainda ignoradas.
Em 1972, também chegava às lojas o primeiro álbum do Quinteto Violado que, apesar de trazer uma versão quase progressiva de "Asa Branca", ainda estava preso às formas musicais mais tradicionais da música da região.
Nesse meio tempo, Alceu Valença, com a trilha de "A Noite do Espantalho" (de Sérgio Ricardo), "Molhado de Suor" e, ainda, "Vivo", gravado ao vivo, em 1974, apontou as possibilidades mercadológicas daqueles novos sons.
"Vivo", especialmente, registro de shows realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo, talvez tenha sido a primeira demonstração - para os ouvidos do centro do Brasil - do que estava sendo, ou já tinha sido, gestado em Recife naqueles primeiros anos da década de setenta.
Na mesma música, havia a linguagem poética nordestina, o instrumental típico da região, mas também um 'jeito rock and roll' de cantar, e a energia roqueira da época, principalmente por conta da guitarra do genial Ivinho.
Entre os anos de 1972 e 1974, a cidade de Recife, capital de Pernambuco, viveu grande agitação cultural, com destaque para a produção musical, que deixou raros e clássicos registros em vinil.
A raiz da produção musical recifense, estavam a influência da Jovem Guarda e da beatlemania, com seus diversos grupos locais, e, também, ou principalmente, a psicodelia original pós-Woodstock, e sua versão nacional, traduzida pelo tropicalismo.
Entre o final dos anos sessenta e o início dos anos setenta, Recife foi agitada por grupos como Os Ermitões, Os Bambinos, Os Moderatos (os três com participação de Robertinho de Recife), The Silver Jets (de Fernando Filizola, depois Quinteto Violado) e Os Selvagens (de Ivinho e Almir Oliveira, depois Ave Sangria), entre outros.
Zé Ramalho, por exemplo, também passou pela experiência, tocando com Os Quatro Loucos, em substituição a Vital Farias e, depois, nos The Gentlemans, que faziam a ponte João Pessoa-Recife.
No início dos setenta, foi a vez de grupos como Laboratório de Sons Estranhos (Aristides Guimarães), Arame Farpado (de Flávio Lira, depois Flaviola), Phetus (de Paulo Rafael, Lailson de Holanda e Zé da Flauta) e, o mais famoso, Tamarineira Village (de Marco Polo, Almir Ferreira, Paulo Rafael e Ivinho, entre outros), que deu origem ao Ave Sangria.
Além de centro cultural da região, a capital de Pernambuco era a sede da gravadora Rozemblit, que nos 70 fora uma espécie de porta-voz da produção alternativa nacional, gravando grupos de garagem como Beatniks, De Kalafe e A Turma, Os Baobás e artistas que se firmaram anos depois, como Zegê (Zé Geraldo).
Mas, a gravadora fundada em 1954 pelos irmãos José, Isaac e Adolfo Rozenblit cresceu e afirmou-se com a produção de música regional, especialmente o frevo, lançada ainda no tempo do 78rpm, no mercado regional.
Nos anos sessenta e setenta, a gravadora também ampliou seu cast com artistas da MPB, como Jorge Ben, e ainda passou a editar intérpretes e grupos estrangeiros, a maioria alternativos para a época, como os americanos Lovin' Spoonful, por exemplo.
Esse caldeirão de influência resultou em obras tão geniais quanto ainda desconhecidas, do que é maior expressão o álbum duplo Paêbirú, que reunia Lula Côrtes & Zé Ramalho, em uma viagem psicodélica inédita para os padrões musicais brasileiros.
Dividido em quatro partes - água, fogo, terra e ar - o som radicaliza todos os conceitos da psicodelia, fundindo guitarras distorcidas a la Hendrix com as cores, ritmos e alegorias regionais -como nem o tropicalismo ou os Mutantes com Rogério Duprat tinha ousado fazer.
São ainda dessa época, além de Paêbirú, os discos Satwa com Lula Côrtes & Lailson, No Sub Reino dos Metazoários com Marconi Notaro (que marcou a estréia de Zé Ramalho em disco), Flaviola e o Bando do Sol, com Flávio Lira (mais toda a turma, destacando Lula Côrtes, Paulo Rafael, Robertinho de Recife e Zé da Flauta) e, ainda, Ave Sangria, com o Ave Sangria.
Sobrepondo-se às dificuldades técnicas da época, a música contida nesses poucos mas fundamentais álbuns é mais do que um registro da cena de uma determinada região, mas a prova material da influência profunda e definitiva que aqueles sons produziram na música jovem nacional.
Todos clássicos, esses álbuns traduzem um dos momentos mais ricos, inventivos e alucinados da criação musical brasileira, tão desconhecido no país, quanto reverenciado por colecionadores em todo o mundo, que pagam pequenas fortunas pelos LPs originais.
Inéditos em CD, os álbuns vêm sendo resgatados pelo MP3, democratizando a acesso das novas gerações à informações essenciais para a compreensão da evolução global da moderna música brasileira.
Geraldo Azevedo & Alceu Valença, com Geraldo Azevedo e Alceu Valença (72)
No Sub Reino dos Metazoários, com Marconi Notaro (73)
Satwa, com Lula Côrtes & Lailson (73)
Paêbirú, com Lula Côrtes & Zé Ramalho (74)
Flaviola e o Bando do Sol, com Flaviola e o Bando do Sol (74)
Ave Sangria, com Ave Sangria (75)
Molhado de Suor, com Alceu Valença (75)
Vivo, com Alceu Valença (76)
Espelho Cristalino, com Alceu Valença (77)
Avohay, com Zé Ramalho (77)
Jardim de Infância, com Robertinho de Recife (78)
Ivinho ao Vivo (em Montreux), com Ivson Wanderley (Ivinho)
Bicho de 7 Cabeças, com Geraldo Azevedo (79)
Caruá, com Zé da Flauta e Paulo Rafael (80)
Rosa de Sangue, com Lula Côrtes (80, inédito)
O Gosto Novo da Vida, com Lula Côrtes (81)
Bom Shankar Bolenajh, com Lula Côrtes & Jarbas Mariz (1988)
*Fernando Rosa é editor do site SenhorF

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


MARCONI NOTARO - No Sub Reino dos Metazoários
Progressive - Psychedelic - 1973

Lado A

Ah Vida Ávida
Made in PB

Lado B

Antropológica ii
Sinfonia em Ré
Não Tenho Imaginação pra Mudar de Mulher
Ode a Satwa



"Made in PB" (letra: Zé Ramalho / guitarra: Robertinho de Recife)



Em 1974, ano em que Paêbirú foi concebido, os irmãos/músicos paraibanos Pedro Osmar e Paulo Ró invadiam o cenário cultural de João Pessoa com o grupo-manifesto Jaguaribe Carne.

