quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

mEMÓRIAS fRAGMENTADAS*

O CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL APRESENTA:

Hou Hsiao-Hsien e o Cinema de Memórias Fragmentadas

POR CRISTIANO BASTOS

Pela primeira vez em Brasília,  o Centro Cultural Banco do Brasil fará a projeção de películas do cineasta taiwanês Hou Hsiao-Hsien. Os filmes serão exibidos de 02 a 16 de janeiro.

Iniciando a programação de 2011, a mostra "Cinema de Memórias Fragmentadas" exibirá todos os 18 filmes realizados pelo diretor. Até hoje, nenhuma dessas produções foi lançada comercialmente no Brasil.

A mostra Hou Hsiao-Hsien e o Cinema de Memórias Fragmentadas abre o ano trazendo à capital federal o consagrado Hou Hsiao-Hsien, diretor que é figura-chave do novo cinema de Taiwan. Hou também é considerado um dos cinco mais importantes realizadores do planeta.

Nas três últimas décadas, sua obra – identificada com a "bitola 35mm" – foi reconhecida em diversos festivais mundo afora. No domingo, dia 02 de janeiro, às 19h30, no CCBB de Brasília, haverá uma sessão de abertura.

Antes serão exibidos os filmes Menina bonita (Jiu shi liuliu de ta) e Vento gracioso (Feng'er titacai).

"Eu não desejo contar histórias. Meu desejo, antes, é criar climas, ambiâncias", anotou Hou Hsiao-Hsien. É com esse espírito "etéreo" que sua arte ganhará retrospectiva completa na cidade.

Hou é um cineasta laureado: foi eleito o Diretor da Década de 90 pelos críticos internacionais de Village Voice e do Film Comment e seus filmes, além de exibidos em Cannes, receberam prêmios em Berlim e Veneza.

Ainda que com inegável reconhecimento da crítica, as películas de Hou Hsiao-Hsien – as quais mal são distribuídas no Ocidente – estiveream, até agora, limitadas ao restrito circuito de festivais. Muitas delas são praticamente desconhecidas do público brasileiro.

A oportunidade é única, portanto, para se iniciar na filmografia de Hou, um dos mais renomados cineastas asiáticos da atualidade.

Gratuitamente, ao público da mostra serão distribuídos 150 catálagos que versam sobre a obra de Hou Hsiao-Hsien. A compilação reúne 18 textos inéditos de críticos de cinema como Cássio Starling, Fernando Veríssimo e Carlos Helí de Almeida.

No catálago também há ensaios escritos nas décadas de 1980/90 por autores como Olivier Assayas, Jonathan Rosembaum, Antoine de Baecque e Ruy Gardnier.

No cenário cinematográfico dos anos 90, Hou certamente é um dos cinco mais importantes realizadores. Seus filmes impressionam logo de cara pela distanciada lente com a qual focaliza seus personagens.

É, na verdade, sua característica mais recorrente – a primeira que salta aos olhos. Dois lemas de Confúcio são evocados na arte de Hou, segundo ele: "Olhar e não intervir" e "Observar e não julgar".

A estréia de Hou Hsiao-Hsien na direção aconteceu em 1980, com Menina bonita. Com seu terceiro filme, A grama verde de casa (1982), foi indicado ao Golden Horse Award, considerado o "Oscar taiwanês".

Desde então, tem contribuído para a formação de uma nova consciência acerca do cinema em Taiwan.

Internacionalmente, Hou obteve reconhecimento internacional com Os Garotos de Fengkuei (1983) e Um verão na casa do vovô (1984), ambos vencedores do Festival dos 3 Continentes, em Nantes, França.

Seu filme autobiográfico, Tempo de viver e tempo de morrer (1985), levou o prêmio internacional da crítica no Festival de Berlim em 1985 e também foi indicado melhor filme no Festival de Roterdam.

Hou Hsiao-Hsien prosseguiu fazendo filmes aclamados pela crítica: Poeira ao vento (1986) e A filha do Nilo (1987). E, gradualmente, foi considerado um dos cineastas mais inovadores do mundo.

Em 1989, seu Cidade das Tristezas ganhou o cobiçado Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em 1993, a obra-prima O mestre das marionetes recebeu prêmio do júri em Cannes.

Seus filmes seguintes, Bons homens, boas mulheres (1995), Adeus ao sul (1996), Flores de Xangai (1998), Millenium Mambo (2001), Café Lumière (2004), Três tempos (2005) e A viagem do balão vermelho (2007) foram aclamados por crítica e público.

Todas essas festejadas produções, e também muitas outras, poderão ser vistas no mês de janeiro na mostra "Hou Hsiao-Hsien e o Cinema de Memórias Fragmentadas", que será realizada no Centro Cultural do Banco do Brasil de Brasília.

Confira a programação.

ASSESSORIA DE IMPRENSA
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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

"bABY, I bORN tO lOSE"

A vida nos desfalca sem avisar, excluindo as melhores pessoas de nossa convivência. Uma delas foi embora esses dias. A notícia de sua morte chegou aos amigos por terceiros. Jairo William era o seu nome. Caveman, seu auto-apelido. Morreu por causa de complicações da Aids aos 30 anos.

É uma obrigação minha falar dele, afinal, o conheci e apresentei aos amigos meus que se tornaram os amigos dele em Porto Alegre: Carlinhos Carneiro, Marcelo Benvenutti e muitos outros. Jairo e eu nos conhecemos por causa do rock, essa é a verdade.
Por volta de 1992, auge do grunge, bairro Itú-Sabará, Porto Alegre, berço da banda Liverpool nos anos 60. Caveman morava com a família na parte superior do sobrado onde meu irmão, Marcelo, e eu trabalhávamos pro meu pai em sua empresa de artigos de pesca (!), Fish-Ton.
Éramos adolescentes. Nosso trabalho era embalar anzóis, bóias, chumbadas e outros artefatos pra pesca que meu pai revendia nos supermecados de todo o Rio Grande do Sul. Tínhamos um gato vira-latas muito meigo, o Maragato, que nos acompanhava na lida diária.
Na pestana pós-almoço, Maragato curtia aninhar-se em cima de mim pra tirar seu cochilo felino. Fora encontrado num bueiro defendendo a irmã gata do ataque das ratazanas. Um gato valente, o Maragato. Até hoje lhe sou saudoso e, por muitos motivos, ao rememorá-lo a melancolia invade meus sentimentos. Pior agora: ao pensar em Maragato Jairo Caveman vem por tabela.
Nosso encontro foi motivado por The Kinks. Em 1992, arrumar uma fitinha cassete da banda inglesa era como, guardado os devidos parâmetros, ter acesso a uma cópia de Paêbirú. Marcelo e eu trabalhávamos o dia inteiro ouvindo a Rádio Ipanema FM num rádio Telefunken circa 1973, do meu pai. "Sintonia modular".
Depois acoplamos um cassete-player e, quando a programação ficava chata, a gente apelava pras coisas que ambos ouviam na época: Velvet Underground, David Bowie e T-Rex. Um dia meu irmão arrumou vinil do álbum Tanx, que trocou por outra bolacha. Ouvir o disco foi das experiências mais mágicas que tive com arte durante um tempo bem expressivo - até que descolasse um cedê do The Slider e Eletric Warrior.
Na rádio tocava Kinks, "You Really Got Me". Os dois ficavam naquelas, sempre que ouviam: "Que fissura pra ter um disco desses caras..." Nosso trabalho era às portas abertas e, num desses dias de Kinks on the radio, Jairo, recém mudado pro andar de cima, chegou-se até a entrada, ficou sacando o som um pouquinho e, arregalando seus olhos azuis-orbitais, soltou: - Cês tão ouvindo Kinks?! Não acredito! Que massa!
A empatia foi no ato. Daí Jairo fez a grande revelação: - Eu tenho uma cassete dos Kinks.
Apavorado com a emoção da notícia, quase me deixei fisgar pelo anzol que embalava na hora. Subi até sua casa, conheci sua vó, com a qual morava e ele trouxe o the best The Kinks. Estava tudo lá: "All Day All Night", "Lola", "Set me Free", "Tired of Waiting" - enfim, parte das canções mais lindas e pungentes um dia feitas no rock. Quase chorei.
O tempo se foi, o grunge virou old fashioned e Jairo Willian Caveman mudou-se pra outro bairro. Perdemos o contato. Fomos nos reencontrar em 1998, nas cercanias do extinto Bar João, reduto dos street punks em Porto Alegre, hoje demolido. Aqueles punks que bebem cachaça, fazem artesanato e vestem camiseta da Janis Joplin.
Jairo foi o cara mais punk que conheci em toda minha vida - no que há de mais verdadeiro na etimologia. Eu estava no meio da faculdade de jornalismo, precocemente era redator da Rádio Atântida e editava junto com colegas a Revista ZE. Jairo assumia-se como o vagabundo. A vida inteira negou-se a trabalhar; sua grande preocupação era arrumar trocados pra comprar sua cachacinha de butiá no João e arrumar um baseado pra "fritar um bacon" - expressão de sua lavra.
Tinha motivos pessoais pra assumir a misantropia. Nunca o condenei pelas escolhas que fez. Jairo carregava um sentimento muito ruim, que pesava sobre sua cabeça: ter sido negado pelo próprio pai, homem bem-sucedido que o rejeitou desde criança deixando sua família na pior. Crescera sob o signo do abandono, já que sua mãe, apesar de esforçada, ter se destacado pela falta de comunicação com o filho.
Jairo foi encontrar alento e algumas respostas (?) no punk. Quando voltei a encontrá-lo, também descobria no punk como encarar certas aflições geradas pela sociedade. De Kinks, sem nunca abandoná-los, passamos à Buzzcocks, Sham 69, MC5, Stooges, Black Flag, Heartbreakers, New York Dolls, Pistols, The Boys (uma grande banda punk-mod que só ouvi com ele e nunca mais encontrei em lugar nenhum). Depois montamos uma "banda": eu (guitarra), Francis (baixo), Alisson e Caveira (hoje na Bidê ou Balde), na bateria.
O Jairo era o crooner (mistura bem realística ente Lux Interior e Robyn Tinner). Naquele tempo, Caveman desfilava frondoso corte de cabelo estilo White Panther. Os Dedicados Seguidores da Moda era o nome da banda. Barulho não faltava. O som, sim, é que era de menos. Eu atacava com um pedal Supper Fuzz Big Muff fabricado na União Soviética. Tinha cor de tanque de guerra, tamanho e peso de tijolo. A distorção era excruciantemente maravilhosa: soava como 1000 colméias em dia de festa. Éramos muito ruins e, no repertório, apenas Buzzcocks, Kinks e Mudhoney.
Jairo, com o passar do tempo, ficava cada vez mais ensimesmado. Agora percebo que a coisa só degringolou de vez quando, sem dinheiro pra bancar suas diversões entorpecentes, começou a fazer michê na rua José Bonifácio, em Porto Alegre. Jairo era assim: quando soube que Dee Dee Ramone pagava seus vícios prestando serviços sexuais, sentiu-se legitimado pelo ídolo. Numa dessas vacilou sem camisinha.
Boatos a seu respeito corriam nas rodas dos "amigos". Diziam, os maledicentes, que havia transado com fulano e sicrano. Faziam isso só pelo prazer mórbido de especular doentiamente. Uma maledicência pior que a da revista Veja. Jamais confessava sua doença aos outros. Comigo, sentia-se à vontade pra falar sobre tudo, de modo que, certa vez, me deu a entender sobre sua condição de saúde. Me chamava de Tom Verlaine...Jamais comentei com ninguém sua confissão. Viveu até seus últimos dias confecionando seus fanzines xerocados no melhor estilo Sniffin Glue. Seus textos eram mirabolantes e fantásticos, sempre com muito rock'n'roll e situações pras quais, agora, qualquer defição seria mero exercício minimalista.
Muitas vezes, tentei ajudá-lo pra ver se conseguia uma grana regular. Um desses fanzines era o Testemunhas de John Lennon. Ficava super feliz quando lhe dava umas revistas pra fazer suas colagens dadaísticas.
Inspirado em Jairo William Caveman, há quase uma década, escrevi o conto que - com todas suas imperfeições ortográficas e gramaticais originais -, reproduzo na postagem abaixo, sem me dar ao trabalho de corrigir. Flyng V: Innerspace, a história de um jovem subarbano abduzido por um casal de alienígenas swinggers.
Antes, reproduzo um texto que Jairo escreveu para Vive Le Flesh Nouveau!: "Summer 69". Sua morte ocorreu há cerca de um mês. Tomamos conhecimemento por um mero: "Tu sabia que o Jairo..." Uma amiga o tinha visto dias antes. Dissera estar "virado num palito". Pegou uma gripe e terminou seu breve show de três acordes. Não sei o dia em que nasceu, tampouco, o que morreu. Mas nada disso tem importância. Na realidade, para Jairo, nada disso importaria mesmo.
Flyng V é uma fantasia baseada na sua vida naquele momento, em algum lugar no final dos anos 90: o cara que certa vez me confessou ter se masturbado "olhando uma estela no céu". Essa história foi escrita após ter escutado tal relato. Ou melhor, escrevi pensando que a possibilidade imaginada seria uma forma plausível pra que superasse seus problemas terrenos.
Prefiro pensar na possibilidade onírica de sua morte à, simplesmente, imaginar que tenha ido ao céu ou ao inferno ou ao limbo. Não havia lugar pra Jairo Willian Caveman nesse mundo maniqueísta. Não sei se há em outros mundos. Talvez no espaço.


