domingo, 3 de outubro de 2010

lUPICÍNIO: "dOR dE cOTOVELO é uM bARATO!"*

SAÍMOS COM LUPICÍNIO Rodrigues do Teatro Opinião, depois de sua apresentação diante de um delirante auditório de jovens, que nunca tinha visto o grande compositor cara a cara. Júlia Steinbruck nos convidou para fazermos a entrevista na casa dela, e fomos para lá, num grupo de umas 20 pessoas.

Pelos cantos do salão, vários grupos tocavam violão e batucavam. Gilson Menezes, do O Estado de São Paulo, também participou da entrevista. A uma certa altura, apareceu Sérgio Bittencourt, com a maior cara de pau, e disse:

"Vocês deixam eu perguntar uma coisa pro Lupicínio?" Que fazer? Não se podia engrossar na casa da dona Júlia. É claro que a entrevista teve várias pausas - para beber, para ouvir o maior cantor brasileiro - Jamelão -, para tirar fotografias, para ouvir mil caras tocando violão, e para beber de novo.

Lá pelas 4h5min. da manhã, Lupicínio resolveu tomar umas cervejas no Grego, do seu amigo Scoulis. E lá fomos, já meio claudicantes, mas decididos: Lupi, Gessé - seu acompanhante - Jamelão, Aibino Pinheiro e seu fiel Douglas, uma negra linda - Zélia - e eu.

Ás 9h30min. da manhã, na calçada do seu restaurante, Scoulis nos brindou - e aos passantes que olhavam perplexos aquele bando de boêmios, que terminavam a noitada àquela hora de uma terça-feira - com alguns passos de dança, enquanto, para nosso pasmo e encantamento Lupicínio cantava em grego. (Jaguar)

O PASQUIM - É verdade que você é o primeiro de 21 filhos?

LUPICÍNIO RODRIGUES - Nilo, eu sou o quarto de 21 filhos. Primeiro minha mãe teve três filhas mulheres, e o meu pai havia prometido que, se o quarto nascesse mulher, ele iria enforcar. Por felicidade, nasci eu, e ele não me enforcou. Por ser o primeiro filho homem, me criei como a criança mais mimada da família.

O PASQUIM - Você é um dos maiores compositores populares brasileiros. Mas sempre viveu no Rio Grande do Sul?

LUPICÍNIO - Graças a meu bom Deus sempre vivi no Rio Grande do Sul. Tive a felicidade de ficar conhecido universalmente, e agradeço isso aos marinheiros que visitavam a minha terra naquela época, quando não havia transporte para lá, a não ser o marítimo. Os marinheiros chegavam em Porto Alegre, aprendiam minhas músicas e saíam a divulgar pelo Brasil.

O PASQUIM - Aqui ao lado está o melhor intérprete do Lupiscínio, aquele intérprete que mais se identifica com o Lupiscínio, e que trouxe para o Rio de Janeiro o samba gaúcho. O nome dele é José Bispo, o Jamelão. Quem também está aqui do nosso lado é Júlia Steinbruck, ex-deputada federal, e mulher interessada em música popular brasileira. Mas quem leva o papo agora com Lupiscínio Rodrigues é o nosso amigo Jamelão.


JAMELÃO - Para eu fazer perguntas ao Lupicínio é uma questão de rotina porque eu estou sempre em contato com ele. Eu perguntaria: como vai o Batelão, Lupicínio?


LUPICÍNIO - O Batelão continua sendo a melhor casa de samba do Rio Grande do Sul. E com muitas saudades tua, que fizeste aquela temporada no Batelão, deixando aquela saudade; e esperando que voltes para lá pra ver se terminas, Jamelão. Desaparecestes de uma hora pra outra, não te despediste de ninguém.


O PASQUIM - Explica para o carioca o que é o Batelão. É um bar de tua propriedade há quantos anos?


LUPICÍNIO - O Batelão é bem um bar, é um restaurante que tem música. A turma vai lá pra jantar, e jantam cantando samba. É quase o tipo do Teatro Opinião; só que como restaurante, a luz tem que ser mais clara e o samba começa às oito horas da noite e vai até as seis horas da manhã. O Jamelão nos deu a honra de sua presença nesta temporada que esteve em Porto Alegre com o Sargentelli.


O PASQUIM - Você talvez seja um compositor conhecido no Brasil inteiro, que conseguiu fazer sucesso com a idade mínima. Aos 12 anos já fazia composição para os blocos carnavalescos de sua cidade. Como é que foi essa iniciação musical no Rio Grande do Sul? Você nasceu em 16 de setembro de 1914.


LUPICÍNIO - O que acontece é que na época em que eu comecei a fazer música no Rio Grande do Sul, começava a rádio no Brasil. Eu nunca fíz música com a finalidade de ganhar dinheiro. Eu nunca pensei que eu pudesse gravar uma música.


O PASQUIM - Mas aos 12 anos?


LUPICÍNIO - Eu fazia de brinquedo, como faço até hoje. Não faço música pra ganhar dinheiro nem música para gravar.


O PASQUIM - Você vive de música ou tem outra atividade da qual você vive?


LUPICÍNIO - Eu sou o procurador do Serviço de Defesa do Direito Autoral. Sou representante da SBACEM, sou funcionário público. Tem uma porção de outras coisas.


O PASQUIM - E cozinheiro também.


LUPICÍNIO - Sou cozinheiro. Tenho um restaurante, e tem o bar. Eu faço música pra divertir, não faço profissão da música.


O PASQUIM - Qual é a sua espedade em matéria de culinária? Qual é a sua grande atração, o carro-chefe?


LUPICÍNIO - Comida popular. Essa comida de todo dia. Porque eu não sou cozinheiro de dizer que eu faço comidas difíceis, grandes pratos. Mas essa comida popular, essa comida de todo dia, eu acho que faço bem. Eu acho que cozinho melhor do que componho, do que canto.


LUPICÍNIO - O PASQUIM - Você se sente bem tendo como troféu de honra - a coisa que representa mais a sua música popular - a dor de cotovelo? Para fazer tantas músicas de dor de cotovelo, você teve quantas mulheres quis?


LUPICÍNIO - Meu camarada, eu realmente tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci.


O PASQUIM - Lupicínio tem mil histórias para contar. Por exemplo "Vingança". É uma música que em 52 dominou o Brasil inteiro. Jornais publicavam e ressaltavam o que houve na época por causa daquela música. Houve tentativas de suicídios, etc. A quem dedicou "Vingança". Que mulher é essa, onde ela esteve, onde ela está?


LUPICÍNIO - A mulher que me inspirou "Vingança" viveu comigo seis anos. E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado.


O PASQUIM - Que idade ele tinha?


LUPICÍNIO - 16, 17 anos.


O PASQUIM - Foi passado pra trás por um garoto de 17 anos.


LUPICÍNIO - Não foi bem assim. É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto. Disse que queria falar com ele. Ela mandou um bilhete. O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete. Disse: "Olha a Dona Carioca me mandou esse bilhete. Eu não sabia o que ela queria comigo. Não fui." (Risos) Entregou a mulher. Aí eu não disse nada. Fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei minha mala, e fui embora.


PASQUIM - Endoidou.


LUPICÍNIO - Era época do carnaval, ela endoidou. Botou um “Dominó". "Dominó” é aquela fantasia preta, que cobre tudo. No carnaval, feito louca foi me procurar. Uma certa madrugada, ela, num fogo danado - parece que deu fome - entrou num bar onde a gente costumava comer. Foi obrigada a tirar o "Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu. Perguntaram - "Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora? Cadê o Lupi?" Ela sozinha.


O PASQUIM - Carioca por que? Ela é carioca?


LUPICÍNIO - É sim. Ela é viva, mora aqui. Ai ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado. Uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca vestida de "Dominó”, num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que que houve, vocês estão brigados?" Aí foi que eu fiz o "Vingança". Na mesma hora comecei, saiu (canta) "Gostei tanto, tanto, quando me contaram ... "


O PASQUIM - Foi uma ruptura pra valer.


LUPICÍNIO - Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre. Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo pra fazer as pazes. Aí eu fiz (canta): "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar ...”


O PASQUIM - Tem bom samba lá no Rio Grande do Sul, tirando Lupicínio Rodrigues? O pessoal lá é bom de samba? Tem bons batuqueiros e escola de samba?


LUPICÍNIO - Lá tem bom sambista.