Na Paraíba, para enfrentar a ditadura militar, o Jaguaribe Carne armou-se para uma verdadeira guerrilha cultural. A munição que tinham: anti-música & antiarte.


Em meados dos anos 1970, assim eram tachados os grupos que professavam preceitos como "estudo, difusão, prática, experimento e intercâmbio cultural". Clichê, hoje, de qualquer grupo autointitulado "transgressor".

O Jaguaribe Carne tem importância grande, seja em João Pessoa como nas diversas localidadezinhas nordestinas nas quais sua proposta de arte desconstrutora conseguiu chegar.

Pensar o interior do Brasil, iconoclasticamente, fora dos grandes centros urbanos - não se pode  negar: é proposta das mais verdadeiramente atraentes.

As metrópoles - indica o conturbado tédio reinante - esvaziaram-se de tudo. Especialmente de temáticas.

Muitos músicos estagiaram no grupo paraibano, como Chico César, que se uniu ao Jaguaribe (ou ao Carne) recém-chegado à capital, João Pessoa. César vinha de Catolé do Rocha.

O som do Jaguaribe: ciranda, coco, maracatu, caboclinho e boi - em suas raízes. E, por outro lado, o mundo: música oriental, africana, vanguardas européias, modernismo brasileiro, jazz.

A história da Jaguaribe Carne, spobre a qual Pedro Osmar conta um pouco nessa entrevista, também virou documentário - Jaguaribe Carne: Alimento da Guerrilha Cultural. A produção é da Gasolina Filmes e a direção, assinada pela dupla Fabia Fuzeti e Marcelo Garcia.

Na sua opinião, Paêbirú ajudou a desenvolver o cenário paraibano?

Pedro Osmar - Paêbirú é um caso à parte na discografia nordestina, fruto do "entretenimento experimental" de músicos pernambucanos e paraibanos em suas buscas pessoais por saídas na fusão do rock com a cultura popular (Chico Science nem era nascido ainda...).

Pena que eles não tenham seguido essa linha de experimentação nos anos 80 em diante! Mas geraram a vanguarda da música nordestina a partir de Alceu Valença com a música-manifesto "Vou danado pra catende" (apresentada no festival Abertura, da Rede Globo, em 1975).

Certamente que Alceu não estava sozinho. Com ele estavam Lula Cortes, Zé Ramalho, Ivinho, Israel Semente...E isso gerou um liquidificador bem nervoso que vem rolando coisas até os dias de hoje, tal a força dessa energia criadora.

Como andavam as coisas por aí, por volta de 1975, ano de lançamento de Paêbirú?

Pedro Osmar - João Pessoa vivia o auge da vivência teórica e prática do tropicalismo nordestino, por meio das ações polêmicas de Carlos Aranha e seu grupo, Jomard Muniz de Brito, Celso Marconi, Raul Córdula, Chico Pereira, Unhandeija Lisboa e também Zé Ramalho, Jarbas Mariz, Babi, Paulo Paiva, Paulo batera...

Enfim, a galera pensadora e dos conjuntos de bailes, botando pra quebrar. Isso criava um certo clima de efervescência entre os compositores que, como eu, estavam engantinhando na música.

Mas era um tempo de muito embate estético, dos confrontos da bossa nova, da canção de protesto, da música regional, da jovem guarda, nos festivais de música. Algo bem vigoroso para todos. Praticamente a maioria das grandes obras dos compositores paraibanos vieram desse período.

O Jaguaribe Carne está em qual contexto desta história? E que nome esse! Explica:

Pedro Osmar - O grupo Jaguaribe Carne de Estudos surge no meio dos festivais de música dos anos 70, especificamente em 1974, num festival estudantil promovido pelo gremio do Liceu Paraibano.

Os festivais é quem ditavam a moda naquele tempo, era para onde tudo convergia. O Jaguaribe Carne pôde fazer a diferença com suas experimentações, com sua "arte querendo ser diferente dos outros"...

E conseguimos manter essa identidade até hoje, chegando a ser um grupo de arte multimídia com produção ímpar. O nome do grupo tem a ver com nossas inquietações pelo novo, pelos estudos autodidatas das linguagens experimentais e pela coragem.

Coragem de ousar ser diferente, ocupando o lugar de destaque nas idéias que circularam e circulam, até hoje, na cultura paraibana.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

mOLHADO dE sUOR (1974)

Produção musical: Eustáquio Sena
Arranjos de base: Geraldo Azevedo & Alceu Valença
Arranjos de percussão: João Côrtes
Arranjos de Cordas e metais: Waltel Branco
Alceu Valença: lead vocals & acoustic guitar
Lula Côrtes: dulcimer
Geraldo Azevedo: craviola & brazilian acoustic guitar
Piri: craviola & mandolim
Cassio: guitar bass & brazilian acoustic guitar
João Côrtes: druns
Hermes: percussion
Ronaldo: flute

terça-feira, 23 de dezembro de 2008



Conta sobre a época em que a Ave Sangria surgiu.

Marco Pólo - Estávamos em plena ditadura militar. Uma parte dos jovens se engajou na luta armada. Outra, como era o meu caso, na arte. Uma arte comprometida com a ruptura, a afronta ao moralismo vigente, ao cerceamento à liberdade.

Eu morava no Rio e quando cheguei no Recife, no final de 1972, encontrei a cena musical fervendo.

Havia as bandas Nuvem 33, muito boa, Flaviola e o Bando do Sol, também excelente, Phetus, Licar, Marconi Notaro e outros. Logo depois houve um festival em Fazenda Nova, que ficou conhecido como o "Woodstock pernambucano".

Foi nossa primeira apresentação com o nome de Tamarineira Village, uma referência ao Hospital Psiquiátrico da Tamarineira e à Vila dos Comerciários, perto de onde a maioria dos membros da banda morava.