'Summer 69'

Jairo Willian Caveman

Ao som de "summer 69", de Pink Floyd, conto a história sobre um casal que se amava. Ela agora jaz no pijama de madeira e ele, ainda viril, chora sobre vela e despede-se da sua amada e já defunta esposa. Ele tinha 40, ela 60.
Quando se conheceram ele tinha 20, e ela, uma coroa enxuta com olhos coloridos de farolete, direcionava todo seu amor para ele, o preenchendo de libidos e magnetismo atrativo com pitadas de voluptuosidade, ela se entregou a ele.
Foram morar juntos e com o passar do tempo ele dava incomodação por ser muito novo. Ela pagava quem quisesse pra trepar com ela. Como a vida de todo casal que presta, eles inutilizavam-se aos fins de semanas pro resto do mundo e ficavam apenas em casa a se amarem.
Com o decorrer do tempo, uns dez anos de relacionamento – se não me falha a memória –, ela começou a apresentar os problemas corriqueiros da velhice: reumatismo, manchas na pele, cabelos tão soltos quanto “algodão-doce” – como dizia carinhosamente ao seu cangote enquanto transavam – câncer de mama, miomas... uma porção de porcarias que a impedia de desfrutar do sexo furtivamente, e mesmo assim possuía o amor dele em abundância, o que todo mundo admirava e apoiava.
Passando 15 anos de suas relações, os dois começaram a sentir os sintomas do declínio. Já não podiam transar embaixo do chuveiro, pois, ele sentia-se como se estivesse fazendo sexo com um cadáver: todo molengo, se largasse o boneco cairia no chão, então, transavam apenas embaixo das cobertas, se não fosse ali sua fonte de sexo ele sustentava um celibato, em espera que seu bebê morresse e ele pudesse arranjar outra, eles transavam ao som de violinos com cordas bumbadas que emitiam o tanger da angústia, da pestilência que sofre o ser humano no decorrer dos anos, quando as crinas da vara entoavam a melodia ela pedia pra parar e resmungava sorrateiramente que não era mais possível, apenas lhe olhar e ficar rememorando os bons e velhos tempos, então, se abraçavam e choravam até o despontar da alvorada, quando ela jazia completamente morta em seus braços.
Jairo Willian

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

fREE cANINOS bRANCOS

rATOS dE pORÃO

Três décadas de barulho e anarquia da banda que consagrou João Gordo

POR CRISTIANO BASTOS - ROLLING STONE

Em 2010, os Ratos de Porão celebram 30 anos de punk/hardcore com um presentão e uma certeza. O mimo é a edição de Guidable – que sai agora em DVD duplo. São seis horas de extras, entre show e clipes.

"Guidable" é piada interna cunhada pela banda. Define desde "confusão mental" até um simples, e eficiente, "foda-se".

A história dos Ratos confunde-se com a chegada do punk ao Brasil. O filme, da dupla Marcelo Appezzato e Fernando Rick, da Black Vomit, levou dois anos para ser feito com orçamento praticamente zero. A maior parte do material pertencia ao arquivo particular do vocalista João Gordo.

Precursores do punk brasileiro, como Rédson (Cólera) e Clemente (Inocentes), também dão as caras no documentário.

A certeza que traz Guidable é que, se a banda seguisse a entornar o lema de "Beber até Morrer" (um dos clipes extras) – entre outras "cositas", – nenhum dos ratos teria sobrevivido para assoprar as velinhas nesta efeméride.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

nAS eNTRANHAS dO sERTÃO bRASILEIRO

Livro revela o estilo de vida, as vestimentas e os acessórios do bando do Lampião

POR CRISTIANO BASTOS - ROLLING STONE

Acaso o nova-iorquino Andy Warhol houvesse topado com a legendária "silueta" de Virgulino Ferreira da Silva, o temido cangaceiro Lampião, provável que o mais popular entre os mitos brasileiros também seria imortalizado na sua famosa galeria de retratos – lado a lado a vultos como James Dean e Marilyn Monroe.
A impecável obra Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço, porém, restaura à lenda a "chispa" simbólica empunhada por Lampião.

Frederico Pernambucano de Mello, o autor, é autoridade no tema do cangaço.
No prefácio, rubricado por Ariano Suassuna, o armorialista-mor confessa: "É o livro que eu gostaria de ter escrito".

Estrelas de Couro, além de tudo, é um tomo lindamente ilustrado. Escava na (ainda ignota) "cultura material" estilizada via mãos e cérebro do pernambucano Virgulino, legítimo factótum.
A edição apresenta, também, peças autênticas de manejo dos cangaceiros: signo-de-salomão, cruz-demalta e a flor-de-lis são apenas parte dessa "fortuna ornamental".
"O cangaceiro", anota o autor, "vestiu-se de cor e riqueza para atender seu anseio de arte nos motivos profundos do arcaico".
Muito orgulho, cor, festa e, para tingir de vermelho, litros de sangue derramado. Excelente obra para entender um espinhoso capítulo da história do Brasil.

fASHIONGAÇO





sábado, 4 de dezembro de 2010

dANDO uMA bOA oLHADA dEBAIXO dA cAMA

Entre junho e novembro de 1991, a Editora Record tentou, essa é a verdade, publicar no Brasil o clássico gibi Tales from the Crypt, da EC Comics.

Ao todo, apenas sete parcas edições do Contos da Cripta viram a luz das bancas de jornais.

Guri novo, consegui comprar somente dois desses números.

Esse aqui é um exemplar que se salvou no alfarrábio das relíquias de minha adolescência. De dezembro de 91, a edição traz, entre outros, um conto de psico-ficção-científica muito chocante escrito por Ray Bradbury.

Jackie Davies, Kurtzmann e Frazeta são outros autores que também "exprimiram sangue" na páginas da Cripta.

Lembro ter lido e folheado o gibi, filho único, dezenas de vezes - e não sem o mesmo calafrio de sempre. O motivo eram os enredos de suspense na linha soberbamente canônica (e horripilante) do mestre Edgard Allan Poe.

Numa das estórias mais impressionantes, após cometer grave crime o bandido fica paranóico com as próprias digitais e, por fim, consigo mesmo.

Desabaladamente sai a limpar a cena do crime com igual obssessão do "noiadinho de pedra". Finalmente pira: o crime nunca compensa.

Noutro quadrinho, o pobre e desavisado viajante noturno descobre-se numa convenção de... vampiros! Tarde demais.

A única coisa, na real, que a Record fez direitinho foi apresentar material antigo da EC Comics no formato "magazine", seguindo especificações originais da revista.

Em sua existência breve, a edição nacional primou por desleixo gráfico, papel de terceira e impressão meia-boquíssima.

Não emplacou por falta de capricho.

No divertidíssimo Nostalgia do Terror dá para conhecer todas as edições da Tales From The Crypt saídas no Brasil.

O site conglomera verdadeiro universo paralelo de capas, títulos e editoras (de épocas distintas) e libera, também, downloads de hq's de artistas da velha e nova guarda.

Ainda tem contos, reportagens e o apavorante "Correio do Terror". A ilustração desse post é um almadiçoado walpapper: roube-o aqui. Seria muito legal seria se a Record - ou outra esperta editora  -reeditasse o gibi no Brasil.

E, nem é preciso dizer, com a merecida qualidade.

Enquanto não rola delicie-se com uma série de capas originais da Tales From The Crypt da década de 1950, era dourada da revista.