LUPICÍNIO - Tem boas escolas de samba.


O PASQUIM - Tem gente fazendo cara de quem está duvidando.


LUPICÍNIO - O Benedito Lacerda foi ao Rio Grande do Sul e voltou de lá admirado. Como o Rio Grande do Sul, sendo tão longe do Rio de Janeiro...


O PASQUIM - E tão perto da Argentina, do Uruguai...


LUPICÍNIO - ...os nossos ritmistas, os nosso violonistas tocavam tão bem o samba como no Rio de Janeiro. Naquele tempo nós chamávamos os paulistas de quadrados. O samba de São Paulo é de há muito pouco tempo.


O PASQUIM - Você não é um fenômeno isolado, embora tenha se destacado.


LUPICÍNIO - Os melhores ritmistas que teve aqui no Rio de Janeiro, anos atrás, eram gaúchos. Por exemplo, o violinista que ensinou os cariocas a fazer esse samba que hoje dizem que é bossa-nova, era gaúcho. Chamava-se Neorestes. O pandeirista que ensinou os cariocas a bater pandeiro era gaúcho.


O PASQUIM - É? Quem era?


LUPICÍNIO - Darci do Pandeiro. Outro violonista: Gorgulho, que também era gaúcho.


O PASQUIM - Na música popular brasileira, qual a diferença que você vê entre as suas músicas e as músicas de Teixeirinha, sendo vocês dois da mesma região do Brasil?


LUPICÍNIO - A diferença que existe é que eu faço música popular, o Teixeirinha faz música regional. O Teixeirinha não é folclorista, não é o folclore gaúcho. O Teixeirinha é o regionalista, como o de qualquer estado do Brasil. A música do Teixeirinha é tão regionalista quanto a música mineira, a música nortista. Não é o nosso cancioneiro gaúcho. E adoro a guariânia, adoro tango e adoro bolero. Eu acho qualquer dessas músicas maravilhosas. Como adoro qualquer música popular bem feita.


O PASQUIM - Como é que você consegue isolar essa influencia do seu trabalho?


LUPICÍNIO - Eu acho o ritmo brasileiro o melhor ritmo do mundo, no meu gênero.


O PASQUIM - Quando você começou a se formar como compositor, quais eram os compositores brasileiros, ou a escola brasileira, que você mais gostava?


LUPICÍNIO - Eu não comecei fazendo música, eu comecei a cantar. Quando comecei, foi como cantor. O cantor que eu imitava era Mário Reis.


PASQUIM - Isso em que ano?


LUPICÍNIO - Em 1930.


O PASQUIM - Mas você tinha 16 anos. Você não ouvia Mário Reis com 16 anos.


LUPICÍNIO - Claro. Era a dupla mais famosa do Brasil: Francisco Alves e Mário Reis.


O PASQUIM - Qual o cantor que melhor interpreta o que você deseja dizer nas suas músicas? Aquele que quando você ouve fica emocionando.


LUPICÍNIO - O cantor que eu admiro, que eu gosto que intérprete as minhas músicas, é o Jamelão. Porque ele tem uma preocupação de cantar as músicas como eu faço. Não é por ele estar presente. A gente faz uma música e o cantor vai cantar. Ele acha que tem que fazer uma coisa diferente, mudar a melodia, ele acha que a letra tem que ser como ele quer. O Jamelão é autêntico. Ele procura aprender a música como a gente ensina pra ele a cantar a música como a gente faz.


O PASQUIM - Jamelão, como você conheceu Lupiscínio Rodrigues?


JAMELÃO - Eu conheci Lupicínio Rodrigues através de minha vida de crooner. Eu cantava em dancing e sempre gostei do repertório do Lupicíno. Nas minhas andanças para lá e para cá, fui conhecê-lo em Porto Alegre.


O PASQUIM - Mais ou menos que ano Jamelão?


JAMELÃO - Cinqüenta e pouco. Foi com a orquestra do Severino Araújo. A primeira vez que eu fui ao Sul com orquestra foi com Severino Araújo. Nós tínhamos vindo de uma excursão à Europa, e então eu o conheci. E através disso tive oportunidade de gravar "Ela disse-me assim".


O PASQUIM - Você tem idéia do ano?


JAMELÃO - "Ela disse-me assim" foi gravada mais ou menos em 55.


O PASQUIM - Lupicínio, você não teria outra história tão peculiar ligada a uma música que tenha composto? Uma música que também parecesse uma experiência tua. mas que fosse uma história engraçada, interessante, de alguma mulher. Eu nunca vi um homem com tanta mulher. É incrível! E a Iná?


LUPICÍNIO - A Iná foi a primeira mulher que eu tive. E a primeira desilusão.


O PASQUIM - Quantos anos você tinha?


LUPICÍNIO - 17 anos.


O PASQUIM - Terá sido ela a inspiradora de "Nervos de Aço"?


LUPICÍNIO - Foi a Iná.


O PASQUIM - Você fez "Nervos de Aço" com quantos anos de idade?


LUPICÍNIO - "Nervos de Aço" eu fiz com 22 anos.


O PASQUIM - Lupi, aqui no Rio você freqüenta muito um lugar. Até hoje a gente não sabe porque. Um bar na Barata Ribeiro chamado "Grego". E sempre que a gente se vê, você está acompanhado de mulata. Você tem algum preconceito de cor, ou realmente é do nosso time e gosta de mulata?


LUPICÍNIO - Pelo contrário, dificilmente estou acompanhado de mulata. Não sei porque, eu não dou sorte com mulata. A única mulata que eu tive na minha vida foi justamente a Iná. A Iná de muitas músicas.


O PASQUIM - Diz umas aí.


LUPICÍNIO - "Zé Ponte", "Xote da Felicidade". E tantas outras músicas. Mas depois de Iná, eu só tive problemas com louras.


O PASQUIM - É interessante que se situe a sua primeira vinda ao Rio de Janeiro. Porque foi muito engraçado. O Lupiscínio foi parar na Lapa, onde foi fazer amizade com uma barra pesadíssíma. Conheceu Kid Pepe, conheceu Germano Augusto, conheceu muitas figuras, e foi um grande jogador na Lapa. Não conheceu madame Satã. Como é que você chegou e entrosou?


LUPICÍNIO - Eu sou aposentado por amor.


O PASQUIM - Explica isso, rapaz.


LUPICÍNIO - Eu ganhava naquela época, na Faculdade de Direito, duzentos cruzeiros por mês. Eu era bedel na Faculdade de Direito.


O PASQUIM - Era inspetor. Inspetor de alunos.


LUPICÍNIO - Ganhava 200 cruzeiros por mes. Eu vi que, ou eu ia pedir pra fazer as pazes com a Iná, ou eu ia morrer.


O PASQUIM - Em que ano isso?


LUPICÍNIO - Em 1939. Eu era muito amigo do Tatuzinho, que foi esposo legítimo da Elizete Cardoso, pai do Paulinho.


O PASQUIM - Paulinho Valdez.


LUPICÍNIO - Então o Tatuzinho diz assim: "Vão s'imbora pro Rio".


O PASQUIM - A primeira vez?


LUPICÍNIO - Da primeira vez, 1939, na época da guerra. Comprei uma passagem. Custou 170 mil réis e sobrou 30 mil réis pra viajar. Terceira classe de navio. Aí embarquei, na terceira classe. No caminho, o Tatuzinho tocando violão e eu cantando, já me deram logo um camarote. Vim cantando no navio.


O PASQUIM - Você chegou como? Você ficou onde? Num hotel, numa pensão?


LUPICÍNIO - Pensão ali por perto, na Lapa. De uma baiana.


O PASQUIM - Você chegou com conhecidos ou foi se tornando...


LUPICÍNIO - Aí aconteceu uma das coisas mais importantes. Esse meu amigo era gaúcho, o Bom Mulato -- vocês devem conhecer, porque esse camarada é do Jockey. Ele entrou no Café Nice e me meteu na pior. Tava sentado ali Ari Barroso, Haroldo Lobo, Nássara, e tudo quanto era grande compositor. Francisco Alves, toda a máfia sentada no Café Nice, às seis horas da tarde. Ele chegou comigo pela mão e gritou dentro do Café Nice: "Chegou o meu cavalo aqui". Os caras ficaram tudo me olhando, né, que negrinho pequenininho, tudo me olhando assim. Eu cheguei e disse: "Olha, esse cara tá brincando". o Haroldo Lobo me olhando, o Nássara me olhando, o Chico me olhando.