Depois, nos apresentamos no Beco do Barato e no Teatro do Parque, com shows que tinham por nome Fora da Paisagem e Corpo em Chamas. Fomos contratados pela Continental pra gravar um LP. Enxugamos o grupo, deixando só os músicos profissionais. Antes participava, informalmente, todo mundo. Cerca de umas 15 pessoas. E mudamos o nome da banda para Ave Sangria.

Gravamos e o disco começou a tocar nas rádios. Veio a Censura e recolheu das lojas e proibiu de tocar. Fizemos o show Perfumes & Baratchos no Teatro de Santa Isabel e encerramos a banda.

E o lance glitter?

Marco Pólo - Não nos vestíamos de mulher. Apenas eu usava batom, durantes as apresentações, e depois os outros membros da banda passaram a usar também, mas só durante os shows. Queríamos chocar os burgueses, o machismo, o moralismo da tradicional família pernambucana.

Israel Semente, nosso baterista, tinha mania de me dar uma bitoca (encostava os lábios nos meus), como se fosse um beijo, em pleno palco, era um escândalo. Depois de me ver cantar "Seu Waldir" (canção que, em tom de deboche, falava do amor de um homem por outro), um amigo meu deixou de falar comigo.

Mas as menininhas burguesas sabiam qual era nosso verdadeiro interesse sexual.

De que forma a Ave Sangria coloca-se no chamado "udigrudi nordestino"?

Marco Pólo - Éramos, fundamentalmente, uma banda de rock, do rockão pesado. Mas, também tocávamos baião, maracatu e samba (a música "Seu Waldir", que provocou a proibição do disco, na época, é um samba de breque). Tocávamos baião e maracatu com a mesma fúria guitarreira como quando tocávamos nossos rocks.

Nossas influências eram os Beatles, os Stones, Hendrix e Jackson do Pandeiro. Ou seja, como na música dele, o Jackson, misturávamos o chiclete americano com a banana brasileira. Fazíamos uma fusão, o que era visto como heresia por grupos musicais tradicionalistas e seus defensores.

*Na foto, Marco Pólo está à direita da ninfa (pobre menor 30 anos atrás...) prestes a ser "imolada" pelo bando de cabeludos.

Os demais são Ivson Wanderley (guitarra solo e violão), Paulo Rafael (guitarra base, sintetizador, violão, vocal), Almir de Oliveira (baixo), Israel Semente (bateria) e Juliano (percussão).

Não, necessariamente, nessa ordem.

Play the Ave:

"Seu Waldir"

"Corpo em Chamas"

"Geórgia, a Carniceira"


Flaviola e o Bando do Sol (1974)

Canto Fúnebre
O Tempo
Canção do Outono
Do Amigo
Brilhante Estrela
Como os Bois
Romance da Lua


O casarão do músico pernambucano Alceu Valença é um dos pontos turísticos da histórica Olinda. Do andar de cima se avista o verdejante mar que rodeia o Brasil antigo.

Não é possível mirar o oceano sem pensar na história do país. Por instantes, paro e a imagino tudo o que de melhor (e pior), em mais de 500 anos, desembarcou por essas divisas marítimas.

É difícil descrever a sensação.

Disputas, comércio de especiarias, tráfico de escravos - e o traço holandês, cuja herança cultural afeiçoa-se a rostos, à arquitetura de prédios históricos e aos mínimos detalhes da colorida complexidade de Pernambuco.

Brincalhão e sagaz, Valença é um prosador nato e o principal animador do carnaval da cidade. Todos os anos, diretamente de sua sacada, ele esquenta os foliões tocando frevos, toadas e contando animados causos de nordestinidade.

À revista Brasileiros, ele falou de tudo um pouco: sua infância, as influências musicais, carreira, shows. Para quem pensa que mercado independente é coisa de artista moderno, Alceu foi um dos primeiros artistas a ter o comando da própria carreira – um feito e tanto ainda hoje no Brasil.

Não toco na rádio, não pago jabá e não estou em nenhuma grande gravadora. Perguntam-me sempre: 'Por onde andavas, tão desaparecido?' Eu falo: 'Por aí, velinho, dando show para trinta mil pessoas em algum lugar desse país'", diverte-se. "Entendeu, velho?", diz seu bordão predileto. E assim iniciamos a conversa.

Onde começa sua história?

Alceu Valença – Na Fazenda Riachão, em São Bento do Riachão, uma cidade entre o agreste e o sertão pernambucano. Foi nesse lugar que ouvi os primeiro sons de minha vida: a voz melancólica dos cantos dos vaqueiros boiadores. Escutando o cantado dos vaqueiros, a voz dos cegos de feira. Vivi um nordeste totalmente diferente ao de hoje. Aliás, um mundo completamente diferente. Houve uma revolução tecnológica. Participei de duas: saí do canto medieval e vim bater na internet.

Canto medieval?

Alceu Os aboios são medievais, o modo como os violeiros e os cegos de feira tocam. São menestréis, então, é uma tradição ibérica que veio bater no Brasil, evidentemente na época do descobrimento. Convivi muito com isso, meu avô manejava uma viola que só. Também fazia versos de improviso, além de tocar e ler música. Nessa cidade, São Bento do Una, eu também ouvia as vozes e sons da feira, mas já estão se extinguindo.

Como você tornou-se artista?

Alceu Minha família toda é muito musical, apenas meu pai e minha mãe não são. Como papai e mamãe não faziam música, eu também não podia. Ficava ali sem poder cantar, só ouvindo. Não poder tocar e cantar foi um complexo terrível que carreguei até os 13 anos. E eu queria tocar violão porque havia uma febre na minha rua. O velho achava que música era algo estigmatizado, coisa de cachaceiro... (pára para pousar para a foto).

Como fazia para ouvir música?

Alceu Em minha casa não tinha toca-discos. Até que um dia, depois de tanta reclamação, compraram uma radiola. Papai comprou, mas não liberava grana para comprar os discos. A mesada era muito pequena. Era minha irmã que comprava os discos, mas eles não faziam minha cabeça. Ela tinha discos de Cauby Peixoto, Roberto Carlos, que era uma coisa que eu gostava, mas muito distante. Tinha um disco do Peri Ribeiro de bossa nova que eu gostava! Mamãe terminou comprando um violão para mim, só que não me deram professor. Aprendi sozinho. Mas, até hoje, não toco muito bem.