E, antes de ir dormir, não esqueça: dê uma boa olhada debaixo da cama!





terça-feira, 30 de novembro de 2010

bAD tRIP sIMULATOR#2

Munha do Satanique Samba Trio fala sobre a nova peça diabólica de morte da MPB

POR CRISTIANO BASTOS/URBANAQUE

Obscurantistas, sacrílegos, subversores, SATANISTAS! O Satanique Samba Trio, ou (SS3), carrega essa avalanche de alcunhas agourentas nas costas e no nome da banda com o mesmo prazer libertador que Jesus teve ao carregar a cruz.

E durante este tortuoso percalço o trio teve que se deparar com a fúria de fiéis fanáticos do HOMEM, produtores musicais inescrupulosos que pregam a palavra do "faça-você -mesmo" em favor próprio e mesmo assim chegaram firmes ao terceiro ato do périplo, intitulado Bad Trip Simulator #2.

O destemido Cristiano Bastos encontrou Munha, representante destes pobres diabos, em uma encruzilhada do nosso Distrito Federal e incitou-o a propalar algumas palavras sobre a nova peça diabólica de desconstrução e morte da MPB cometida pelas bestaferas.

[Faça o sinal da cruz antes de ler]

Antes de mais nada, fale sobre o disco que o Satanique Samba Trio está lançando. Se chama Bad Trip Simulator #2, certo?

Munha - Sim. É a primeira peça de uma trilogia (em 2011 lançaremos o Bad Trip Simulator #1 e depois, sabe-se la quando, o #3) e está a venda no nosso site (www.sataniquesambatrio.net). Como sei que comprar discos em lojas virtuais pode ser trabalhoso demais para a maioria dos maconheiros lendo essa entrevista, aviso que também vendemos nossas tralhas pelo e-mail.

A propósito, por que estão lançando o volume 2 antes do 1?

Munha - Ordenar números naturais é uma prática cristã.

Ok… E é verdade que a banda vem sendo perseguida por grupos evangélicos?

Munha - Não chega a ser perseguição, mas definitivamente estamos sendo assediados por cristãos fanáticos (de católicos e evangélicos a espíritas) via internet. É comum que cheguem mensagens de intolerância, ameaças de boicote e sermões religiosos (a maioria repleta de erros ortográficos vergonhosos, diga-se de passagem) na nossa conta oficial de email.

Não negarei que acho divertido, mas volta e meia fico deprimido com a frequência dos ataques.

E o que esse "cristãos fanáticos" costumam alegar durante os ataques?

Munha - Ah, nos acusam de heresia, infantilidade e até de envolvimento com o Candomblé…o que, por sinal, é muito preconceituoso da parte deles. Primeiro por que assumem – sem o mínimo conhecimento de causa sobre qualquer culto afro-brasileiro – que o Candomblé representa uma prática de idolatria demoníaca.

Segundo por que deduziram que nós estaríamos automaticamente envolvidos com o Candomblé só por que escolhemos ostentar uma referência a Satã no nome do projeto. É muita ignorância, convenhamos.

Então o Satanique Samba Trio não é uma banda de macumba-jazz?

Munha - Certamente que não! Seria desrespeitoso com o Candomblé e outros cultos afro-brasileiros associá-los a crenças monoteístas. Acredito que desavisados enxerguem essa conexão por causa da matéria-prima que usamos em nossa estética, que é predominantemente calcada em ritmos afro-brasileiros.

Claro que estampar uma galinha morta no primeiro disco da banda não ajuda muito nessa dissociação que você parece exigir…

Munha - Não é uma galinha, é uma pomba. Aliás, antes que você pergunte, já adianto que as pombas mortas nas capas dos nossos discos representam o sacrifício ritualístico do bom-mocismo na MPB. Nada a ver com candomblé.

Essa última resposta soou meio Black Metal. Vocês se interessam por essa estética?

Munha - Nem um pouco.

O mercado do rock undergound não os apraz, então?

Munha - Existem alguns obstáculos no trânsito do Satanique Samba Trio por esse universo. Como somos músicos profissionais e precisamos ganhar dinheiro com nossas apresentações, fica difícil nos atirarmos em projetos e festivais que partam do pressuposto que o artista convidado está devendo um favor ao subir em seus palcos.

Não me leve a mal: o público do rock sempre nos recebeu muito bem e com certeza ainda apareceremos neste ambiente ocasionalmente, mas quem sustenta nossos vícios são os eventos de jazz e MPB.

Desenvolva o tema…

Munha - Obviamente, existe um resquício da tradição do faça-você-mesmo no inconsciente coletivo do rock brasileiro. Parece haver um acordo invisível de não-pagamento entre os produtores e os artistas. Muitas vezes o produtor organiza os eventos da maneira mais econômica possível e oferece o palco para que o artista se apresente.

Esse costume gera uma dificuldade para os artistas se manterem financeiramente a partir de sua música e o ciclo se fecha. Não à toa, a maioria dos músicos que tocam em bandas de rock o faça como um passatempo, antes de qualquer coisa.

Atente para o fato de que me referi à maioria, não a todo o mercado. É lógico que a Pitty vive de música, recebe cachê e paga bem toda sua equipe…

Opa, o que temos aqui? Um fã da Pitty?

Munha - Em nome de Satã, não!

E essa história de Satanique Samba Trio Elétrico? Que diabo é isso?

Munha - É exatamente isso. Subimos em um trio elétrico e circulamos pelas ruas de Brasília (DF) tocando nosso repertório. Foram 5 ou 6 edições patrocinadas pelo fundo de apoio a cultura, acredite ou não.

Apoio do governo? Interessante…

Munha - Sim, disso não podemos reclamar (o que certamente é uma pena), até por que o trio elétrico se tornou uma alternativa para palcos controlados por produtores que têm medinha de nosso furacão. A bem da verdade, a Secretaria de Cultura do DF tem nos ajudado bastante.

Mesmo sabendo que vocês usam drogas?

Munha - Ok, essa acusação foi pra lá de leviana. Não posso falar pelos outros membros do SS3, mas eu nunca usei drogas ilícitas.

E você não pode usar drogas por causa de seu envolvimento com artes marciais? Descobri essa faceta inusitada sobre sua pessoa recentemente e achei que deveria incluir nesta entrevista. Parece digno de nota. Pra esclarecer: o quão envolvido com isso você está ou esteve?

Munha - Ultimamente tenho me dedicado ao Vale-Tudo, mas treino jiu-jitsu desde 2008, Muay-Thai desde 99 e Sanshou desde 93. Afinal, o futuro é um soco na cara…

CANCIONEIRO INFERNAL
1. Lambada post mortem
2. Cabra da peste negra
3. Ana Lídia resurrection
4. Self-destructing samba-reggae
5. Tagua York City molestus ostinato
6. DF death trap
7. Luciferi turn turn
8. Cancro Molly
9. Deprelicius
10. Badtriptronics #14
11. Herpes soul & samba zoster
12. Estilo Ricky Ramirez (original mix)
13. Pentagramarama
14. Kit de amputação asasulista

*Baixe Bad Trip Simulator #2 que não dá nada. Satã ainda dá uma força...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

pEPEU gOMES

PAR CRISTIANO BASTOS - MAGAZINE BRAZUCA

Comme tout grand guitariste qui se respecte, Pedro Anibal de Oliveira Gomes, Pepeu Gomes, se dédia très tôt à son instrument. A 11 ans, il intégra le groupe «Los Gatos» et, à 14 ans, il rejoignit le groupe «Os Minos».

C'est cependant avec son groupe suivant, les Leifs, for- mation qui accompagna Gilberto Gil et Caetano Veloso dans son album Barra 69, qu'il achève l'exil des deux Bahianais «subversifs».

A l'époque Gilberto Gil offrit à Pepeu son LP Smash hits, de Jimi Hendrix: «Ma vie n'a plus jamais été la même», raconte-t-il. La musique bré- silienne non plus. En 1972, après avoir intégré la famille des Novos Baianos, ce guitariste représente une par- faite alchimie entre la samba, le rock, et la brésilianité.

Mais bien sûr Pepeu Gomes a aussi eu une vie post-No- vos Baianos. Sa carrière solo va être à l’origine d’un cer- tains nombre de hits très polémiques comme homem Feminino, et Barrados na Disneylandia, enregistré avec sa femme la chanteuse Baby Consuelo (mainte- nant «Baby do Brasil»).

Son premier disque solo Geração do Som, est un disque très exubérant, aussi bien au niveau de la technique qu’au niveau des sentiments. Ce n’est pas pour rien qu'aux Etats-Unis, il a été nommé par le magazine Guitar World l’un des meilleurs gui- taristes du monde dans la catégorie world music.

C'est l'homme de la situation.

...

Como todo grande guitarrista que se preze, Pedro Anibal de Oliveira Gomes, Pepeu Gomes, cedo empunhou seu instrumento. Aos 11 anos, entrou nos Los Gatos e, aos 14, integrou o conjunto Os Minos.

O domínio sobre as cordas (guitarra, violão e craviola), porém, rebentou com a banda seguinte, Os Leifs, formação que acompanhou Gilberto Gil e Caetano Veloso no álbum Barra 69, que carimbou o exílio dos "subversores" baianos.

Na época, Gilberto Gil presenteou o púbere Pepeu com o LP Smash Hits, de Jimi Hendrix: "Minha vida nunca mais foi a mesma", contou. Tampouco a música brasileira foi a mesma. Em 1972, integrado à famiglia Novos Baianos, o guitarrista fez a perfeita e alquímica junção de samba, rock e brasilidades afins.

Pepeu Gomes também teve vida pós-novos baianos. Sua obra-solo produziu hits polêmicos, como "Homem Feminino", e o verídico "Barrados na Disneylandia", ao lado da esposa e cantora Baby Consuelo (hoje "do Brasil").

Seu primeiro disco-solo, Geração do Som, é exuberante em técnica e sentimento. Não à toa, foi eleito pela revista norte-americana Guitar World um dos dez melhores guitarristas do mundo na categoria world music.

É O cara.