O PASQUIM - Que ano é isso?


LUPICÍNIO - 1939. Aí foi que eu conheci o Chico. Eu já tinha uma porção de músicas gravadas, mas ninguém me conhecia.


O PASQUIM - Quem é que tinha gravado as suas músicas dessa época?


LUPICÍNIO - O Ciro Monteiro, uma porção de gente tinha gravado.


O PASQUIM - Seu grande sucesso gravado foi em 37, com Ciro Monteiro.


LUPICÍNIO - Eu sentei na mesa, pedi um cafezinho. Todo mundo cantando, era mais ou menos época do carnaval. Naquele tempo os caras botavam um níquel no bolso pra bater, outros batiam na caixa de fósforo, outros na parede, e eu tô escutando. Diz um pra mim: "Ô gaúcho, canta um negócio teu aí". Eu digo: "Eu não sei cantar essas músicas que vocês estão [70] cantando." E ele: "Não, canta qualquer coisa aí". Aí eu (canta): "Você sabe o que é ter um amor, meu senhor Ter loucura por uma mulher..."


O PASQUIM - Ô rapaz!


LUPICÍNIO - Aí o Chico começou, psft, psft, assim cuspindo: "Canta outra aí". E eu mandei: "Quem há de dizer / que quem vocês estão vendo / naquela mesa a beber". Aí o Chico, psft, psft: "Isso é teu moleque? Isso é teu?" (risos). Eu sei que quando eu cantei a quarta música, o Chico me chamou lá pro canto, psft: "isso tudo... não dá para... Isso é teu?" "Aí ele me botou num Buick vermelho que tinha e me levou pro Turf, um clube de...


O PASQUIM - ...corrida de cavalo.


LUPICÍNIO - Não, o Turf era um clube de pif que tinha aqui no Flamengo. "Pft, cê não dá isso pra ninguém. Não dá isso pra ninguém. Vou gravar tudo". Aí eu fiz amizade com o Chico.


O PASQUIM - Você acha o Chico um bom intérprete seu?


LUPICÍNIO - Ah, o Chico foi um bom intérprete. Foi sim.


O PASQUIM - Ele não dá uma interpretação a você que não é exatamente a interpretação dele é um pouco "grandiloqüente" para a tua música. Não é não?


LUPICÍNIO - A voz do Chico era aquela. A voz do Chico era empostada. Ele não podia diminuir o tom.


O PASQUIM - Lupicínio, em 52, tinha uma dificuldade de comunicação muito grande. Temos a impressão que a grande dimensão nacional de tua música foi Linda Batista gravando "Vingança". Você acha que "Vingança. Você acha que “Vingança” foi a música que te projetou nacionalmente de forma definitiva?


LUPICÍNIO - Uma das coisas interessantes: a Linda não aprendeu "Vingança" comigo.


O PASQUIM - Não foi não?


LUPICÍNIO - Eu ensinei a "Vingança" para o Herivelto Martins. A [70] [71] primeira gravacão de “Vingança” foi feita pelo Trio de Ouro. Mas quem ia gravar mesmo -- e a Linda aprendeu com ele -- foi o Jorge Goulart. Ele cantava no Vogue, junto com Linda, Jorge Goulart, Linda e Nora Ney. Jorge Goulart aprendeu a música comigo no Rio Grande do Sul, chegou no Vogue e começou a cantar. A Linda aprendeu e quando o Jorge Goulart se descuidou, ela chegou e gravou. Quando o Jorge Goulart viu, a música já estava gravada.


O PASQUIM - Pelo que está dizendo, você nunca fez caitituagem em sua vida?


LUPICÍNIO - Nunca, nunca, nunca. A minha primeira música foi gravada sem eu saber. Me procuravam pra dizer que a minha música havia sido gravada. Nunca tive a mínima entenção de ser artista, compositor, nunca.


O PASQUIM - Você é uma prova de que uma pessoa isolada feito você, que não estava no local adequado para fazer música popular no estilo que você faz, pode aparecer, como você, afinal de contas, apareceu no Brasil inteiro. Você acha que o que eles chamam a "máquina" não é tão esmagadora quanto dizem?


LUPICÍNIO - A "máquina”é esmagadora. Pelo seguinte: ela evita, proíbe que apareçam os valores.


O PASQUIM - Mas você apareceu, de qualquer maneira.


LUPICÍNIO - Mas quando eu apareci não existia a "máquina".


O PASQUIM - O que você ensinou de mais importante, o que você transmitiu de mais importante?


LUPICÍNIO - Olha, eu vou dizer uma porção de frases e coisas que eu fiz. Por exemplo: "É melhor brigar junto do que chorar separado". Tem outra que diz assim: "Ela nasceu com o destino da lua / pra todos que andam na rua / não vai viver só pra mim".


O PASQUIM - É lindo. É uma grande frase.


LUPICÍNIO - Tem uma outra que diz assim:
que efiz ~: "Vocês Maria de agora/ amem somente uma vez/ para que mais tarde esta capa/ não sirva em vocês”.


O PASQUIM - Ele está dizendo os versos importantes da vida dele.


LUPICÍNIO - Tem outro que diz assim, desses pobres moços: "Se eles julgam que o futuro / só ao amor dessa vida conduz / saibam que deixam o céu por ser escuro / e vão ao inferno à procura da luz". E assim tem uma porção de coisas.


O PASQUIM - Aquela que fala da Dona Tristeza e da Dona Alegria?


LUPICÍNIO - Eu gravei, mas o Jamelão não gravou.


O PASQUIM - Como é o nome dessa música?


LUPICÍNIO - "Rosário de Esperança". Eu vou só dizer os versos, cantar não dá.


O PASQUIM - Pode ser cantado. Depois nós escrevemos os versos, cantar não dá.


LUPICÍNIO - "Eu fui convidado por alguns amigos / pra ir a uma festa / beber e cantar / Peguei a viola afinei a garganta / e até pus a manta / pra me agasalhar / E fiz um convite pra Dona Alegria / melhor companhia / pra festa não há / Mas eu não sabia / digo com franqueza / que a Dona Tristeza / morava por lá. Cheguei satisfeito / alegria no peito / sorriso na boca/ viola no lado / Mas vi com surpresa / na primeira mesa / sentada com outro / a mulher que eu amei / Voltei desolado tristonho, magoado / viola do lado não bebi nem cantei".


O PASQUIM - Você tem alguma música que o tema não seja mulher?


LUPICÍNIO - Se tenho não me lembro no momento.


O PASQUIM - E o seu processo de criação para a música. Você medita sobre o tema, ou o negócio vai fluindo?


LUPICÍNIO - Medito sempre sobre o tema.


O PASQUIM - Mas de estalo, de vez em quando, sai um. Como aquela da vingança.


LUPICÍNIO - Todos são um tema real, coisas que acontecem na hora.


JAMELÃO – Ô Lupi, ultimamente, aqui no Rio, surgiu uma certa controvérsia a respeito de uma música da sua autoria. Essa música, inclusive no programa do Flávio Cavalcanti, foi mostrada como sempre deturpando um pouco a melodia. Mas, de qualquer forma, é uma promoção. E essa música passou a ser comentada por aqui com o nome de "Bicho do Pé". O título dessa música não é "Bicho de Pé", é "Sozinha". Eu gravei essa música, é uma das músicas mais solicitadas nos "shows" em que eu me apresento. Como foi que você teve a inspiração para fazer essa música? Qual foi o motivo, a coisa que gerou?


LUPICÍNIO - Jamelão, você sabe que eu servi em Santa Maria, né? E o princípio de minha vida artística foi lá em Santa Maria. E lá eu conheci essas histórias. Lá eu fiz "Zé Ponte", fiz aquela (canta): "Felicidade foi-se embora / e a saudade no meu peito..."


O PASQUIM - Essa música é sua?Não é folclore?


LUPICÍNIO - "Felicidade" é. (Canta): "A minha casa fíca lá detrás do mundo / mas eu vou em um segundo / quando começo a cantar". "O pensamento parece uma coisa à-toa / como é que a gente voa / quando começa a cantar".


O PASQUIM - Que maravilha.


LUPICÍNIO - Aquela outra: "No meu casebre tem um pé mamoeiro / onde eu passo o dia inteiro / campeando a minha mágoa".


O PASQUIM - Nesse tempo todo de sucesso aqui no Rio, você nunca foi tentado a se estabelecer aqui?