Quais foram suas principais influências?

Alceu Luiz Gonzaga e aqueles que o influenciaram. Gonzaga é filho musical dos mesmos violeiros de minha infância. Ele fez a síntese dessa cultura – digamos que ele seria os Beatles. Ouço tanto Luiz Gonzaga quanto os músicos anônimos que o influenciaram. É diferente do cara que, hoje, pega o disco do Gonzaga sem ouvir o que esteve atrás.

E a influência da cultura brasileira, do folclore, entre os músicos?

Alceu O folclore já morreu. Quando se fala em folclore existe um senso pejorativo a respeito. Penso no folclore como o arcabouço cultural que um povo construiu. No Brasil, deixaram o folclore de lado (imita contorcendo o rosto de modo blasé), viraram a cara. Mas se metem no blues, por exemplo, que particularmente, acho maravilhoso. Não se dão conta que o blues, na verdade, nada mais é que do que folclore. Vem da raiz folk. Só que é folclore norte-americano. Existe no Brasil uma total falta da curadoria. Ninguém sabe mais "o que é o que não é".

O que falta no Brasil?

Alceu Nós vivemos carentes de novidades, de oportunidades para conhecer coisas mais genuínas. Dentro da classe intelectual há uma vontade de mudança, mas pouco muda. Em 1988, eu estava preocupadíssimo, não suportava mais o meu próprio sucesso. Queria que aparecesse alguma coisa, e apareceu, não foi? Chico Science, com o mangue beat. E fui vítima desse “novo” que surgiu. Não por parte do mangue beat, mas dos intelectuais que renegavam o passado recente da música pernambucana. Fui um artista que foi “destruído” com a vinda do mangue. E por quê? Achavam que duas vertentes, o novo e o velho, não davam para conviver dentro do mesmo cenário. Fiquei como careta da história. Mas o povão, não. O povo, me público, não me viu como “ultrapassado”. Neste momento eu já tinha rompido com tudo, já achava uma bosta a indústria de cultura. Disse a mim mesmo: "Vou exortar o que resta do meu público, e que já era algo enorme. Na época de rejeição, cheguei a 26 mil pagantes. Fui viajando pelo Brasil e acumulei um público que é absurdo. Sou uma das exceções do mercado.

Como você avalia o mercado musical atual?

Alceu No nordeste, está acontecendo uma coisa que não é fenômeno musical - é um fenômeno mercadológico. Dinheiro, negócios. Como você faz para ganhar dinheiro e conservar seu valor artístico? Tenho um público maravilhoso, imenso. Sou um fenômeno, fenômeno que a mídia não viu - e estou literalmente cagando para a mídia, pode escrever. Mesmo assim, qualquer show que faço é entupido de gente. Eu convoco o povo, é uma loucura.

* Na foto: Zé Ramalho, Alceu Valença e Lula Côrtes: o "Trio de Catende". Assista o clipe de "Vou Danado pra Catende", única filmagem do grupo existente. Gravado no Festival Abertura, da Rede Globo (1975), cujo nome fora sugestão do general Figueiredo à abertura política. Também se apresentaram Jards Macalé e Walter Franco, entre outros.





segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


Não se escuta na terra quem for santo
Não se encobre um só rosto com dois mantos
Não se cura do mal quem só tem pranto
Nenhum canto é mais triste que o final

Não se ouve nos ares nenhum canto
Nem nos cantos da noite nenhum grito
Não se mata o que é feio com o espanto
Não se chora ou agora o que é bonito

Não se pode entender sabendo pouco
Não se dá nota aguda estando rouco
Não se encontra o que é duro aonde é oco
Nem silêncio onde só existe o grito

Música e arranjo - Zé Ramalho & Lula Côrtes
Voz - Zé Ramalho
Viola de 10 - Geraldinho
Tricórdio - Lula Côrtes
Sax - Dikê
Viola de 12 - Zé Ramalho
Berimbau - Jarbas Selenita
Baixo - Lula Côrtes
Flauta em Só e Dó - Ronaldo
Percussão - Lula Côrtes e Zé Ramalho
Lamentos, Suspiros, Conversas, Risadas - Alceu
Geraldinho e Lula Côrtes
Letra - Lula Côrtes


Zé da Flauta é um dos "personagens" de Paêbirú. Em 1974, participou da gravação do LP gravado em quatro canais, na Rozemblit, pela dupla Zé Ramalho Lula Côrtes.

Paêbirú ainda teve grandes participações de músicos como Geraldo Azevedo, Ivinho, Paulo Rafael e Dikê. É de Zé o sax de "Nas Paredes da Pedra Encantada". Na realidade, sua primeira gravação profissional.

Iniciou sua carreira artística em 1970, na cidade de Recife, tocando com músicos como Don Tronxo (guitarrista da trovejante "Raga dos Raios", da parte Fogo), Agrício Noia, Robertinho do Recife, Marconi Notaro e Flaviola. O Zé nos conta um poucas de suas histórias daquele tempo - e de agora.

No videoclip de "Vou Danado pra Catende", o Zé é o "cara da bata". No post seguinte, um texto que ele próprio escreveu sobre "o quão duro" era fazer música pop no Recife dos 1970's...Vai lá.

Zé, tudo bom?!

Zé da Flauta - Tudo ótimo, como sempre!

Como era o ambiente das gravações e composição de Paêbirú, dá pra lembrar?

Zé da Flauta - Eu estava com 18 anos quando decidi ser músico profissional. Foi quando também conheci Lula Côrtes e Kátia Mesel, por intermédio de uma prima que era amiga deles. Logo em seguida, conheci Lailson no Conservatório Pernambucano de Música, onde me iniciei nos estudos. Vivíamos na repressão militar, religiosa e familiar e, a casa de Beberibe, onde Lula e Kátia moravam, era o verdadeiro templo da liberdade e da contra-cultura.

Um lugar onde aprendi muito sobre arte e liberdade de expressão. Lá se conversava e se fazia de tudo, inclusive se fumava muita maconha. Se falava muito sobre arte. Foi nesse ambiente que vi nascer Paêbirú e outros discos dos quais participei.