FISSURA (Pepeu & Geração de Som)
 





sábado, 20 de novembro de 2010

cASTIGO - lUPICÍNIO rODRIGUES




*Música cantada heroicamente por Nelson Gonçalves após ser nocauteado, no sétimo round, pelo campeão mundial Éder Jofre. A luta (foto) marcava o regresso de Nelson aos palcos quando ganhou "alta" de seu exílio contra o vício em cocaína. Ginásio do Ibiapuera, São Paulo, 1966. Aqui a gravação é do próprio Lupi, que, de mulheres, entendia muito bem. A letra dá a real...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

bARULHO pOUCO é bOBAGEM*

POR CRISTIANO BASTOS, de Goiânia (GO) - ROLLING STONE
FOTO: MARCO HERMES

Goiânia Noise Festival chega à 16ª edição com programação variada e show inusitado de Gilberto Gil com o trio Macaco Bong

Em 1977, o punk destronou o rock do período com muita barulheira e a palavra de ordem: "faça-você-mesmo", o do-it-yourself. Foi a senha para o surgimento de rios de bandas e de gêneros que, por outra via, talvez nunca tivessem acontecido.

No Brasil, tal fenômeno veio ocorrer plenamente apenas nos anos 90, com o advento daquela que, a essas alturas, poderia ser chamada de "A Era dos Festivais de Rock". O faça-você-mesmo foi trocado pelo coletivo "façamos-por-nós-mesmos" - embora muitos ainda prefiram o lema "fazendo-por-si-mesmo".

Ao lado do recifense Abril Pro Rock e do brasiliense Porão do Rock, o Goiânia Noise Festival que, em 2010, chega à sua 16° edição, é um dos pilares desse levante. Os festivais revelam boa parte das bandas formadoras da atual, e caudalosa, cena do rock independente brasileiro.

"A premissa dylanesca 'pedra que rola não cria limo' continua mais válida que nunca no Goiânia Noise", metaforiza um dos organizadores, Márcio Jr., também vocalista da banda Mechanichs.

As noites mais movimentadas do "Noise", como é chamado carinhosamente pelos goianos, rolarão em Goiânia no próximo fim de semana, entre os dias 19 e 21 de novembro. O festival desenrola-se dentro da programação da 3ª Conferência Brasil Central Music, iniciada no último dia 13, na capital.

A Brasil Central este ano é correalizadora do Noise. No line-up, bandas e nomes importantes, como Krisiun, Musica Diablo, Otto, Nina Becker, Cólera e, para fechar, os californianos The Mummies, que tocam pela primeira vez no Brasil.

Os Mummies (que inventaram seu próprio estilo: o "budget rock"), antes, tocam em São Paulo nesta quinta, 18. E quem são os esfarrapados integrantes dos Mummies? Eles não revelam suas faces nem à base de vodu: "Múmias são múmias", criptografaram à imprensa.

É sabido, porém, que detestam toda espécie de tecnologia. Quem os viu em ação garante: a performance dos "mumificados" é das mais divertidas.

Este ano, o Goiânia Noise Festival tem orçamento estimado em cerca de R$500 mil e deve arrastar mais de 12 mil fiéis roqueiros para a rumorosa festa de guitarras. O encerramento, no domingo, tem tudo para ser histórico.

O ex-punk da periferia (também ex-Ministro da Cultura) Gilberto Gil será arremessado para os anos 60/70, época na qual vingaram os grandes festivais da música popular brasileira, para dividir o palco com o power trio cuiabano Macaco Bong (o encontro também aconteceu em São Paulo, no último dia 14; clique aqui para saber como foi o show).

O déjà vu (para Gil) acontecerá na Universidade Federal de Goiás. A "vibe" da apresentação vem sendo incensada como foi a dos Mutantes quando acompanharam o baiano em "Domingo no Parque", no III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967.

Momento ainda mais importante para a Macaco Bong, que há muito tempo vem "boxeando" no cenário independente.

A banda Vespas Mandarinas, que tem o ex-Forgotten Boys Chuck Hipolitho como frontman, tocará pela primeira vez no Goiânia Noise. "Para falar a verdade", assume Chuck, "só percebi o valor de festivais como o Noise há pouco tempo. Foi quando realmente me aproximei da organização e do conceito. Tinha tocado lá umas duas ou três vezes. Mas só agora percebo o valor que agrega à banda ter sido escalada".

Para Chuck, o convite mostra que as coisas estão dando certo: "Fora que é rara oportunidade para reencontrar amigos antigos, gente talentosa e conhecer novas bandas. Sempre vale a pena. Sempre muito rock and roll", festeja.

A Conferência Brasil Central Music reúne também alguns dos festivais (menores) de música da cidade: Release Alternativo, Pé Rachado, Goyaz Festival e Música no Campus, entre outros. Nesta quarta-feira, 17, a programação terá três encontros especiais: Superguidis com Felipe Seabra, da Plebe Rude, Lucy and The Popsonics com John Ulhoa, do Pato Fu, e Diego de Moraes e O Sindicato.

E, para quem curte um bom "falatório", haverá palestras, oficinas e muitos debates. Durante o dia, bandas participarão de palestras, workshops e gravações acompanhadas por profissionais da música nacional e mundial.

Entre eles, o produtor Pena Schmidt, o guitarrista Peter Shelley (Buzzcocks) e a guitarrista Viv Albertine (do The Slits, cuja vocalista, Ari Up, morreu recentemente) - os dois últimos, deflagradores do tal do-it-yourself citado acima.

"Lembro a primeira vez que participamos do Goiânia Noise, em 2007. Fiquei impressionado com a cidade e com a estrutura do festival. Serve de exemplo para outros festivais independentes feitos no Brasil", afirma o baixista da Superguidis, Diogo Lachance.

Outra banda que guarda ótima relação com o Noise é a mineira Pato Fu: "Somos das bandas que mais fazem esse meio-de-campo mainstream/alternativo. Por isso estamos sempre presentes em festivais assim. Tocamos no Noise em 2007 e, agora, vou tocar com a Lucy and the Popsonics com muito orgulho", diz o compositor John Ulhoa.

Essa será a primeira vez que, juntos, tocarão o repertório de Fred Astaire, novo álbum da banda brasiliense, cuja produção é de John.

"Estou curioso para ver como estão soando com baterista de 'carne e osso' [antes havia apenas uma bateria eletrônica]. Era uma coisa que pensamos desde as gravações: que seria esse o passo seguinte, e inevitável, para a nova sonoridade que eles têm a partir de agora".

Os Walverdes, que também acabam de lançar disco de inéditas, Breakdance, é outro velho convidado do Goiânia Noise. E esse ano vai tocar de novo.

"Tocar no festival é sempre muito bom, a qualidade e a diversidade só aumentam com o passar dos anos. Deverá ser nossa quarta ou quinta participação e, para quem gosta de Walverdes, é garantia de que assistirá nosso show em alto e bom som", promete o baterista Marcos Rübenich, que também é produtor da porto-alegrense Wannabe Jalva.

Quanto à polêmica questão do pagamento dos cachês às bandas, o presidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), Fabrício Nobre, afirma que, nas últimas quatro edições do festival, 100% dos artistas tiveram cachê ou ajuda de custo.

"Sempre oferecemos também a melhor hospedagem, alimentação, traslado local e a melhor equipe técnica da região."

Nasce o "monstro" - Criado em 1995, o Goiânia Noise Festival mudou, de modo particular, a história do rock goiano. Em sua primeira edição, dez bandas de Goiânia, São Paulo e Distrito Federal se apresentaram para um público estimado em quatro mil pessoas.

Após anos de intenso e perseverante trabalho realizado pela Monstro Discos, passaram pelo evento nomes nacionais de peso, a exemplo de Ratos de Porão, Los Hermanos, Sepultura e Patrulha do Espaço, além de dezenas de artistas internacionais de países como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Argentina, Chile, Uruguai, Finlândia, Bélgica e Escócia.

Leo Bigode, produtor da Monstro, avisa que o selo passará a investir em uma relação mais "íntima" com os seus fãs. Leo conta que, ainda em 2010, o selo vai lançar um portal onde fãs poderão ter vantagens como, por exemplo, receber em casa postais, adesivos e CDs, além de ter acesso a uma coletânea de inéditas grátis para download.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

cHEGA dE sAUDADE*


PAR CRISTIANO BASTOS - MAGAZINE BRAZUCA

Il est drôle de penser que le rythme innovateur de la Bossa Nova doit sa paternité à João Gilberto, un compositeur dont les plus grands idoles sont les chanteurs (tant oubliés) de l’époque que l’on a appelée l’Ere de la Radio comme: Francisco Alves, Silvio Caldas et Carlos Galhardo et, plus spécialement en ce qui concerne João: Or- lando Silva, «le chanteur des foules».

Héros d’antan que la bossa a pratiquement balayé et envoyé vers les limbes de la mu- sique brésilienne.

Né à Juazeiro da Bahia, João a reçu sa première guitare à 14 ans et ne l’a plus jamais lâchée. Dans les années 40, il s’enivrait en écoutant Duke Ellington et Tommy Dor- sey. A 19 ans, il intégra le groupe Garotos da Lua, dont il participa, où plutôt fut expulsé – jusqu’à ce qu’il quitte Salvador pour Rio de Janeiro en 1950.

En juin 1958, il entra dans les studios de l’Odeon pour y concocter un 78 tours qui comportait, d’un côté Chega de Saudade, de Tom Jobim et Vinícius de Moraes, et de l’autre Bim Bom, une composition propre très rare.

João les enregistra en susurrant et en jouant de la guitare d’une manière que l’on avait encore jamais entendue. Et après cet enregis- trement, l’histoire de la musique brésilienne et du monde ne sera plus jamais la même.

Perfectionniste, dans ses concerts, João ne tolérait pas les chuchotements dans le public, les bruits de l’air condi- tionné et encore moins les amplis déréglés. Il faisait de très rares apparitions sur scène et en quitta plus d’une au milieu du concert à cause du bruit.

De telles excentrici- tés sont facilement acceptées car il est le musicien le plus respecté de la planète, qui a gagné quatre Grammys, dont l’un en compagnie du géant du jazz nord-américain Stan Getz (pour son album Getz/Gilberto).

Le père de Bebel Gilberto, chanteuse devenue célèbre en Europe a mainte- nant son nom dans l’encyclopédie «The Grove Dictionary of Jazz».

João Gilberto n’a pas révolutionné que la bossa nova. Dans les années 1970, il devint le parrain des Novos Baianos, un groupe qui, orienté par le maître, parvint à la parfaite dose de mélange de samba, de rock et de «brasilidades».

Parfois ils passaient des nuits dans d’in- terminables jam sessions. On raconte qu’à la fin de l’une de ces nuits, les deux générations de Bahianais sortaient flâner dans les rues de Rio. Alos que le jour se levait, João aperçut une mulâtresse qui descendait de la colline pour aller travailler.