LUPICÍNIO - Eu gosto muito do Rio Grande do Sul.


O PASQUIM - As tuas raizes estão lá, e tal. Lupi, e os convites que você teve para ficar em São Paulo?


LUPICÍNIO - Eu tive diversos convites. Até me deram um bar uma vez. Uma moça lá que eu namorei, até um bar me deu de presente. "Fica aqui que eu te dou o bar".


O PASQUIM - O homem é bom de bico. Até ganha bar. Quando foi isso?


LUPICÍNIO - 1968, mais ou menos.


O PASQUIM - E você não quis o bar?


LUPICÍNIO - Eu fazia um show no "Chicote" e tinha a moça do bar que ia me buscar todo o dia. "Se tu quiser ficar aqui e morar em São Paulo tu fica com o bar pra ti". Mas nem ganhando um bar de presente eu não quis ficar.


O PASQUIM -O PASQUIM - É verdade que você fez o hino do Internacional?


LUPICÍNIO - Não! Eu fiz o hino do Grêmio.. Sou do contra (canta): "Até a pé nos iremos / para o que der e vier Mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver".


O PASQUIM - Você sendo de tradição tão popular de comportamento, o Internacional é um clube muito mais ligado a sua família. Dos 21 irmãos, quantos eram Grêmio?


LUPICÍNIO - Lá é a metade por metade. Metade é gremista, metade é colorado. (Todos riem)


O PASQUIM - Vinte e um não dá metade.


Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho e Lupicínio Rodrigues.


LUPICÍNIO - Tem um voto de Minerva. São 4 e 15. São quatro horas da madrugada e nós estamos aqui numa roda maravolhosa tocando músicas, e não pensamos parar ainda. Nós vamos continuar lá no "Grego", porque tem uma porção de amigos nos esperando lá para festejar um aniversário que começou ontem. Aniversário do meu amigo Albino Pinheiro.


(Corte. O local agora é o Restaurante El Grego. Muita movimentação e vozes falando ao mesmo tempo. Ritmo da entrevista: devagar, ou seja, ritmo de porre e madrugada. Fundo musical: Roberto Carlos.)


O PASQUIM - Nós saímos da casa da Júlia e chegamos no "Grego". É um lugar do Rio de Janeiro que não e muito conhecido da boemia. Eu queria, Lupiscínio, que você falasse da relação entre o "Grego" e a sua boemia, pra você gostar tanto desse lugar.


LUPICÍNIO - O lugar onde sempre encontro tranqüilidade é o "Grego". É o centro dos gaúchos. Aqui se reúnem, pelo menos se reunia antigamente, todo o mundo, toda a gauchada. Quando eu quero encontrar os meus patrícios eu venho aqui no "Grego”.


(Jamelão, nesse momento, tenta se despedir, porque diz que tem que acordar cedo. Lupiscínio tenta prendê-lo à mesa. Não se sabe o que vai acontecer. São exatamente cinco e meia da manhã.)


O PASQUIM - Qual a mulher que no Rio de Janeiro te impressiona, e você gostaria de conhecer melhor?


LUPICÍNIO - Olha aqui, se eu pudesse, queria conhecer todas as mulheres do Rio de Janeiro.


O PASQUIM -O PASQUIM - Lupiscínio, com 50 e poucos anos, você é o padrão do boêmio brasileiro. Um camarada que, com seu comportamento e atitude, reflete isso para toda uma nação. Né, pô?


LUPICÍNIO - Eu acho que cada pessoa deve viver como se sente bem. Eu hoje estive falando com um dos meus professores, Joubert de Carvalho. Foi quem me ensinou a fazer versos. (canta): "Maringá, Maringá / depois que tu partisses / tudo aqui ficou tão triste / que eu passei a imaginá". Eu nasci na época de "Maringá”, do (canta): "Adeus Guacira, meu pedacinho de serra". Nasci na época do, como é? "... pescando no rio de gereré". Como é? Eu canto todas essas canções. Eu tô meio embira, e não posso lembrar agora. E preciso que se saiba que já são seis horas da manhã e nós estamos no Grego. (Pensa um pouco, depois canta): "Não quero outra outra vida pescando no rio gereré / tenho peixe bom, tem siri patola de dá com pé / Quando no terreiro / faz noite de luar..." Isso é de Joubert de Carvalho. Essa gente que me ensinou a fazer versos.


(Enquanto todos prestam atenção em Lupiscínio, Jamelão sai à francesa.)


O PASQUIM - Como é que você se coloca diante do atual panorama da música brasileira? Você está entrosado ou você está em cheque com as novas tendências? Você acha que está legal, ou você se sente uma figura meio deslocada?


LUPICÍNIO - Eu não tenho nada com o ambiente artístico brasileiro. Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boêmio.


O PASQUIM - Mas você é um artista brasileiro. E você tem que se colocar nessa posição.


LUPICÍNIO - Eu sou boêmio. O meu negócio é estar assim como estou agora com o violão do lado, dentro de um bar, com vocês, e tomando as minhas biritas e cantando. Não faço comércio.


O PASQUIM - O que você acha de, digamos, Caetano Veloso?


LUPICÍNIO - Caetano Veloso? Ah, é ótimo compositor. Muito bom mesmo.


O PASQUIM - Você não se sente em choque com o que está se fazendo, porque tudo é música brasileira, né?


LUPICÍNIO - Olha, todo camarada que produz no Brasil, seja ele de que forma for, Caetano Veloso, Gil, Chico Buarque... Apesar de que Chico Buarque ainda é naquele estilo antigo, que eles chamam, como é?, os "quadrados”. Mas acho o Chico um poeta maravilhoso, conservador daquele ambiente. Mas todos os que produzem, os que cooperam na arte brasileira, todos são bons.


O PASQUIM - As vezes, um compositor novo fala assim: "Ah, você não conhece o Lupiscínio direito. Ele faz lparte do SDDA". Você acredita que o direito autoral no Brasil, em relação ao compositor, é o que ele merece, ou não? Você homem ligado, quando um compositor novo ou velho reclama, qual é a tua posição?


LUPICÍNIO - Eu faço parte das duas classes. O que está acontecendo não é que as sociedades não paguem os compositores, não queiram pagar. O que acontece é que a influência da música estrangeira no Brasil é o maior... como se diz?... é o maior...


O PASQUIM - Câncer, hem? Câncer?


LUPICÍNIO - É o câncer que prejudica o compositor brasileiro. Eu vou explicar as razões.


O PASQUIM - E a mecânica da coisa, Lupiscínio?


LUPICÍNIO - Se as sociedades brasileiras de compositores tiverem que pagar o direito autoral certo, certo como é, o compositor brasileiro não recebe nada.


O PASQUIM - Explica pra nós.


LUPICÍNIO - É o seguinte. No Brasil toca 90% de música estrangeira. Se nós cobramos 90% de música estrangeigeira em cruzeiros, e pagamos pros estrangeiros em dólar, as sociedades de autores brasileiros têm que pagar aos estrangeiros mais do que eles cobram. O dólar custa seis cruzeiros: (N.R.: nos bons tempos!) o cruzeiro custa um. O dia em que as nossas autoridades fizerem tocar no Brasil 90% de música brasileira... porque ninguém teve o peito ainda de mandar tocar 90% de música brasileira.


O PASQUIM - Lupicínio, você é uma figura legendária aqui no Rio de Janeiro, uma figura quase mitológica. Você tem consciência disso?


LUPICÍNIO - (continuando, sem tomar conhecimento) -- Vocês que tem a imprensa na mão devem saber que podem ajudar. Não só os composítores, porque não é só os compositores que estão sofrendo. São os artistas em geral que estão sofrendo essa coisa. Você sabe que o Brasil deve ter uma média agora, de... vamos fazer uma base mínima ... tem dez milhões de artistas.


O PASQUIM - Quê que é isso, rapaz?


LUPICÍNIO - Fazendo uma base mínima de dez milhões de artistas, entre amadores e profissionais. A TV Globo e a TV Tupi, no Rio de Janeiro e São Paulo, não tem lugar para dois mil trabalharem. Tem?


O PASQUIM -O PASQUIM - É claro que não.


LUPICÍNIO - Não tem. E no entanto só existem três canais pra poder trabalhar. Quem não vem ao Rio e São Paulo não tem onde trabalhar.