Ninguém sabia o mínimo de teoria musical: tocavamos por pura intuição e rebeldia. Eu mesmo estudava flauta e resolvi comprar um sax que fora de Felinho, um grande saxofonista da década de 50 em Recife. Felinho foi o criador da improvisação no frevo.

Me senti honrado por comprar tal instrumento. Mas, como não conhecia direito o saxofone, paguei por um objeto defeituoso que, na realidade, não servia nem como luneta. Era difícil tirar som naquele instrumento.

Eu não tinha uma boquilha boa e não encontrava a palheta certa. O que me lembro claramente é que cheguei na casa de Lula com ele debaixo do braço e, duas horas depois, estava no estúdio da Rozemblit gravando com ele e Zé Ramalho.

Nunca vou me esquecer disso, pois aquela foi a primeira vez que eu entrei num estúdio para gravar como músico.

Você toca com frequência na Europa. Já vieram lhe comentar sobre Paêbirú?

Zé da Flauta - Sim! Uma vez em Berlim, 2006. O pessoal de uma rádio, com uma intérprete brasileira. Perguntaram sobre Paêbirú e também sobre o grupo de heavy metal Hanagorick, daqui do interior de Pernambuco.

Esses caras fazem o maior sucesso por lá, são famosos. São de Surubim, a terra do Chacrinha.

Dá pra definir "udigrudi"?

Zé da Flauta - É apenas uma terminologia. Naquele caso, nos anos 70, não caracterizou um movimento musical. Era apenas um momento de excitação, perturbação, inquietação artística. Não foi uma idéia com manifesto, objetivo e consistência, como foi o mangue na década de 90.

Alguma história para nos contar de 33 anos atrás?

Zé da Flauta - Cara, são várias! O problema com a censura era grande, com a Polícia Federal, também. Para se fazer um show, tínhamos que fazer prévia para a polícia... Só então eles decidiam se tua banda podia ou não fazer o show, peça de teatro ou o que fosse.

Para se colocar um cartaz na rua, ou mesmo in dor, por exemplo, tinha que ter o carimbo da censura política e estética e, às vezes, isso só podia ser feito no dia do show.

O tricódio de Lula, que ele trouxe do Marrocos, virou um símbolo visual, sexual, sonoro da época. Todos os discos gravados por essa turma, inclusive o meu com Paulo Rafael, tiveram a participação de Côrtes.

Veja como ele dá um brilho especial em "Vou Danado Pra Catende", do Alceu Valença. Neste momento, estou escrevendo um livro de memórias que pretendo lançar no final de 2010.

E hoje?

Zé da Flauta - Ando tocando no meu estúdio, compondo trilhas para TV, filmes, peças de teatro, produzindo discos e artistas. Atualmente estou trabalhando com a SpokFrevo Orquestra, um grupo que ajudei a criar com o objetivo de mostrar o frevo apenas como linguagem musical, sem o folclore. Já tocamos na China, por toda Europa. Vamos para a Índia em outubro. Nós somos uma Big Band de frevo. Eu não toco na orquestra, apenas produzo. Nos assista.

Ouça o Zé:

"Rebimbela da Parafuseta" - álbum Caruá (1980)
Zé da Flauta e Paulo Rafael


Hoje em dia é uma maravilha. Lasca mesmo era fazer música pop em Pernambuco, nos anos 70. Vocês não imaginam a loucura que era. Na cidade toda só existia um equipamento de som para todo mundo. Jamais podia haver dois shows no mesmo dia, a não ser que fosse no mesmo lugar. O P.A. era tão grande que cabia dentro de uma kombi e às vezes só chegava em cima da hora, acabando com nossos nervos.

Equipamento pra ensaiar também era um drama arretado. A gente tinha que alugar ou pedir emprestado aos conjuntos de baile. Como não existiam estúdios apropriados, como hoje, fazíamos um enorme barulho em nossas casas e nas dos amigos, enlouquecendo os ouvidos dos nossos pais e os dos vizinhos.

Estúdio para gravar era outro problema. Só existiam a Rozemblit, na Estrada dos Remédios, a Center, na rua da Concórdia, e o estúdio da TV Universitária, na avenida Norte, que de vez em quando era usado para gravar discos.

Naquela época existiam os grupos Nuvem 33, Phetus, Tamarineira Village (que depois que foi gravar no Rio, voltou com o nome de Ave Sangria), o Ala D'Eli, de Robertinho de Recife, Flaviola e o Bando do Sol, Marconi Notaro, Zé Ramalho, Lula Côrtes, Aristides Guimarães, Aratanha Azul e outros. Por isso, o grande sonho de todos era ir ao Rio ou São Paulo tentar gravar um disco e ver se descolava uma vaguinha à luz do sol. Muitos conseguiram, como Geraldinho Azevedo, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda e Zé Ramalho. Os que ficaram, gravaram aqui mesmo, na Rozemblit.

O LP Satwa, de Lailson e Lula Côrtes, que é o tempo todo um tricórdio e uma craviola, é uma verdadeira obra-prima. Tem melodias lindíssimas e é o primeiro disco independente do Brasil: data de janeiro de 1973. Depois veio Marconi Notaro no Sub-Reino dos Metazoários, gravado metade no Canal 11 e metade na Rozemblit. O disco é muito louco e na época foi proibido pela censura. O som é uma desgraça! Mas o conteúdo é de primeira.

Lula Cortes gravou com Zé Ramalho, em 1975, o famoso Paêbiru, um album duplo no qual eu toco sax soprano em uma faixa chamada simplesmente de "Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé", regravada pela banda Jorge Cabeleira e o Dia em que seremos todos inúteis (Eita, nome grande da gota!), pelo selo Chaos, da Sony Music.

Vários artistas gravaram no estúdio da Estrada dos Remédios. Seu Zé Rozemblit era um pai para essa gente. Graças ao idealismo dele nós conhecemos, além do frevo, da cantoria e da ciranda (foi o primeiro a produzir discos desses gêneros), os doidos da década de 70. O disco Flaviola e o Bando do Sol é uma jóia rara. Nele, gravei minha primeira música, como compositor. Outra raridade é o terceiro disco de Lula Côrtes, Rosa de Sangue, que a cheia de 76 quase levou rio a baixo. Quem possuir um exemplar desse disco em casa, saiba que tem uma boa grana garantida. Conheço quem pague R$ 500 por ele.