Il s’écria «Regardez, c’est le Brésil qui des- cend de la colline!». Le chanteur-compositeur, Moraes Moreira capta le message et le transforma en l’un de leur plus grand succès qui commençait ainsi «Qui descend de la colline, n’habite pas sur l’asphalte / Voilà le Brésil qui descend de la colline».

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Chega a ser cômico que a inovadora batida da bossa nova tenha sua paternidade no cantor e compositor João Gilberto, cujos maiores ídolos são os (um tanto olvidados) cantores da distante Era do Rádio.

Entre os quais, Francisco Alves, Silvio Caldas e Carlos Galhardo e, no caso de João, especialmente, Orlando Silva – "O Cantor das Multidões".

Heróis de remotos tempos que a bossa praticamente varreu para o limbo da música brasileira.

Nascido na sertaneja cidade baiana de Juazeiro, João ganhou seu primeiro violão aos 14 anos. Desde então, jamais o largou. Nos anos 1940, embevecia-se escutando Duke Ellington e Tommy Dorsey. Aos 19  integrou o grupo Garotos da Lua, do qual participou – ou melhor, foi expulso – até mudar-se de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1950.

Em junho de 1958, João Gilberto entrou no estúdio da Odeon para registrar um 78 rpm que, de um lado, teria "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e, do outro, "Bim Bom", uma de suas raríssimas composições próprias.

Lançado pela Odeon, em 1959, o LP Chega de Saudade, pode-se afirmar, alude às canções "dor-de-cotovelo" ou "dó-de-peito", tão em voga antes do advento bossanovístico. João Gilberto gravou-as com a voz em sussurro, o violão tocado de um jeito que jamais se ouvira.

Quando saiu do estúdio a história da música brasileira, e também mundial, nunca mais seria a mesma.

Perfeccionista, em seus shows João não tolera telefones celular, cochichos na platéia, ar-condicionado barulhento e, o mais desagradável para ele, caixas de som desreguladas. Faz raríssimas apresentações e abandonou muitas delas por falta do exigido silêncio.

Tanta "excentricidade" justifica-se pelo fato do homem ser um dos músicos mais reverenciados do Planeta. Ganhou quatro prêmios Grammy. Um deles foi por causa da parceria com o jazzista norte-americano Stan Getz.

João Gilberto, que foi casado com a cantora Miúcha e é pai de Bebel Gilberto, também é cantora (mais internacional do que nacional, diga-se), virou verbete na enciclopédia The Grove Dictionary of Jazz. Em 2009, uma fita-cassete gravada por Gilberto – encontrada por aficionados e disseminada na Internet –, espécie de working progreess de "Chega de Saudade", gerou enorme polêmica e, para o compositor, trouxe grande desconforto.

São 38 faixas. No registro ouve-se clássicos que viria a incluir em seus primeiros álbuns, assim como outras canções que nunca gravou. Entre elas, "Mágoa" (Tom Jobim/Marino Pinto), "Nos Braços de Isabel" (Silvio Caldas/José Júdice), "Chão de Estrelas" (Silvio Caldas/Orestes Barbosa), "O Bem do Amor" (Carlos Lyra) e "Beija-me" (Roberto Martins/Mário Rossi).

João Gilbeto não revolucionou apenas com a bossa nova. Nos anos 1970, apadrinhou o bando Novos Baianos, a qual, norteada pelo mestre, encontrou a infusão perfeita entre samba, rock e afins brasilidades.  Houve um tempo em que eles passavam noites em intermináveis jam sessions.

Conta-se que, ao fim de uma dessas noitadas, as duas gerações de baianos saíram a flanar pelas ruas do Rio de Janeiro. Amanhecia quando João avistou uma mulata descendo o morro indo para o trabalho. E exclamou:

"Olha lá o Brasil descendo a ladeira!" Moraes Moreira captou o mote e transformou-o num de seus maiores sucessos: "Quem desce do morro, não morre no asfalto/ Lá vem o Brasil descendo a ladeira".

*Texto publicado na revista franco-brasileira Brazuca - O Brasil de A a Z (distribuída gratuitamente em Paris e Bruxelas), cuja capa do mês é o violonista Baden Powell. O magazine é editado pelo brasiliense Daniel Carriello.

Ao texto, eu ressalvaria o que disse o crítico Zuza Homem de Mello numa das Discotecas Básicas da BIZZ, a respeito da "monstruosa" interferência de Chet Baker para o 'turning-point' da bosssa. 

Segundo Zuza, dificilmente em outro país - que não o Brasil - o álbum Chet Baker Sings atingiria consequências tão revolucionárias. Foram as "Revoluções Por Sussurros" (RPS).

mUSIQUE

domingo, 7 de novembro de 2010

eDITORIAL

Nelson Gonçalves era um homem sem medo. Fazia questão de proclamar seu desassombro, como convém ao gaúcho de Livramento. Mas tinha, claro, suas preocupações – e um pensamento que o afligia era o de cair no esquecimento.

O gago boxeador que esmurrou o destino e se tornou um dos maiores cantores do Brasil transformou esta melancolia em uma destas frases que entram para a história. "O Brasil é um país sem memória", cuspiu Nelson. "Alguém se lembra de Francisco Alves?".

Pois não é que o Brasil achou o jeito mais canhestro de dar razão ao velho Nelson? 2008 chegou ao fim e o que você, caro leitor, viu ou ouviu sobre os dez anos da morte do último boêmio? Quem se apercebeu do que define como "vergonha nacional" foi o repórter Cristiano Bastos, que assina a reportagem de capa desta edição.

"Quando me dei conta desta barbaridade, o deadline era de dois meses. Eu tinha, porém, que, antes, conhecer a caudalosa vida e obra do Metralha, achar sua filha Marilene, no Rio, os amigos cantores ainda vivos – poucos – e conhecer seu inigualável e divertido fabulário", lembra Cristiano.

Não era sem motivo, portanto, a amargura antecipada que Nelson sentia quando anunciou sua vontade: "Quero ser cremado. Uma semana depois de morto, estarão fazendo xixi sobre a minha tumba".

"Não se preocupe, Metralha", anota Cristiano ao pé da matéria. "Demos uma boa limpada em sua lápide. Esperamos que você goste do que a gente escreveu, aí no céu dos boêmios!"

Boa leitura,
Eugênio Esber

o dONO dAS cALÇADAS*

Sangüíneo, mulherengo e cantor genial são só alguns dos adjetivos utilizados para classificar Nelson Gonçalves

POR CRISTIANO BASTOS, do Rio de Janeiro

As cinco frases enunciadas pelo cantor Nelson Gonçalves, na abertura do espetáculo Eternamente Nelson, resumem os desígnios – trágicos e redentores – de sua trajetória nos palcos e na vida. O ano é 1981. Soa o gongo.

O Metralha, apelido decorrente da fala rápida e entrecortada, galga a trote as escadarias que conduzem ao galante palco iluminado, sobre o qual cantará nos festejos de 40 anos de uma carreira brilhante.

Atrás de si, a metáfora grafada em maiúscula: RING – palavra que, a vida toda, foi uma espécie de amuleto para o astro, boxer, e dos bons, na juventude. Com seu timbre de veludo, ele dá a ficha:

"Meu nome é Antônio Gonçalves Sobral. Gaúcho de Livramento. Minha vida sempre foi uma luta. Minha arma, minha voz. Meu destino: cantar".

Dez anos se passaram desde que o destemido boêmio morreu, aos 78 anos de idade, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Mas, felizmente, a data não passará em branco. Lançamentos à altura de Nelson vão presentear seus fãs, velhos e novos, com o talento daquela que, provavelmente, foi a maior voz que já cantou no Brasil.

No DVD Eternamente Nelson – Especial e Registros Raros da Carreira de Nelson Gonçalves, o show captado e exibido pelaRede Globo em 1981, a Sony&BMG reavivou som e imagem do espetáculo que marcou quatro décadas de carreira do valentão.

A gravadora também vai relançar o debut do cantor em LP (long-play), Nelson Interpreta Noel, de 1954. A novidade principal, contudo, deve ser O Canto Que MeEmbalou – Poemas para Meu Pai, Nelson Gonçalves, livro da filha Marilene Gonçalves, a primogênita, que deve atrair grande número de admiradores interessados na face humanado ídolo.

Nelson, revela Marilene, em nada era convencional. "Não procurei falar do artista que todos conheceram, mas da pessoa que se escondia nele. Uma pessoa inocente, sensível, inteligente", diz a filha. Famoso de dar inveja, Nelson tratava o sujeito do elevador, o garagista ou a celebridade da mesma maneira simples. "Agora, era machão. Tinha personalidade forte. Sempre foi teimoso, mas também sempre foi um menino", revela.

Nelson Gonçalves foi um dos maiores cantores do Brasil, como prova sua trajetória. Até hoje, a marca que atingiu é altíssima: 70 milhões de discos vendidos, média espetacular de mais de 1 milhão anuais – embora o copioso numerário tenha minguado ao extremo na infernal temporada aos confins da droga que fazem parte de sua biografia.

Nos cálculos do próprio cantor, da gravação de estréia – a valsa Se Eu Pudesse um Dia (outubro de 1941) – ao derradeiro CD Ainda É Cedo(1997), são mais de 2 mil registros fonográficos. No Brasil, só perde para o mitólogico Roberto Carlos.

Cancioneiro sulcado em 183 discos de 78 rotações, 100 compactos, 200 fitas K-7 e 127 long-plays, só o registro da indefectível A Volta do Boêmio, que marcou justamente o fim de seu casamento com a cocaína, vendeu 2 milhões de exemplares. Algarismos que nem o colega de RCA Elvis Presley superou, com suas cerca de 1,6 mil canções e 63 álbuns.

De afinidade, entretanto, os "reis" têm apenas o prêmio Nipper, deferência dada aos bastiões da gravadora – no mundo, apenas Presley e Nelson receberam a honraria. Gaúcho por acaso, a origem caiu como uma luva ao tipo falastrão e superlativo construído por Nelson.

Em 1919, os pais, imigrantes portugueses de Vizeu que ganhavam a vida como artistas mambembes, tiveram o varão na cidade fronteiriça com o Uruguai. E pouco tempo depois (as versões variam de dez dias a dois anos) partiram definitivamente para São Paulo. O cantor, em que pese esse acidente, sempre valorizou suas raízes gauchescas.