O PASQUIM - Tá certo Lupi. O Lupi, voltando a esse papo de boemia: Em Porto Alegre, se você está sentado mima mesa, qualquer gaúcho pode sentar? E o cara quando senta, pode chegar assim "Ô Lupiscínio", e vai lá e te abraça, e te pega com intimidade? E no Rio de Janeiro, quando está aqui no "Grego", onde nós estamos às seis e meia da manhã, e o cara chega e te reconhece? Como é que você recebe?


LUPICÍNIO - Em todo lugar que eu chego eu sou o mesmo Lupiscínio. Todo mundo fala comigo, todo mundo bebe comigo, todo mundo convive comigo. Gente de toda a classe, de todas as categorias. Pra mim o mundo tem o mesmo tamanho e todos os homens [74][75] têm o mesmo valor. Só tem uma coisa que eu escolho: os meus amigos pra sair comigo. Na hora de sair, ou pra freqüentar a minha casa, é outro negócio.


O PASQUIM - Mas o pessoal que chega na mesa?


LUPICÍNIO - Ah, bebe todo mundo comigo.


O PASQUIM - Essa pergunta é uma questão de tradição nossa. Qual é o teu nível de instrução? E até que nível você resolveu estudar com a vida que levava?


LUPICÍNIO - Como curso oficial eu cheguei até o ginásio. Estudei a vida em cursos particulares e gosto muito de ler.


O PASQUIM -


LUPICÍNIO - Eu não leio literatura clássica. Eu só leio livros populares.


O PASQUIM - Por exemplo?


LUPICÍNIO - Eu gosto de ler livros de contos, livros policiais...


O PASQUIM - Érico Veríssimo?


LUPICÍNIO - Você sabe que eu leio. Jorge Amado, cê sabe que eu leio.


O PASQUIM - Que horas você vai dormir, que horas você acorda?


LUPICÍNIO - Eu acordo mais ou menos às 10 horas da manhã, dou comida pras minhas galinhas, pros meus passarinhos.


O PASQUIM - Ah, você cria? Você mora em casa grande, com quintal?


LUPICÍNIO - Minha casa tem uns 20 metros de largura, mas tem quase 200 metros de fundura.


O PASQUIM - Vai contando, vai contando. Vai em frente.


LUPICÍNIO - Aí a mulher vai me procurar no fundo do quintal, me achar pra me dar café. Aí, depois, me chama pra fazer comida.


O PASQUIM - Você faz a comida?


LUPICÍNIO - Eu faço a comida. Aí, então, eu durmo. Até as três, quatro horas da, tarde. Três horas eu levanto, tomo meu banho, me arrumo, e vou a SBACEM. Aí saio do escritório às sete horas e continuo a noite até as quatro da manhã. Às quatro eu vou pra casa.


O PASQUIM - Especifica.


LUPICÍNIO - Aí tem que passar de buteco em buteco, aqueles igrejinhas todas. Vou lá pro meu bar, que é o mais movimentado da cidade, o "Batelão".


O PASQUIM - Você tem que ganhar uma mulher toda a noite, pó. Como é que você aguenta tanta mulher em cima de você?


LUPICÍNIO - Não, eu sou um rapaz direito. Nesse negócio de mulher eu sou um rapaz direito.


O PASQUIM - Só tem aquela tua?


LUPICÍNIO - Só da patroa. Sou só da patroa.


O PASQUIM - Apesar de fazer essas músicas todas maravilhosas que o Brasil inteiro sabe, você, a partir da tua ligação com a tua patroa...


LUPICÍNIO - A partir das quatro horas da manhã sou só da patroa.


O PASQUIM - Ah, aí você é só da patroa. Gessé, grande companheiro de Lupiscínio, professor de violão, maravilhoso acompanhante de Lupiscínio, grande boêmio. Gessé, fala alguma coisa de Lupiscínio para O PASQUIM.


GESSE - Eu digo duas palavras só. Lupicínio é autenticidade e acabou-se.


O PASQUIM - Autenticidade? O pessoal quer saber de você que autenticidade é essa.


GESSÉ - Eu ouvi vocês perguntando pro Lupi, por que que ele, lá no Rio Grande do Sul, fazia samba. O samba é mais velho, o samba vem do choro. O Lupi ouvia o pai dele fazer choro. O choro veio do lundu, do maxixe. Não precisa vir ao Rio de Janeiro pra fazer samba. Os estilos saem diferentes. O estilo do samba do Rio Grande do Sul, o estilo aqui, o estilo do samba do Recife. Mas origens são sempre as mesmas. As origens são aquelas que vieram lá de trás, onde nota o coco, o maracatu - que outro estilo de samba -, o xaxado. Isso tudo é samba. E isso, meu filho, está principalmente na cor, na raça. Você não precisa aprender. Isso nasce sozinho. O ruim é louro fazer isso. Este precisa vir aqui aprender, sentar no banco da escola. Mas quem já tem na cor não precisa vir aprender. Já nasce, tá no berço.


O PASQUIM - E você, onde é que aprendeu esse balanço todo?


GESSÉ - Ah, eu vim beber água na fonte. Bebi água na fonte, sim.


O PASQUIM - Você participou do movimento musical aqui no Rio de Janeiro?


GESSÉ - Minha formação musical foi aqui no Rio de Janeiro.


O PASQUIM - Você é gaúcho?


GESSÉ - Eu sou gaúcho. Mas vim beber água e aprender violão aqui, na fonte.


O PASQUIM - E como foi o contato com o Lupiscínio?


GESSÉ - Veio ao natural. Eu, chegando no Rio Grande do Sul, tinha que procurar o Lupiscínio. O problema foi meu: procurar e encontrar o Lupicínio.


O PASQUIM - Há quanto tempo vocês transam juntos?


GESSÉ - Dez anos. Mas já com uma certa afinidade, tocando muitas vezes juntos.


O PASQUIM - Vocês já tem estabilidade?


GESSÉ - Algumas poeiras de muitas estradas nas sandálias da gente.


O PASQUIM - Lupi, talvez tenha alguma coisa que você queira dizer e que nunca ninguém perguntou numa entrevista. Isso é importante, porque às vezes a pessoa tem alguma coisa que dizer, e nunca ninguém pergunta. Que que você quer dizer, quer transmitir ou protestar? Alguma coisa que você sentiu, e nunca foi perguntado?


LUPICÍNIO - Olha, eu não sou de reclamar. A única coisa que eu estou reclamando, não é por mim, é um pedido que eu estou fazendo: que ajudem os nossos artistas. Pedindo ao governo que obrigue as estações de rádio, os barés, a por programação ao vivo, pra dar serviços a esses milhares de artistas brasileiros que andam por si, e não tem onde trabalhar. Os únicos estados que tem -- ainda -- lugar para artista trabalhar é Rio e São Paulo, que não podem acomodar esses artistas todos do Brasil.


*Origem: Pasquim Entrevista. Som do Pasquim - Grandes entrevistas com os Astros da Música Popular Brasileira. Edição 225 (29 de outubro de 1973)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

eNTREVISTA cOM vICENTE cELESTINO - o éBRIO

No dia 23 de agosto de 1964, Vicente Celestino - "Voz Orgulho do Brasil" -, na ilustre presença de Orlando Silva - "O Cantor das Multidões", foi recebido pelo radialista Moraes Sarmento no seu famoso radiofônico da Bandeirantes.
Celestino concedeu essa entrevista que, muitos anos depois, ainda se comentava, ficou na história. Ouça os principais trechos e depois faça uma viagenzinha no Túnel do Tempo.
Parte 1 - 2'36"
Preâmbulo de Moraes no qual destaca a importância do seu
convidado no cenário musical brasileiro e seu prazer em recebê-lo



Parte 2 - 1"48"
Vicente Celestino agradece as palavras elogiosas e coloca-se
à disposição para o bombardeio de perguntas do radialista



Parte 3 - 2'32"
Celestino, grande conhecedor da obra de Catulo da Paixão Cearense
e um dos seus grandes interpretes, esclarece uma dúvida de Sarmento
e conta suas andanças pelos "Chopes", antigo nome das Boites



Parte 04 - 2'18" e 05 - 2'30"
Nos dois trechos, Orlando Silva fala de sua amizade com
Celestino e de sua primeira gravação em disco. E da tremedeira
ao ouvi-la em 1934. Celestino gravou seu primeiro disco em 1915,
uma gravação mecânica direto na matriz, como ele mesmo conta



Parte 06 - 1'43"
Celestino explica a gravação que vai ser irradiada a seguir:
"Brejeiro", de Ernesto Nazaré. Porém com letra e outras curiosidades



Parte 07 - 3'26"
Celestino interpreta "O Sertanejo Enamorado",
uma gravação brejeira como a música original cantada
"como se cantava naquele tempo". Gravação rara



Parte 08 - 1'53" Vicente Celestino fala sobre
sua carreira lírica, interrompida em 1935 pelas
agruras de quem tenta fazer carreira no teatro lírico no Brasil



Parte 09 - 48"
Sarmento encerra pretendendo repetir o
encontro com Celestino, neste ou no outro mundo!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

tININDO tRINCANDO!