Foi no final dessa década que eu montei meu primeiro selo, o Matita Discos, que faliu com 3 compactos. Um de "Gil Som", num estilo precursor do de Falcão; um do grupo Flor de Cactus, que tinha Lenine como cantor e compositor; e um de Glaucio Costa, cantor de Garanhuns. Os dois primeiros foram gravados nas salas de aula de música da Universidade Federal. Os microfones e uma mesa de oito canais foram alugados à Maristone. O gravador era um Teac-3340S de 4 canais. Foi a gravação mais artesanal que já fiz na vida! Mas valeu ter o registro da PRIMEIRA GRAVAÇÃO DE LENINE.

Naquela época a gente sofria, mas se divertia pra burro. Se tivesse que fazer tudo de novo eu fazia numa boa. O que acontece hoje, é resultado do que fizemos antes. Não sonoramente falando, mas no sentido de luta, trabalho e quebra de tabus.

*Zé da Flauta, músico e produtor

sATWA (1973)

Rozenblit - LPP 005
Psychedelic - 1973

Lado A:

Can I Be Satwa
Alegro Piradíssimo
Lia, a Rainha da Noite

Lado B:

Blue do Cachorro Muito Louco
Valsa dos Cogumelos
Alegria do Povo

cAN i bE sATWA?*

Dentro e fora do país, o pernambucano Lailson de Holanda Cavalcanti é prestigiado por sua obra como ilustrador. No mundo, o reconhecimento vem tanto do seu traço quanto de sua música.
É de sua autoria a série clássica de HQ Pindorama, onde reconta a história do Brasil, desde a chegada dos portugueses até as eras Fernando Henrique & Lula.
Aos 17 anos, morando nos Estados Unidos, Lailson começou a publicar suas charges no jornal The Pine Cone (Arkansas, EUA), pelas quais recebeu o Award for Best Original Artwork, atribuído pela Arkansas High School Press Association.
A música veio no final dos anos 60, quando, de volta ao país passou a dividir sua arte com o rock e o folk. Formou a banda Phetus - um dos grupos seminais do rock pernambucano dos anos 70 - com o guitarrista Paulo Rafael e Zé da Flauta.
Em 1973, gravou com Lula Côrtes o LP instrumental Satwa, considerado o primeiro álbum independente editado no Brasil – hoje relançado pela Time-Lag Records (prensagem esgotada).
Gravado nos estúdios da lendária Rozemblit, Satwa foi o primeiro lançamento do selo Abrakadabra, montado pelo multi-artista Lula Côrtes e pela designer, hoje cineasta, Katia Mesel.
Lailson também deixou a marca de seu violão nordestino de 12 cordas tocando ao lado da troupe que tocou em Paêbirú.
Gravado em 1973, Satwa traz a dupla Lailson/Côrtes tomada por uma lisergia pós-flower power, capaz de assustar incautos ouvintes em pleno 2008. Músicas como "Alegro Piradissimo", "Valsa dos Cogumelos" ou "Blue do Cachorro Muito Louco" não deixam dúvidas sobre o conteúdo do vinil – 'tosco', mas com ótimo som.
Robertinho de Recife também faz uma ponta no disco, tocando 'lead guitar' na lentidão viajandona de "Blue do Cachorro Muito Louco".
O som predominante do disco, no entanto, é um folk nordestino/oriental, resultado da mistura da cítara popular tocada por Lula (trazida do Marrocos), o tricórdio, e da viola de 12 cordas de Lailson.
Fruto da cena nordestina pós-tropicalismo, como traz a ficha técnica, Satwa foi "curtido" nos Estúdios da Rozemblit, em Recife, entre os dias 20 e 31 de janeiro de 1973. Com tiragem limitada e distribuição basicamente regional, o disco desapareceu tão logo surgiu, permanecendo lenda para o restante do país.
A Time-Lag o relançou com o nome de Satwa World Edition
Como foi produzir Satwa em 1973, em Recife? Imagino as dificuldades enfrentadas...
Lailson - Foi um desafio, uma diversão e uma grande viagem. Em agosto de 1971 eu tinha retornado de um ano (1970/71) como bolsista internacional nos Estados Unidos, onde morei bastante tempo em Arkansas e depois em Nova York.
Antes de viajar eu já tinha banda de garagem com Paulo Rafael (que hoje toca com Alceu Valença e que tocou comigo e Zé da Flauta na banda Phetus) e, ao voltar para o Recife, encontrei a cidade bastante agitada.
Em novembro de 72, o DA de Medicina resolveu organizar o nosso "Woodstock" local, que foi a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, dois dias de "rock do pôr ao nascer do sol" e me chamaram para ser o coordenador da parte musical do evento, já que eu transitava pelas mais diversas bandas da cidade.
Foi aí que conheci Lula Côrtes e iniciamos uma grande amizade, pois tínhamos muita coisa em comum (desenho, pintura, poesia, música, psicodelismo).
Passado o festival, passamos a nos encontrar regularmente na casa dele e começamos a criar uma música diferente, eu com uma viola de 12 cordas e Lula com o tricórdio que havia trazido do Marrocos.
Minhas influências eram o rock e o blues. Lula, pela própria escala do instrumento oriental, criava melodias que se assemelhavam a ragas indianas. Ambos temos um "sotaque" nordestino que transparece nas músicas que compusemos naquela época.
Começamos a gravar domesticamente o que estávamos fazendo, as pessoas passaram a aparecer por lá para ver o que estava rolando e daí, para decidirmos gravar um LP, foi um pulo.
Eu estava juntando uma grana para viajar, mas resolvi investir no projeto. Então, Satwa é o resultado de tudo isso, de todo esse momento, e da época.
Satwa é considerada a primeira produção independente do rock brasileiro. Hoje, isso te espanta?
Lailson - Como falei: gravar um disco era uma coisa tão natural que nem pensamos que esse não era o caminho normal. A Rozemblit, apesar de antiga, era acessível (foi a primeira gravadora brasileira a lançar, numa coletânea, uma música do Ray Charles) e estava meio que às moscas.
Lá a gente dispunha de tudo o que era necessário: estúdio, prensagem e gráfica. Alugamos o estúdio de 20 a 31 de janeiro de 73 e gravávamos de noite, de tarde, na hora que desse, varando as madrugadas.
Foram horas de gravação, fazendo variações dos temas que estávamos compondo, dos quais selecionamos as versões que consideramos as melhores.
O estúdio tinha limitações técnicas que foram muito divertidas de contornar, como por exemplo, o fato de que se eu fosse fazer um overdub tinha que ficar tocando colado com a cabine de som, senão, dava um delay!
A capa também foi um processo conjunto: o design é de Kátia Mesel, a fotografia da capa é uma experiência de Lula, as outras fotografias são de Paulo Klein e tem dois desenhos meus na contracapa.
Por certo que sabíamos que estávamos fazendo algo novo, mas não imaginávamos que éramos pioneiros na produção do rock independente. Isso eu só vim saber quase 20 anos depois, através de pesquisadores.
Quanto ao som: o que você e Lula Côrtes pensaram, na hora de fazê-lo. O que ouviam para criar Satwa?
Lailson - Satwa é uma palavra em Sânscrito que pode ser traduzida como sendo a interface, o equilíbrio, a harmonia, entre o corpo material e o corpo espiritual. Esse é o conceito fundamental do disco: um equilíbrio entre duas coisas diferentes que se harmonizam.
O cérebro humano tem dois hemisférios, assim como o planeta Terra, e ambos se equilibram, mesmo através de conflitos. A música do hemisfério ocidental, seja o blues ou o repente de viola têm em si os elementos da cultura oriental.
Recife é, ao mesmo tempo, um pequeno ponto na beira do Atlântico e uma cidade cosmopolita em contato com o resto do mundo. A música produzida aqui é música produzida no planeta Terra. Satwa, musicalmente, transmite todos esses encontros.
O disco apresenta essa dualidade harmônica em todos os seus aspectos, como pode ser visto nas cores da capa: cian e magenta, duas cores absolutas. Não há preto, não há amarelo.
Mas, sobre o branco, as duas cores absolutas se harmonizam e criam a identidade visual específica do disco. As músicas têm e não têm letras.
Os títulos dizem tudo o que se precisa saber sobre elas: "Amigo", "Atom", "Apacidonata", "Valsa dos Cogumelos", "Blues do Cachorro Muito Louco", "Can I Be Satwa?", "Alegria do Povo", "Alegro Piradíssimo", "Lia A Rainha da Noite" - são títulos e são versos, são letras.
Mas se as músicas tivessem letras no sentido comum, elas teriam que ser submetidas à "censura prévia" da Polícia Federal da época, o que não faria nenhum sentido para o que estávamos criando.
Então, o que precisava estar escrito para dizer o que é Satwa, está escrito na contracapa.
Além do texto (contando a saga do disco musical voador que ficou preso no limbo e foi resgatado pelo Capitão Nemo da Patrulha do Salto do Tempo) que escrevi para a Time-Lag Records, que relançou o LP em 2004, acrescentei uma tradução dos títulos para que os leitores de língua inglesa pudessem também compreender esta parte da obra.
Quanto ao som que ouvíamos, variava muito. Eu era fã do Cream, Traffic, Jimi Hendrix, Jethro Tull, Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer, King Crimson e Mothers of Invention. E Beatles e Rolling Stones, claro. Mas, para criar Satwa, ouvimos mesmo foi a "música das esferas".
Como sua arte se intersecciona com tudo isso?
Lailson - No disco ela só aparece nos dois desenhos da contracapa e no selo. Naquela época (eu era praticamente um garoto), meus desenhos circulavam apenas entre os amigos e apareciam nos cartazes que eu fazia para a minha banda Phetus (surgida após Satwa) e para as bandas dos amigos, como o Ave Sangria e o Batalha Cerrada.
Era uma arte psicodélica, com elementos de fantasia e do fantástico. A partir de 1975 é que passei a publicar na imprensa e meu desenho de humor político tornou-se mais conhecido. Hoje, com os quadrinhos e a ilustração, muito do meu estilo daquela época está retornando.