"O Nelson era gaudério mesmo", diz o roqueiro Lobão, que durante os anos 80 conviveu e gravou com o cantor. Segundo Lobão, três coisas formavam a personalidade sangüínea do artista: a ascendência gaúcha, a experiência semi-profissional como pugilista, em São Paulo, e a atividade de gigolô na Lapa carioca. Lobão diz que nunca vai esquecer o dia em que conheceu o astro.

"Cheio de deferência, fui me apresentar: 'Como vai, Seu Nelson?' O malandro emendou: 'Seu Nelson é o caralho! Sou você amanhã", lembra o roqueiro, numa menção à dependência de cocaína que ambos amargaram – Lobão, no caso, ainda amargava. O músico continua a se deliciar com o lema do amigo: "Onde houver botequim, puteiro e violão, haverá Nelson Gonçalves cantando uma canção", recita.

Depois que deixou Santana do Livramento, Nelson Gonçalves esteve na cidade apenas duas vezes: uma em 1972, para fazer um show no Ginásio Coronel Mallet lotado; outra em 1978, para receber uma homenagem da Câmara deVereadores. Na primeira vez, Nelson vinha de um período de três anos sem gravar – o artista recém tinha superado sua relação com a cocaína e tentava reestruturar a carreira.

"O show foi um estouro, tinha gente pra caramba. Depois da apresentação fomos todos comer parrilla em Rivera", conta Roberto Silva, há 42 anos radialista na cidade e que fez a apresentação oficial do espetáculo. Conforme Silva, Nelson era quieto, falava pouco e ficava na dele em função de uma gagueira acentuada que o incomodava.

Nelson, que nasceu na rua Silveira Martins (esquina com a Vasco Alves), voltou à cidade quatro anos depois para receber o título de cidadão santanense. Antes da homenagem, conta o radialista, comeram um churrasco numa estância e, depois, foram à Câmara para inaugurar uma placa alusiva à data. Vai daí que alguém sugeriu um show. "Só que ele se recusou. Alegou que não tinha músicos para acompanhá-lo", lembra Silva, mais uma vez testemunha privilegiada da história.

Tarde demais: o Ginásio Guanabara já estava lotado, à espera do cantor. O time de músicos – formado por um violão de 12 cordas e outro de sete, mais um cavaquinho e farta percussão – estava a postos. Muito a contragosto, Nelson topou cantar apenas uma música. "Mas gostou do acompanhamento e do clima e mandou outras dez", lembra o radialista.

Mesmo assim, ficou tão irritado com o episódio que nunca mais voltou à cidade. "Apesar disso, é Deus em Livramento. Tem um carisma muito grande", atesta Silva. Reza a lenda que o cantor ainda tem parentes na cidade, que moram no Cerro do Marco, na divisa entre Livramento e Rivera.

E que, freqüentemente, ia jantar com os primos, devidamente disfarçado, no restaurante do Pedrinho. Nos anos 90, Nelson foi tema de um samba-enredo baseado no sucesso Normalista, feito pela Escola de Samba Império da Zona Sul de Santana do Livramento. Com autorização por escrito, o nome de Nelson entrou na letra do samba.

"Nelson tem anel de bamba/Na Lapa formado em samba/e vem pra nossa escola desfilar/e na avenida nossas cores exaltar/Hoje Santana festeja tua vitória/Nelson Gonçalves canta a alma brasileira/e pra mostrar que nosso povo tem memória/a nossa escola pôs teu nome na bandeira", engrandece o enredo.

De Santana do Livramento, a voz de Nelson Gonçalves conquistou o Brasil. Em Rondônia, no topo da popularidade, vivida entre os anos 50 e 70, uma tribo de índios guarajámirim recebeu o ídolo ritualisticamente: todos nus, dançando com cópias do compacto A Volta do Boêmio debaixo dos braços. Em 1975, Nelson foi bem mais longe com o sambacanção Naquela Mesa, de Sergio Bittencourt: primeiro lugar nas paradas de sucesso da Bélgica.

Salto carrapeta - Nada mal para quem foi desacreditado por ninguém menos que Ary Barroso. Ao botar os pés na emissora paulista PRA-5, em 1939, para prestar mais um teste, o aspirante a galã ainda respondia por Antônio. Contava então com 18 anos. No dia do teste, o garboso Nelson – então Antônio –caprichou no figurino: cabelo engomado, paletó apertado e salto carrapeta, aquele taquinho que levanta a parte traseira do pé.

O nome artístico foi dado na hora da estréia. "Antônio parece dono de botequim. Nelson é mais musical", recomendou-lhe um dos integrantes do regional que o iria acompanhar. Já como Nelson Gonçalves, interpretou Lábios Que Beijei, na época um sucesso estrondoso na voz de Orlando Silva, o cantor das multidões. Agradou e foi contratado.

Como o rádio brasileiro atingia seu clímax de popularidade, Nelson aproveitou o emprego para se casar com Elvira Molla naquele mesmo ano. Era o primeiro de uma série de três esposas oficiais, sete filhos (cinco deles adotados) e uma incontável legião de casos. Entre elas, Maria Luiza – a última esposa, que agüentou a barra de ter um viciado em casa e acabou domesticando Nelson.

"As mulheres foram o seu fraco", reconhece a filha Marilene. Para aproveitar mais a vida, chegou a implantar uma prótese peniana com a qual assustava os amigos nas horas mais afetuosas: por conta do implante, ninguém queria abraçá-lo. No limiar da Segunda Guerra, antes de engrenar carreira artística, Nelson perdeu o emprego na PRA-5 e nada mais lhe restou senão ganhar a vida como garçom no bar em que o irmão tocava, na avenida São João.

Só não renunciou ao sonho de cantar no Rio de Janeiro, feito que conseguiu realizar afanando 70 mil réis do irmão. Na Tupi, foi se apresentar no show de calouros A Hora do Gongo, de Ary Barroso.

Após a apresentação, o irreverente compositor de Aquarela do Brasil perguntou o que ele fazia em São Paulo. "Eu jogo boxe", respondeu Nelson. "Então volta pra lá. Tu não canta é nada", disse o radialista.

O aprendiz escutou a recomendação – mas não voltou a São Paulo para jogar boxe, e sim para estudar música com o maestro Armando Bellardi. Nelson Nelson levou a carraspana a sério, o que rendeu ao país seu maior cantor. Aprendeu divisão de palavras, valorização de tônicas, respiração pelo diafragma.

Soltou seu primeiro "ré-gravíssimo". Bellardi explicou ao pupilo então que, na verdade, ele não sofria de gagueira, como acreditava. Era, sim, taquilárico (do grego "takimós": respiração curta e acelerada): ou seja, falava mais rápido que o pensamento, "metralhando" palavras.

A primeira oportunidade profissional no Rio surgiu logo depois, ofertada pelos irmãos Orlando Monella e Oswaldo França para gravar Se Eu Pudesse um Dia. O trato era o seguinte: se Nelson a interpretasse bem, os irmãos bancariam a prensagem de 10 mil cópias de um disco. Nelson topou. Com a prova de acetato em mãos, o cantor procurou o diretor RCA Victor, Vitório Lattari; ouviram a gravação e, ao final, Lattari comentou, embevecido: "Maravilhoso cantor. Quem é?".

Ao saber que era Nelson, teve uma reação intempestiva: "Esse não é você. Você é gago! Ponha-se daqui para fora, seu ladrão de acetato". bradou. A interpretação da música no ato, para dirimir a dúvida de Lattari, acabou livrando a cara do novato. E, de quebra, lhe rendeu o primeiro disco, um 78 rpm datado de 1941.

Faltava, no entanto, uma música para o lado B. No Café Nice, reduto da boemia carioca, o sambista Ataulfo Alves deu a Nelson o regalo mais importante da sua incipiente carreira: o samba Sinto-Me Bem, no qual o cantor colocou os versos ("sinto-me bem quando estou na solidão/sinto-me bem ao chorar por meu amor/sinto-me bem quando o coração reclama no meu peito/batendo contrafeito para aliviar uma dor"). Foi um estouro. A ele se seguiram mais 74 compactos só nos anos 40, com sambas, tangos, valsas, boleros. Em 1945, chegou a gravar 13 discos.

Na década seguinte, mais uma enxurrada de gravações com os sucessos de Camisola do Dia (1953), Carlos Gardel (1954), Esta Noite Me Embriago (1955) e A Volta do Boêmio (1957) – o frisson causado pelo samba-canção sobre o desiludido homem que suplica por sua nova inscrição na boemia retardou o advento sonoro do rock, já iniciado por Celly Campelo e companhia. Junto com Cauby Peixoto, que chegou a namorar o rock, Nelson Gonçalves virava estrela. Gravaram juntos Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues.

"Nelson foi o cantor com o grave mais belo que conheci", enaltece Cauby.

Personagem pronto - Uma vida tão célebre não poderia deixar de render polêmicas públicas. A mais conhecida delas envolve a biografia A Revolta do Boêmio, publicada em 2001 pelo escritor Marco Aurélio Barroso e que tenta desmistificar as aventuras vividas por Nelson Gonçalves.

Como a notícia de que uma cantora americana de nome Betty White se suicidou ateando fogo ao corpo por não ter sua paixão correspondida pelo astro. "Era tudo invenção dele. A tal cantora não era americana, se chamava Vera Alves Guimarães e morreu num acidente doméstico com álcool", diz o pesquisador. Segundo ele, Nelson a conheceu na boate Tabu, aprendeu a tocar violão com o irmão dela e não a abandonou, como dizia.

Barroso desmistifica também a relação de Nelson com o boxe, com as drogas e com o próprio ofício de cantar. "Ele tinha talento sim, mas não soube usufri-lo da melhor maneira", opina. Na verdade, o pesquisador é um desafeto confesso do intérprete Nelson Gonçalves. "Nunca gostei dele como cantor. Não o conheci quando estava vivo. Aliás, nem quis conhecê-lo", reconhece Barroso, que começou a escrever a biografia logo depois da morte do cantor.

Segundo ele, atraído pelo personagem "pronto" que representava Nelson Gonçalves – para ele, "um mentiroso que construiu sua fama com o auxílio da imprensa". O escritor conta que fez mais de 200 entrevistas com amigos, colegas e familiares de Nelson. "Biografia não é ficção. Eu não inventei nada", defende-se Barroso. O livro, bancado pelo próprio autor, está esgotado.

Seja como for, a polêmica provocada por Barroso não afetou a importância de Nelson para a música brasileira – especialmente para seus milhões de fãs. Quando morreu, em abril de 1998, um cortejo de duas horas em carro aberto levou o corpo do cantor ao cemitério São João Batista entre uma multidão pelas ruas do Rio de Janeiro. "É um livro frio, sem charme e sem beleza. E o tiro saiu pela culatra, pois não fez sucesso nenhum", desdenha a filha do artista, Marilene.