O maior entre os grandes discos nacionais de todos os tempos, a obra-prima Acabou Chorare é fruto de uma experiência coletiva e livre, que tem no samba e no rock suas mais fortes raízes
POR CRISTIANO BASTOS
FOTO: PEPEU GOMES/ARTE: LULA MARTINS
EM 1883, O PATRIARCA DA INDEPENDÊNCIA José Bonifácio de Andrada e Silva declarou que a crucial diferença entre o Brasil e os outros países cabia em uma única palavra: "amálgama".
No entendimento de Bonifácio, o DNA cultural da nação estaria profundamente amalgamado. Os demais povos teriam "diversidade".
A profusão verde-amarela também é perfeita para entender as razões da atemporalidade do álbum Acabou Chorare, gravado há 38 anos pelos Novos Baianos. Em votação feita com especialistas, em 2007 a Rolling Stone elegeu o disco "o maior da música brasileira de todos os tempos".
Este ano, lançamentos videnciarão o "bando" que, no fundo, nunca se desfez, e arrebatarão velhos e novos fãs com gravações, filmes e livros. Todos com força para novamente erigi-los ao panteão da memória musical brasileira - da qual, na verdade, nunca foram deletados.
A mais aguardada novidade é o documentário Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas.
A produção focaliza a interferência "divina" de João Gilberto, "produtor espiritual", parafraseando o novo baiano Moraes Moreira, sobre os rumos da banda. E, por outro ângulo, enquadra o segundo capítulo desse encontro que resultou na obra-prima Acabou Chorare.
Na última edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o documentário amealhou o Prêmio do Júri Popular e, neste ano, ganha os cinemas nacionalmente. Jorge Mautner saúda o poderoso amálgama de Acabou Chorare como "o segredo brasileiro".
Moraes, um dos fundadores, endossa: "Os Novos Baianos só foram possíveis por causa da congregação de pessoas. A união fez a música", abrevia o "vaqueiro do som", apelido dado pelo preceptor João Gilberto. Conterrâneo, o múltiplo Tom Zé foi outro deles.
Antigamente, explica Mautner, quando o Brasil ainda não havia descoberto sua identidade cultural, comentava- se que o país fora amaldiçoado por "três raças tristonhas" - negra, indígena e lusitana. Hipótese que, obviamente, ele refuta.
Mas ufaniza:
"Os brasileiros são a etnia mais otimista e alegre do planeta!". Distante daqui, outros pensadores deram-se conta da "verdade tropical".
No século 19, o poeta norte-americano Walt Whitman professou que o Brasil seria o "vértice da humanidade" - probabilidade que, a história prova, não passou batida pelo olhar de gênios pátrios da estatura de Villa-Lobos, Mário de Andrade e Ary Barroso.
O amálgama também seduziu outros menos bem-sucedidos, mas banhados em criatividade. Caso do grande compositor, e exímio fracassado, Assis Valente. Em 1940, o carioca teve destreza para criar o samba-exaltação "Brasil Pandeiro" (que prefacia Acabou Chorare) e, inversamente, autenticar a "valentia" sugerida por seu sobrenome.
Endividado, Valente suicidou-se ingerindo uma dose de guaraná e formicida. Até na escolha do veneno celebrou amor à pátria. Assis Valente vende o país como ninguém nos versos de "Brasil Pandeiro":
"O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada".

Dá para dizer que cada um dos "lados" do LP Acabou Chorare foi arquitetado em endereços distintos. O A no apartamento em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, onde os Novos Baianos aquartelavam-se; e o B no sítio-comuna alugado em Jacarepaguá, Zona Oeste.
Na plaqueta em formato de bandeira do Brasil afixada na porteira do sítio, onde se deveria ler "Ordem e Progresso" estava escrito "Cantinho do Vovô". De 1971 a 1975, o combo se resguardou das agruras militares no retiro que também foi lar, estúdio e campo de futebol - três das coisas que mais interessavam a todos ali conjugados.
No Cantinho do Vovô, o samba cinco estrelas dos Novos Baianos pulsava suave, contente e distorcidamente roqueiro.
Acabou Chorare deu o pontapé inicial (verdadeiro "gol de placa") no cast da recém-criada gravadora Som Livre, fundada pelo produtor João Araújo, também conhecido como pai do astro Cazuza.
As gravações deram- se no estúdio fluminense Somil, especializado em áudio para cinema. Como "centroavantes", o time que tocou no álbum reunia Moraes Moreira (violão-base), Paulinho Boca de Cantor (vocais e pandeiro) e Baby Consuelo (afoxé, triângulo e maracas).Luiz Galvão era o "médium" que decodificava a loucura coletiva em poesia.
Esses quatro são o núcleo-base da banda reunida em Salvador, em 1969.
A armada baiana também arregimentava outros guerrilheiros. O sólido "wall of sound" dos Novos Baianos era cimentado pelo conjunto A Côr do Som, cuja batuta pertencia ao guitarrista Pepeu Gomes.
Em parceria com Moraes, Pepeu cinzeleva os trançados arranjos das canções, além de cuidar da afinação de todos os instrumentos.
A tripulação completava-se com Jorginho (bongô e cavaquinho), Baixinho (bateria e bumbo), Dadi (baixo) e Bolacha (bongô), recentemente falecido. Ainda juntavam-se a eles o dançarino Gatto Felix e o percussionista Charles Negrita.

Joia do neologismo brasileiro, a expressão "Acabou Chorare" foi cunhada pela então criança, hoje a internacional cantora Bebel Gilberto, filha de João Gilberto e da compositora Miúcha. O novo vocábulo, literalmente, "caiu de maduro".
Encerrada longa temporada entre México e Estados Unidos, o bossa-novista declarara chega de saudade" e regressara ao Brasil. A pequenina Bebel ainda se confundia com a indefinida fluência entre três idiomas: inglês, espanhol e português.
A frase escapou após a arteira menina ter se espatifado no chão batido do Cantinho do Vovô. A infante abriu o berreiro. O zeloso pai levava um som com os pupilos e na hora largou o violão para acudi-la.
Bebel notou a preocupação do pai. Para deixá-lo tranquilo, soltou frase singela que a todos enfeitiçou:
"Não machucou papai, Acabou Chorare."
Os músicos apaixonaram-se de cara tanto pela poética como pela fonética da sentença, quase um slogan "Na minha cabeça, até hoje Acabou Chorare é um disco que foi 'feito pra mim'", segreda Bebel.
A madrinha Baby Consuelo lê o significado da frase vinculado ao cerco político repressor daqueles dias. "Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro. Tínhamos lacrimejado demais. Queríamos o Brasil alegre de volta", metaforiza Baby.