*Lailson de Holanda, um dos personagens do doc Nas Paredes da Pedra Encantada. Ouça algumas canções do álbum aqui no andar de baixo, ó:





1. Trilha de Sumé


Sumé o cariri / fica perto desse mar
Fica perto da tranqüilidade
Da tranqüilidade desse mar
Peixe de pedra e espinhos no homem de ferro

Entre a luz e a linha reta que delineita o horizonte - bis
Pelo Vale de Cristal
Acredite se quiser

O viajante lunar desceu num raio laser
Num radar
Com sua barba vermelha desenha no peito a Pedra do Ingá - bis

Sumé dizei a flor
A mim mesmo e a meu irmão
Que mensagens / que caminhos

Que traços estão nesse chão?
Onde fica tua estrela?
Quanto é daqui para Marte?
Quanto pra Plutão?

domingo, 21 de dezembro de 2008


Música e arranjo - Lula Côrtes e Zé Ramalho
Voz - Zé Ramalho
Congas - Zé Ramalho, Lula Côrtes, Marcelo
Flautas em Sol e Dó - Ronaldo
Flauta Doce - Jonathas
Tricórdio solo - Lula Côrtes
Baixo - Zé Ramalho
Pente - Alceu
Sax alto e tenor - Dikê
Letra - Raul Córdula e Zé Ramalho


Louvação à Iemanja
(Linha em Nagô)

Voz -
Zé Torubamba
Coro - Preto, Lula, Katia, Zé Ramalho, Marconi
Elu (Bombo) - Zé Torubamba

Regato da Montanha
(Improviso Zé Ramalho e Lula Côrtes)

Tricórdio solo - Lula Côrtes
Viola de 12 Base - Zé Ramalho
Guitarra Solo - Zé Ramalho
Destruição da guitarra - Lula Côrtes
Efeitos - Lula Côrtes e Zé Ramalho
Percussão - Lula Côrtes e Zé Ramalho

o sOM dA pEDRA

Pedra Templo Animal

Música e arranjo - Lula Côrtes e Zé Ramalho
Trompas marinhas - Lula Côrtes
Voz - Zé Ramalho
Okulelê - Zé Ramalho
Viola de 12 - Lula Côrtes
Sereias - Katia e Inácia
Percussão - Marconi, Israel, Agrício
Baixo base - Paulo Raphael
Coro - Alceu, Zé Ramalho
Letra - Lula Côrtes