Segundo ela, as fontes em que se baseou Barroso não lhe deram acesso ao verdadeiro Nelson. "Ele usou depoimentos de pessoas que conviveram pouco com o pai, entre elas alguns dos filhos adotivos", explica. De fato, a imagem do boêmio – falastrão, jogador, irresponsável – segue intacta dez anos depois da sua morte.

No bar Nova Esplanada, reduto tradicional da boemia na Lapa, o sambista carioca Dicró lembra uma história que o próprio Nelson lhe contou para exemplificar o espírito fanfarrão do astro. Certa vez, o artista foi se apresentar no interior. Como sempre acontece, a cidade estava em polvorosa e, dias antes do show, o prefeito lhe disse:

'Nelson, quando chegares aqui vamos te apresentar o maior cantor que temos na cidade. Canta tão bem quanto você. Inclusive suas músicas', tascou. Nelson, que era meio grosso mas não perdia a compostura com os contratantes, concordou. No dia da apresentação, entretanto, combinou com os músicos que o acompanhavam para que tocassem a música escolhida pelo cantor local dois tons acima.

"Quando o sujeito abriu a boca, desafinou tanto que ninguém entendeu nada", relembra Dicró, às gargalhadas. Arthur Moreira Lima é outro fã do talento do cantor. Ele e Nelson Gonçalves deram 50 concertos juntos tocando as músicas de O Boêmio & O Pianista (1992), álbum no qual o duo reinterpreta cantigas como Lamento (Pixinguinha), As Rosas não Falam (Cartola) e El Dia Que Me Quieras (Le Pera e Gardel).o estúdio, ajustar os sofisticados arranjos de piano urdidos pelo maestro Laércio de Freitas aos enlevos vocais de Nelson requereu artimanha de gravação: a inserção do piano de Arthur foi feita posteriormente ao registro da voz de Nelson, que cantou sem acompanhamento. "Gravação complicada mas com resultado muito bom", define Freitas.

Nelson também arrebatou corações de artistas mais jovens, mesmo quando já estava em fim de carreira. Nelson Gonçalves interpretou Nada por Mim, parceria de Paula Toller com Herbert Vianna, num CD de 1997 só com hits de baladas pop brasileiras. A crítica torceu o nariz. "Pura implicância. É só ouvir de novo para perceber que ele não se curvou a modismo algum, cantou nossas músicas com a dicção à moda antiga, trazendo-as para sua praia", diz Paula Toller.

Angela Rô-Rô é outra fã de carteirinha. "Tivemos a mesma relação intensa com as mulheres", diverte-se a cantora. O cantor cravou seis décadas de permanência na música brasileira. Em 1989, aos 70 anos, mantinha a voz em forma com a turnê nacional 50 Anos de Boemia. José Milton, produtor do espetáculo, sintetiza: trabalhar com Nelson era fácil:

"Além de cantar muitíssimo bem, tinha familiaridade com o estúdio e não era estrela", recorda. Dez anos depois, debilitado, morreu de um ataque cardíaco. O Metralha ainda faz falta.

*Em seguida leia sobre os "10 Discos Essenciais" de Nelson Gonçalves (comentados);após,a resenha crítica do DVD Eternamente Nelson, da reportagem da Aplauso

sábado, 6 de novembro de 2010

10 dISCOS eSSENCIAIS

Nelson Interpreta Noel (1956) – A Sony BMG prepara para 2009 o relançamento desse que foi o primeiro LP de Nelson, de 1956. O Metralha ataca de Noel Rosa em sambas como Três Apitos e As Pastorinhas.

O Boêmio & o Pianista – Nelson Gonçalves & Arthur Moreira Lima (1992) - Arthur Moreira Lima reveste antigas canções com classe e intimismo. No álbum, Nelson se reinterpreta.

Eu & Elas (1984) – Bem-sucedido disco de duetos de Nelson Gonçalves com grandes damas da MPB, como Maria Bethânia, Fafá de Belém e Alcione. Com esta última, canta o hit Louco, de Wilson Batista e Henrique de Almeida.

Eu & Eles (1985) – Na trilha do sucesso da versão feminina, artistas como Milton Nascimento, Lobão e Chico Buarque dividem o microfone com o vozeirão.Destaque para o antigo sucesso Renúncia, com Tim Maia.

Quando a Lapa Era a Lapa (1973) – Álbum recheado de curiosidades. Entre elas, quatro canções assinadas pela esposa Maria Luiza. A grande surpresa fica por conta de Maria e Mais Nada, letra de ninguém menos que Chico Xavier.

Êxtase (1959) – Disco de capa memorável e de canções românticas ainda mais: Meu Triste Long-Play, Deusa do Asfalto, Vaidosa e O Preço da Glória, da dupla David Nasser e Herivelto Martins.

Escultura (1958) – Enorme sucesso. Traz os hits radiofônicos Deixe Que Ela Se Vá, És Tudo para Mim e a belísisma Destino, que embalou muitos corações nos dourados anos 50.

Pensando em Ti (1957) – Segundo LP de Nelson. A afirmação do sucesso vem com a canção título, puxada por dois de seus hits monumentais: Meu Vício É Você e a emblemática A Volta do Boêmio.

O Tango na voz de Nelson Gonçalves (1956) – Para ele, a dupla Herivelto Martins e David Nasser compôs números como Carlos Gardel, Vermelho 27 e Hoje Quem Paga Sou Eu. Sucesso também no Uruguai e na Argentina.

Trilha Sonora do filme Nelson Gonçalves (2001) – Trilha do documentário sobre a vida do cantor gaúcho, bem explorada em canções de todas as fases, como Sinto-Me Bem, Dos Meus Braços Tu Não Sairás e a fetichista Camisola do Dia.

eTERNAMENTE nELSON

Ainda sem data de lançamento nem preço definidos, o DVD que será apresentado pela Sony&BMG trará gravações históricas de Nelson Gonçalves.

O vozeirão aveludado poderá ser visto (e principalmente ouvido) em clássicos que marcaram época, como Normalista, Maria Betânia, A Volta do Boêmio e Saudade – esta última um samba-canção de Lupicínio Rodrigues interpretado por ele com lirismo e entrega sentimental absolutos.

Beirando os 60 anos na época da gravação, na verdade um especial para a Rede Globo, Nelson ainda cantava de maneira soberba. A voz estava no auge da força e vigor.

Na apresentação, com participações especiais do compositor Evaldo Gouvêa e do xará Nelson Cavaquinho, o boêmio também apresenta Meu Vício é Você, uma versão fado de Nem às Paredes Confesso e as másculas Carlos Gardel e Negue. Ambos, números nos quais a admirável extensão vocálica se mostra à toda prova.

A edição de Eternamente... é histórica não apenas por se tratar do principal registro audiovisual do cantor lançado no mercado, mas, igualmente, por juntar uma incrível coleção de extras.

As mais reveladores são aqueles em que Nelson não esconde detalhes sobre a célebre fase junkie, entre o final dos anos 60 e o início dos anos 70: "Em casa, eu tinha guardado um quilo de pó", revela de forma drástica, de dentro de um ringue.

Musicalmente, o material recupera duetos gravados com artistas como Martinho da Vila, Alcione e Tim Maia no extinto televisivo Globo de Ouro. Videoclipes de músicas como Auto-Retrato, por exemplo, trazem de volta os imemoriais tempos pré-MTV.

O valor documental do DVD é indiscutível – são testamentos nostálgicos de uma gloriosa era que, tão cedo, não se repetirá. Tanto para indústria fonográfica quanto para a Música Popular Brasileira.

*Ei-lo: lançadíssimo!

sábado, 23 de outubro de 2010

tUDO É pREZA


POR CRISTIANO BASTOS/URBANAQUE

A Bidê ou Balde voltou!

Depois de seis longos anos de exílio do noticiário pop e marrom a intrépida trupe comandada pelo mais novo pai de família da praça, Carlinhos Carneiro, deu uma rasteira no hiato e lançou dois singles de uma vez só, que irão figurar no EP a ser lançado no fim do ano:

A grudenta "Me Deixa Desafinar" e a falsa melosinha "Tudo É Preza". (ouça abaixo)

Nosso destemido colaborador Cristiano Bastos (o mano Cristiano) entrevistou o vocalista que teve de ser auxiliado por uma médium que o guiou para incorporar três entidades indígenas das etnias Xavante, Kraho e Guarani.

Carlinhos & Os Índios (isso já é nome de banda…) falaram sobre as atividades paralelas da Bidê – quando não está com o microfone na mão o vocalista mantém uma rotina campeira – e contaram as boas novas da banda, como Rivers Cuomo liberou a versão de "Buddy Holly" do primeiro disco.

E, por fim, a indiada enfileirou todos os seus ídolos do rock gaúcho. Mantenham a calma e fiquem atentos, que "eles" exigem respeito!

Vamos lá?

Sim, vamos!

Você está sozinho na sala ou tem mais alguém com você aí?

Sim, eu estou acompanhado. Sinto a presença de três índios que vieram tentar rever o mundo através de mim e fizeram da minha fala uma ponte para suas intenções e delírios. Pois os mortos deliram.

Do quarto ao lado escuto a presença de minha senhora e nossa filhinha (primeiro um resmungo chorado, depois um 'pega a teta, Sofia' e então os estalos semelhantes aos de beijos, sinalizando que ela se atracou no papá).

E eu estava agora há pouco falando pra um antigo colega de faculdade no MSN, a quem prezo carinhosamente, sobre o quanto é maravilhoso procriar e estar envolto em amor incondicional.

Como você se sente nunca estando solitário?

Como um canguru, ainda.

Você está pronto para falar sobre a banda, A Bidê ou Balde?

Sim, acho que sim. Os índios gostam da Bidê. E a minha filha, Sofia, mais ainda! Ás vezes só dorme quando colocamos o Outubro ou Nada! para embalá-la no sono. E seguido pego a Bruna, minha mulher, musa e personal stylist, cantando 'Me Deixa Desafinar' pra ela nanar!

Depois de toda a sensação que a banda causou quando surgiu, qual o momento da Bidê hoje?

Estamos, finalmente, lançando material novo na bocada! Semana passada, no dia do meu aniversário, 6/10, rolou a estreia da primeira música inédita nossa em 5 anos, 'Me Deixa Desafinar', na rádio Atlântida – principal rede de rádio pop da região sul do Brasil.