Com raras exceções, em 1972 as condições técnicas dos estúdios brasileiros sofriam de crônica anemia. O registro de Acabou Chorare, porém, fluiu sintonizado no alto-astral do Cantinho do Vovô. João Araújo destacou o músico Eustáquio Sena para produzir a "bolacha", mas ele próprio acompanhou de perto todo o processo.
As sessões foram tramadas em quatro diminutos canais - quase insignificantes, se comparados ao suntuoso padrão atual. Em estúdio, não se permitia errar. Sempre o lema: acertar. Primeiramente, os fonogramas eram gravados em quatro canais, os quais depois eram reduzidos para dois.
Por último, eram inseridas as vocalizações na máster mixada.
"Se um marcava bobeira todos tinham de re petir o take. Só que estávamos pra lá de ensaiados. O repertório 'tinia e trincava'", graceja Paulinho Boca de Cantor, para o qual a artesanal metodologia deu ao disco a sensação de "quentura", como se gravado ao vivo.
Moreira é certeiro: "Parecia que a gente tinha ensaiado a vida toda".
Araújo foi majoritário responsável pela confecção de Acabou Chorare (cuja gravação chegou a ser cogitada em dois canais) em quatro pistas - o que, no fi nal, mudou a história da obra por completo.
O disco foi gravado no estúdio carioca Somil, especializado em áudio para cinema. A nascente Som Livre, na época, ainda não tinha estúdio próprio.
Araújo previu o fatal sucesso dos hoje clássicos "Besta É Tu" e "Preta Pretinha". Animava a todos dizendo: "Será nossa consagração! Venderá mais de 100 mil discos", recorda Boca de Cantor. "Preta Pretinha" foi a primeira a vazar e também a estourar.
Semanas antes de ser lançada, a canção ensejava o frêmito que viria a se tornar.
"Algumas pessoas tinham assistido nossos ensaios abertos e a disseminaram", conta Paulinho. E não deu outra: "Preta Pretinha" foi arroubo instantâneo. Glória maior só logrou "Acabou Chorare".
A faixa-título estacionou no dial das rádios e por lá ficou 30 semanas entre as mais executadas. Em 1972, a nova bossa dos baianos era a mais ouvida de norte a sul.
A Som Livre estreou seu cast (que, entre outros artistas, abrigou Tim Maia e Rita Lee) com a contratação dos Novos Baianos. Tudo começou com um telefonema de Caetano Veloso. O baiano ligou à tarde recomendando seus conterrâneos e, na mesma noite, a turma baixou na residência do produtor:
"Pepeu, Moraes, Paulinho e Baby Consuelo, toda de branco e com a cabeça enfeitada por um retrovisor de Fusca. Parecia uma 'Mãe-de- Santo da Volkswagen'", diverte-se Araújo ao reviver o frutífero encontro.
Contando 7 anos de idade, Cazuza ficou fascinado com a extravagante estampa dos Novos Baianos. "Cazuza ia ao refrigerador e buscava comida pra eles", conta o pai. Baby conclui:
"Ele [Cazuza] deve ter oferecido a geladeira inteira pra gente". Futuramente, Cazuza revelaria que fora essa a primeira vez que pensara em ser artista.
Nessa fatídica noite, a animada (e esfaimada) caravana levantou acampamento na residência do mecenas Araújo. Vararam a madrugada cantando e proseando. Moraes pegou no violão e não soltou mais, o produtor recorda.
Os quatro baianos sacaram a recém-composta "Preta Pretinha" e a apresentaram.
"Desfilaram uma porção de canções e entendi que sobrava originalidade. Muito 'porra-louquismo', sim, mas com carisma e apelo irresistíveis. O repertório era todo comercial, cantável e variado", elogia.
Começava aí a "Invasão Baiana".

Acabou Chorare foi a bomba-relógio com data marcada para eclodir em matizes verde-amarelas naquela alvorada cinzenta de 1972. A trupe inteira envolveu-se efusivamente no entrelaçamento do artefato.
Burburinhos sobre sua inevitável explosão corriam pela cidade. Repórteres eram destacados ao estúdio Somil com a missão de desvendar a causa de tanto falatório em torno daquele "bando de freaks".
Detalhe importante: o vinil foi trabalhando às altas horas da madrugada, o que só amplia o seu esoterismo. A "orquestra" baiana ingressava no estúdio à noite e saía apenas ao raiar do dia.