Trilha de Sumé
Culto à Terra

Bailado das Muscarias


Harpa dos Hares
Não Existe Molhado Igual ao Pranto


Raga dos Raios
Nas Paredes da Pedra Encantada

Maracas de Fogo


Louvação à Iemanjá
Beira Mar
Pedra Templo Animal

Êste disco foi gravado nos
stúdios da Rozenblit
de outubro a dezembro de 1974

Fotos da Pedra: Fred Mesel
Fotos da rapaziada: Fred Mesel e Paulinho Macedônia
Mixagem, técnico de gravação e efeitos especiais: Hélio Ricardo
Produção: Fábrica de Discos Rozenblit
Co-produção: Abrakadabra


O site Ratyourmusic montou um Top 5 Mil dos melhores álbuns de todos os tempos: Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975), de Zé Ramalho e Lula Côrtes, teve seu lugar garantido.

Na lista, o disco (classificado nos gêneros Psychedelic/Folk/Free/Jazz/Brazilian), recebeu 183 votações e ficou colocado na posição 947.

Na frente de Live From Royal Albert Hall (1998), do Spiritualized, Amon Düül II, do Yeti (1970), e do primeirão dos Stooges (!), de 1969.

E "atrás" de Screaming for Vengeance (1982), do Judas Priest, que ocupa o lugar 939, e Natty Dread, do Bob Marley (1974), no 935. Na categoria "Ano", Paêbirú foi eleito em trigésimo primeiro lugar (31), na lista dos discos realizados no mundo, no ano de 1975.

Simbolicamente, o resultado é merecido para Paêbirú - peça sonora que, no seu país de origem, permanece tão misteriosa quanto para os estrangeiros...

A seguir, leia depoimentos e impressões de algumas pessoas sobre o raro álbum (o LP original, da Rozemblit), compiladas do site da Rateyourmusic.

E, no post abaixo, fique com a reportagem especial que o programa Conexão Converse (dos eternamente clássicos All Star) fez sobre a edição do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, dos jornalistas Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim.


"Aqui sim! Psicodelia terrena em solos brasileiros. Lula Côrtes e Zé Ramalho dão a cartilha do que é psicodelia nordestina e detonam com um disco maravilhoso, de sons regionalistas e psicodelia que atravessa qualquer plano que se possa ter chegado aqui por estas terras. Eles vão muito além do que outros fizeram por aí, vide as experiências "cogumelanas" vividas empiricamente e registradas neste disco. O Zé Ramalho, já no resquício deste disco, e ainda parceria com Lula Côrtes, relembra, no primeiro disco solo de 78, em "Danças das Borboletas", o que faziam por aqui. Vale cada nota, cada arranjo, cada experimento, toda a parceria"


"Esse disco foi um 'soco no estômago' ouvir do começo ao fim e ver toda aquela viajem sendo desenhada, incrível. No geral Zé Ramalho sempre foi incrível"


"Côrtes and Ramalho took the torch where Caetano Veloso had left with his classic 1972 album Transa and, walking on its footsteps, set out to release, less than three years later, this landmark in "prog-baião" titled Paêbirú. In my view, Ramalho never made something half as good. Highly recommended"


"Unjustly ignored, Lula Côrtes and Ze Ramalho's Paebiru is a freak-folk masterpiece. It starts with the 13-minute 'Trilha De Suma' which at first sounds like an American-Indian ceremony mixed with a lively Middle Eastern folk-tune, but then turns to frantic tribal campfire jam, and then finally to a sensual folk-jazz melody. And that's just the beginning. The dreamy 'Harpa Dos Ares', that feels like a splash of sun-rays amidst some nature scenery, leads very nicely to the narcotic landscape of 'Nao Existe Molhado", and then to the dilated diffraction of 'Omm'. Then the electrifying jam 'Raga Dos Raios' leads to the feverish acid-garage 'Nas Paredes Da Pedra' and 'Louvacao A Iemanja' (which after a choral singalong proceeds to a psychedelic raga-rock accompanied by sound effects), and then to the Latin/ Middle-Eastern mixture "Pedra Templo Animal" (propelled by a funky bassline), while the evocative ending 'Sume' feels like looking-back on a long journey"


"A masterpiece of free and dilated folk, halfway between psychedelia and progressive, Paêbirú is an exceptional album which has to be brought back from the oblivion it fell into because of its provenance. It's quite close to Bruce Palmer's "The Cycle he is Complete", so much that it could be considered its Latin American counterpart: folk, tropicalism, jazz and raga-rock merge creating timeless sound islands, made out of musical phrases which flutter just hinted at, destructured but frantic jams drenched with psychedelia, and a lot of melancholy. Paebiru is one of those albums where the original vinyl is so rare that you could almost doubt its existence. If it wasn't for these sites that obsessively chart world-psychedelic music this album would probably have been forgotten about and certainly never been reissued"

MH 1000

"Psychedelia is a genre that is so broad that you really do have to have sub-genres to even consider exploring it. The world-psychedelia sub-genre is definitely one of the more interesting ones to venture into. In this area you tend to have more of a funky organic thing going on, than the usual acid-rock and acid-folk thing you're more used to. I've only just started in this area, and can't wait to dive into all these African, South American, European and Asian gems. Back to the album. I don't know too much about Paebiru other than it's Brasilian, was originally made in 1975, is something to do with a trip though the rain forest and is totally gorgeous to listen to. It comes in four sections, which makes sense as it was originally a double album, and each section (I think) relates to an element. There is a section called 'Fogo', and this has some of the best out-there guitar work I've heard. I'm not big on noisy guitar solo stuff, but on here it's exploratory and free without being rocky and indulgent. The album seems to be written in a very celebratory mood and because of this is a very joyous listening experience. I suppose if you were sitting in the middle of the rain forest looking for inspiration you couldn't help but be inspired in a celebratory way. I must explain here though that I can't understand a word they are saying, and for all I know they could be saying chop the whole place down and build a motorway. Judging buy the artwork though it looks more like they took some rain forest grown herb and were just celebrating the spiritual beauty of the whole thing.In short this is a great album that both jazzers and rock-heads will be into, definitely worth having in your collection"

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