Lançamos com exclusividade lá, antes mesmo da internet, de blogs e de rádios de caráter mais indie e ansiosas por novidades, na tentativa (bem sucedida!) de reestabelecer a parceria que sempre tivemos com eles.

É também uma reafirmação de um lance que sempre temos que reafirmar: somos uma banda pop – uma banda pop que se alimenta até de coisas nada pop, mas que enxerga viabilidade pop em tudo que gosta, e com isso ainda pretende salvar o pop das garras do iogurte desnatado estragado.

Desde que a música entrou na programação os caras receberam uma enxurrada de pedidos de execução dela, de gente curiosa em ouvi-la (até gente de outros estados, onde não pega a rádio, pediu para ouvi-la online, no site da Atlântida), os saudosos de novidades da Bidê e gente nova, que curtiu a música de cara!

Isso é muito massa e inspirador, principalmente por causa do sistema que escolhemos para lançá-la (e consequentemente para lançar todo o nosso novo álbum), aos poucos, em pílulas… primeiro essas músicas ["Tudo é Preza!" foi lançada na internet também] e mais rádios, e ambas estarão em um EP que deve chegar da fábrica em novembro, com 5 faixas…

Daí seguiremos gravando singles e/ou EPs até ter o equivalente a um disco ou algo do gênero, como um box de EPs (que é a origem da ideia)… então ter uma estreia boa, com ótima recepção, é muito inspirador para as coisas que vamos continuar gravando e produzindo!

(um dos índios fala através de Carlinhos, com carregado sotaque de índio): acho preza dizer que a Bidê é a única banda brasileira que tem um vocalista que não assistiu Avatar, nem Nosso Lar – ainda.

Antes de decidir um nome para os discos, a Bidê sempre nomeia os discos como projetos. No novo que estão gravando qual é o projeto?

Chamamos esses projetos de nome provisório do disco, nesse é "Projeto: contar patranhas", no primeiro, no segundo e no terceiro eram, respectivamente, "Projeto: ganância", "Projeto: alienação" e "Projeto: simples".

Não é pura e simplesmente verdade que se possa comparar a crença em deuses com a amizade ou o amor que se sente por pessoas com as quais convivemos realmente todos os dias, e que ao longo da vida nos dão provas de reciprocidade (ou de falta dela).

Ninguém toma o pequeno-almoço com deuses, nem vai ao supermercado com deuses nem os leva à escola de manhã. Chamávamos, lá pelas tantas, esse amontoado de coisas passíveis de se tornar um disco de "Projeto: mistério", pois o mistério é um tema ou elemento que liga muitas das canções, sem querer.

Qual a tua opinião sobre a cena de Porto Alegre. O que tu destaca de legal?

Não sou muito de ir ao teatro, mas (em 2007) gostei muito da versão de “Sonho de uma Noite de Verão” que tem o meu amigo Léo Machado no elenco. É num estilo cabaret, cheio de cantorias, muito bem dirigido e com ótimas atuações (na minha modesta opinião).

Vocês fizeram parte de um momento de explosão das bandas independentes. Passados tantos anos, o que mudou no cenário?

Agora o Internacional é bi-campeão da Libertadores, do mundo e da Recopa. Tríplice coroa. Acho preza esse termo/título, que deve ter sido inventado pelos marqueteiros do colorado mesmo. É também campeão da Sul-Americana, e dia desses ganhou com seu time sub-20, acho, a taça cidade de Santa Maria. Uma tremenda mudança no cenário!

O que você anda ouvindo, Carlinhos?

Janelle Monáe! O EP dela e o The ArchAndroid, que estou considerando um dos melhores discos de 2010!

Vocês ainda são filiados ao anti-movimento Vive Le Flesh Nouveau? Quem está por trás de VLFN?

Só eu continuo no Vive Le Flesh Nouveau! O resto do pessoal da banda saiu por desentender-se com convenções religiosas do coletivo. Ninguém está por trás do Vive Le Flesh Nouveau! A Carne Não Tem Raízes!

VLFN! tem a ver com “terrorismo new wave” e “empirismo pop”, conceitos pop-arrrtivistas formulados em Outubro ou Nada?

nÃO COMPRE aRRRTE, gASTE EM cARRRNE! (um dos índios é mudo).

Quem são seus ídolos do rock do Rio Grande do Sul, Carlinhos?

Plato, Flu, Edu K, Júpiter, Frank Jorge, Wander, Mini, Julio Porto, Zé do Bêlo, Tony da Gatorra, Jorjão, André Arieta, Cristiano Zanella, Lee Martinez, Jesus Buceta, Os Panarotto, Carlo, Birck, Petraquinho, Os Felinos, Pedrão Motora, Luiz Wagner, Rangel de Jaguarão, Campo & Lavoura, Vini Tonello, Liverpool, Pancho da Cara, Diego Medina, Rangel de Verdade, Fernando Rosa, o Agromod, Miranda, Flavinho Carneiro, Biba Meira, King Jim, Dr Love, Patrick, Glauco Caruso, Marcos, Cidade, Claudinho Transportes, Padeiro, Six, 4nazzo, Jimi Joe, Guri Assis Brasil, Jairo William Caveman, Kamika, João Carteiro, Moskito, Sting, Vitória Cuervo, Bolada, Pedrão Hahn, o Franco da Blazz, a dona Ivone Pacheco, Serginho Moah, Nando Endres, Cláudio Cunha, Ferla, Nik, Peninha, Katsy Carmichael, Menchen, Benvenutti, Ildo, Cicuta, Rogério da Toca, Getúlio da Boca, Salim, Rossatto, Liege, Deborah Blank, Suzy Doll, Dani hyde, Terréks, Dani Bolan, Chicão e o coral dos Irmãos Guatemala. (…)

Rivers Cuomo aprovou pessoalmente a versão de Buddy Holly, do primeiro disco? Como foi? Ele curtiu? Conta aí.

Pergunta pro Will, da Wonkavision, porque foi ele que conseguiu a liberação. Ele morava em Los Angeles, disse que ia tentar chegar pra ele na cara dura, mostrar a música e perguntar se ele liberava e dar esse start para liberação junto a editora e tal. Deu certo, o Rivers disse que liberava e deu o caminho das pedras para a liberação.

Na época, ele disse que o cara tinha achado estranho/engraçado ouvir sua própria música em português. Isso é o que mais me marcou. Às vezes me pego pensando na versão islandesa de "Gerson", na turca pra "Mesmo que Mude”, “Me Envergonha” em mandarim…

Na vinda deles ao Brasil, no show em Curitiba, houve um segundo contato massa entre nós e eles: o Sá alugou o seu mini-moog pro Brian Bell tocar, e foi – com a Vivi – no show, acompanhando o sintetizador (viu passagem de som, conheceu os caras, os ensinou seu extraordinário passo de dança "o manobrista Pete Townshend", salvou a Terra e ligou pro Al Gore. Tudo num dia!).

Depois do show eles colocaram no site deles um agradecimento ao Sá, pelo instrumento e por ter salvo o mundo, e falaram da gente. Achei massa.

(o índio com jeito de bicha diz): no Rock in Rio 3 o jorrrnalishta José Flávio Júniorrrr, que era inclusive da Bizz, deu uma cópia do primeiro dishco da Bidê pro Dave Grohl, que comia – ou come ainda, sei lá – aquela mina que tocava no Hole e no Smashing Pumpkinsh que tinha como primeiro nome o mesmo Melissa da música dosh Bidê. Ele mostrou isso pro cara e viu que tinha “Buddy Holly” também. O jorrrnalishta José Flávio Júniorrrr explicou que era a música do Weezer, e o Dave Grohl reshpondeu 'that fuckin' Weezer song???".

Eu achei muito preza que esses dias me disseram o boato que os fãs do Weezer estavam oferecendo 10 milhões de dólares pra eles não mais tocarem e os decepcionarem. Hahaha!]

Rock Sukita é coisa do passado?

Ainda se samba e se sambará. Ainda se beija e se beijará. Ainda se casa e se casará. Ainda se reza e se rezará. Ainda se deita e se deitará, um dia pra sempre. E assim pra sempre será.

Conta como surgiu a história da música "A-Há!"

A letra de 'A-há!' é inspirada num conto do Marcelo Benvenutti, que estava em uma revista que a gente fazia na época da faculdade, no comecinho da banda, a RevistaZE. O texto era sobre uma festa em uma boate portoalegrense, onde do nada faltava luz e havia a aparição de uma entidade/homem com um pau incandescente gritando "eu sou Mickey Rourke".

Além disso, tem muitas passagens do texto na música, além de um tanto de outras coisas que eu mesmo inventei e coloquei na “história”. A título de curiosidade: entre essas coisas incluídas por mim está o nome que cito na primeira estrofe, Renan, que na época veio à música influenciado pela sonoridade do nome do mesmo (por enquanto) senador Renan Calheiros, que tem estado tão em voga nos noticiosos.

E as abelhas?

Pois é, tenho andado muito preocupado com esse lance das abelhas saírem pra polinizar e não voltarem mais para as suas colmeias. Acho isso muito doido!

Carlinhos: quais são as suas 10 canções pop de todos os tempos, se tivesse que montar uma coletânea?

Não sou de listas. Muito menos as que se propõem definitivas. Prefiro imaginar uma coletânea:

"My Sharona" – The Knack
"Sexx laws" – Beck
"Lala love you" – Pixies
"Blinding Sun" – Mudhoney
"Besta é Tu" – Novos Baianos
"Got to Get Into My Life" – Beatles
"Você Não Serve Pra Mim" – Roberto Carlos
"Picture Book" – Kinks
"20th Century Boy" – T-Rex
"Race For the Prize" – Flaming Lips

Mas tinha que ter Clash, Sinatra, Elvis, Jorge Ben, Tim Maia, Erasmo, Lulu Santos, Paralamas, Butthole Surfers, Dinosaur Jr, B52′s, Gang of Four, Titãs, Mutantes, Happy Mondays, Beastie Boys, Beach Boys, Cypress Hill, Rolling Stones, Bob Dylan, Neil Young, Burt Bacharach, Blur, uma pá de coisa… não curto listas…

(a ligação cai e o entrevistador não consegue mais estabelecer contato com Carlinhos).

[ENTREVISTA: Cristiano Bastos/EDIÇÃO: Leonardo Dias Pereira]
Me Deixa Desafinar

Tudo é Preza

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