Os inúmeros e imprevisíveis contratempos, os Novos Baianos sublimavam com os melhores predicados trazidos por cada um deles: criatividade, inventividade, engenhosidade.
O engenheiro de áudio João Kibelkstis (que gravou o LP Força Bruta, de Jorge Ben) recorda que, em 1973, os Novos Baianoinauguraram o gravador Scully oito pistas recém-comprado pela Continental, major onde editaram o disco seguinte, Novos Baianos F.C.
O experimentado engenheiro afirma que oito ou mais canais não faziam diferença. "A expertise com gravações diretas era um grande trunfo que tinham." Moraes Moreira diz que nem queriam saber: "Nosso lance era tocar".
Kibelkstis vem com o irrefutável ensinamento: "Máquinas serão sempre acessórios", prega o homem que cuidou das intocadas vozes de Nelson Gonçalves e de Orlando Silva.
Todavia, a aberrante distorção evitada pelos técnicos de som da velha guarda, justamente, era um dos efeitos perseguidos pelo hábil guitarrista Pepeu Gomes. Para obtê-la, lançava mão de muita "maluquice e pesquisa".
A Gianinni Supersonic de Pepeu fende suas bem-vindas distorções em números mais nervosos de Acabou Chorare, como "Mistério do Planeta" e "Bilhete pra Didi" (do irmão Jorginho Gomes).
Embora careta, o engenheiro e amigo Paulo César Salomão materializava os loucos insights do guitar hero. Pepeu o exortava: "Quando tocar meu som no rádio quero que digam: 'É a guitarra do Pepeu!'"
Diligente, Salomão varava madrugadas estudando eletrônica. Seu mérito deve ser reconhecido: são as pequenas filigranas que qualificam a alta envergadura desta obra. Ainda não havia recursos para comprar peças novas para a guitarra.
Salomão melhorou o som da Supersonic entalhando o instrumento, dentro do qual acoplou capacitores removidos do televisor (não assistido) que a família tinha no sítio. As façanhas obtidas com o "truque do televisor" estão premidas na abelhuda estridência de faixas como "Bilhete pra Didi" e, especialmente, no solo hendrixiano de "Mistério do Planeta".
O popular alarido de Acabou Chorare catapultou os Novos Baianos às massas. Aos borbotões, convites de emissoras de TV desaguavam no Recanto do Vovô. Desde os populares Fantástico e Chacrinha, estrelaram os programas mais apurados, como o Ensaio, na TV Tupi.
Os brasileiros ansiavam "ver" as súbitas vozes cuja musicalidade irradiava para a intimidade de seus lares. O interesse também foi internacional. Em 1973, no auge da fama o diretor Solano Ribeiro filmou o televisivo Novos Baianos F.C. Realizado sob encomenda da TV alemã, o especial foi premiado no Festival Europeu de Televisão, na Áustria.
Fora a elementar síntese de rock, samba e brasilidades afins (inconcebível há 38 anos) alinhavada em Acabou Chorare, outra saliente presença é a do samba de roda alforjada por Moraes Moreira de sua Ituaçu, no interior baiano.
"Eu trazia a influência do rádio, das serenatas, das bandas marciais e do alto-falante", ele pontua.
Para Tom Zé (mestre que, em Salvador, transmitiu a Moraes suas primeiras lições de violão), o regional atuante por trás de todo Acabou Chorare nada mais é do que "samba de roda elevado à categoria de erudito".
Antes de prosseguir na afortunada trip que foi a concepção de Acabou Chorare convém brevemente, deter-se na enxuta discografia da banda até então. Em 1969, colheram alguns louros com o LP É Ferro na Boneca!, cuja música-título tocou bastante nas rádios.
Também editaram os compactos simples Colégio de Aplicação (1969) e Volta Que o Mundo Dá (1970). No mesmo ano, ainda lançaram o duplo contendo as faixas "Psiu/29 Beijos" e "Globo da Morte/Mini Planeta Íris", embrionária da mística "Mistério do Planeta".
Em 1972, a capa de Acabou Chorare recebeu prêmio de melhor produção gráfica do ano. A arte leva assinatura de Antônio Luis Martins, mais reconhecido como "Lula", protagonista do cult-movie Meteorango Kid - Herói Intergaláctico (1970), de André Luiz de Oliveira.
A produção de Meteorango emaranha-se aos primórdios soteropolitanos do grupo. Na RGE, o artista fizera a capa do compacto Os Novos Bahianos. Para Acabou Chorare, desenvolveu uma técnica de desenhos à base de canetas hidrocor e esferográficas.
Lula afirmava pintar "a cor do som".
Questões financeiras, porém, reduziram o número de fotos coloridas, o que veio a alterar o projeto originalmente concebido. "Mais tarde observando vi que os retratos em preto e branco acentuavam o grafismo da arte."
Outra feita por Martins é a surrealística capa do álbum Caia na Estrada e Perigas Ver, de 1976. ]
As letras de Acabou Chorare são caso - ou capítulo - particular. A começar pelo resgate, sugerido por João Gilberto, de "Brasil Pandeiro". O grande sucesso "Preta Pretinha" surge duas vezes no LP. A primeira versão tem seis minutos de duração, e a segunda, editada pela Som Livre, pouco mais de três minutos.
"Por fim, a mais tocada foi a mais extensa", observa Moraes Moreira. Nos shows, entrava emendada num pot-pourri que tinha "29 Beijos" e "Oba-Lá-Lá" - pinçada de Chega de Saudade, disco de 1959 do paterno João Gilberto.
"Tinindo Trincando" e "A Menina Dança" possuem valor pessoal para sua intérprete, a niteroiense Bernadete Dinorah de Carvalho - eterna Baby Consuelo. Luiz Galvão, o "interlocutor", as escreveu sob medida para ela. Com seu "nariz arrebitado", Baby refresca-nos a memória:
"A letra diz que 'estava tudo virado' e que cheguei 'após esgotar o tempo regulamentar'. Significava que no tempo em que cantoras fabulosas, como Elis Regina e Gal Costa, bombavam eu trazia meu estilo particular", desvenda.
Esbanjando brejeira brasilidade, aflorada de seu ousado jeito de ser - aliada ao rock e ao blues (do qual evocava o canto spiritual de Janis Joplin) -, Baby Consuelo é uma das fêmeas que fincaram as bases do "rock brasileiro". A outra é Rita Lee.
No caso dos Novos Baianos, Baby também "deu a luz" (maternidade é outra especialidade sua) ao "rockarnaval" - oficial insígnia da banda.
Nos bastidores, borbulham causos sobre a criação do repertório letrístico, muitas vezes cifrado, de Acabou Chorare. "Swing de Campo Grande", assinada por Boca de Cantor, é uma delas Ele conta que, na temporada chumbo-grosso da ditadura, os militares imaginavam que eles fossem "terroristas fantasiados de hippies".
"Praticamente começaram a nos caçar", ele diz. Em seu bojo, a letra, que carrega forte carga mística, tem a ver com o contexto militar. Naqueles dias, Boca de Cantor conheceu um rezador que lhe aconselhara "tranquilidade" nas horas difíceis.
"Ele dizia: 'Vocês [Os Novos Baianos]são gente legal. O mal não colocará seus olhos em vós'. Nossos perseguidores não nos veriam". Foi então que o místico ensinou a simpatia que foi parar na letra da canção:
"Quando receberem mal-olhado virem 'toco', virem 'moita'".
O macete, conforme Paulinho, funcionava tão bem que eles ficaram cinco anos sem pagar o IPVA do automóvel. "Passávamos pelos postos da Polícia Rodoviária e olhávamos para nossas próprias línguas.
Ele nos ensinara que se olhássemos para nós mesmos ninguém nos veria." A música é sobre invisibilidade, portanto.
Por mais inverossímel que seja crer, as substâncias não foram uma obsessão essencial nesta mágica história. Mas também foram importantes, sobretudo, poética e ludicamente. Moraes conta que banda e agregados disputavam acirradas partidas de futebol (dentro do apartamento) loucos de ácido.
Pepeu revela, no entanto, que outras muitas situações psicodélicas foram vivenciadas "de cara".
"A gente tocava no galinheiro, debaixo da árvore. Achávamos que a árvore falava conosco. Nada a ver com drogas. Era feeling. Batíamos na árvore para testar o som. Víamos a natureza em forma de letras e de notas musicais", o guitarrista tenta explicar.
Na opinião de Moraes, o mantra "Besta É Tu" é a toada com maior carga lisérgica de Acabou Chorare.
"O 'besta é tu' é um ritmo baiano do interior repetido à exaustão". Pegamos emprestado do cancioneiro popular. A gente tomava LSD e desatava a tocar o 'besta é tu' interminavelmente", conta Moraes. Galvão, atualmente, afirma estar "pianinho".
Abandou as diversões perigosas: "Hoje em dia, só bebo suco de uva". A ministra evangélica Baby (do Brasil) quer mais é distância de tentações. A heavy "Barra-Lúcifer", do álbum Caia na Estrada e Perigas Ver, ela jura nunca mais cantar em sua vida.
Confesso apreciador de Filhos de João - O Admirável Mundo Novo Baiano, Galvão censura a "fábula" representada no filme, segundo a qual João Gilberto teria "batido à porta" do apartamento dos Novos Baianos, em Botafogo.
Ele contesta a verossimilhança do fato narrado pelo baixista Dadi.
Originalmente, a infeliz versão não partiu do baixista: foi disseminada em 2000 no livro Noites Tropicais, de Nelson Motta. Conterrâneos de Juazeiro, João e Galvão (sem o qual a banda jamais teria arranjado o encontro) são velhos e íntimos amigos.
Galvão chama a versão contada por Motta de fantasiosa:
"Uma noite eles [Novos Baianos] receberam uma visita surpreendente, mas esperadíssima. Antes levaram um susto: o baixista Dadi, de 19 anos, foi abrir a porta e, quando viu aquele senhor de paletó e óculos, muito sério, virou para dentro e avisou: 'Ih, pessoal, sujou! Acho que é cana'. Mas não era: João Gilberto foi recebido como um Messias no apartamento-comunidade de Botafogo".
"Me decepcionei com Nelson Motta", desabafa Galvão. Dadi não lembrou que, no fatídico dia suposto por Motta, quem batera à porta fora Roberto, filho de Dona Helena, dde quem a banda fora inquilina em 1971.
Galvão conta que Roberto era careta antes de conhecê-los. Convivendo com eles, entrementes, convertera-se ao "maconheirismo". "Roberto entrou e logo tacou fogo num baseado. Nem viu que João encontrava-se no recinto. João olhou para Roberto e falou mansamente:
'Quer um chiclete, Roberto?'
Ele devolveu surpreso: 'Hoje ganhei o meu 'chiclete'. Conheci João Gilberto'", o poeta remonta.
Galvão assevera: João Gilberto jamais apertou a campainha de ninguém e nunca comunicava suas idas ao apartamento. O contato, segundo Pepeu, dava-se telepaticamente. João ficava plantado debaixo do prédio e os baianos tinham de se revezar para não deixá-lo partir.
"Quando alguém o avistava era soado o alerta geral: 'O João está lá embaixo!' Descíamos para capturá-lo."
Baby Consuelo usa de feminilidade para descrever o primeiro encontro. Os vizinhos nem sonhavam com a presença celeste do músico no edifício. Para não perturbá- los com o som que entraria noite adentro, Baby teve a ideia de desmontar um profundo armário embutido que havia em seu quarto e de Pepeu (à época casados).
No interior do cômodo, estendeu floreados edredons.
"Montei no apartamento uma enorme tenda que virou nosso 'palco'", ela detalha. Esparramados em volta do Criador, o apostolado baiano ouviu João Gilberto rezar sua missa. A liturgia iniciou com "Brasil Pandeiro", que, de cara, fez crepitar a brasilidade no coração dos "escolhidos".
Foi a primeira das muitas parábolas que desembainhou para acertá-los.
"O conselho de João era apenas um: que nos voltássemos para dentro de nós mesmos para despertar o adormecido gene brasileiro. João mostrou-nos um Brasil bonito e iluminado. Brasil de Herivelto Martins, Noel Rosa e Jackson do Pandeiro."
Após o sobrenatural, assumiram de vez o samba, a bossa nova e o carnaval.
"Passamos a tocar samba como se fosse rock."
De 1969 a 1979, profundos valores de amizade e de respeito mútuo amalgamaram-se numa entidade musical única chamada Novos Baianos, a qual vive até hoje.
A verdadeira alegria de estarem tocando irmanados impressionou o bandeonista argentino Astor Piazzolla, que os conheceu dos tempos dos Festivais Internacionais da Canção da Rede Globo. O argentino dissera jamais ter visto tantos músicos juntos tocando tão contentes.
A felicidade da qual falava Piazzolla é a mesma eternizada nos impecáveis 36 minutos da obra máxima dos Novos Baianos: Acabou Chorare.
É justo saldar débito histórico com o concretismo, vanguarda poética chefiada, no Brasil, pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Augusto de Campos redigiu o texto de apresentação de Acabou Chorare (e também do álbum É Ferro na Boneca!) - no qual entreviu:
"O dom eles tinham. Agora o som mais perto, mais esperto, mais certo. Descobriram o silêncio".
Anos antes, o russo Vladimir Maiakovski, pai do concretismo, evocara milenar presságio sobre um paraíso oculto nos trópicos: "Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz".
Ainda hoje, Augusto de Campos ecoa a sentença grafada há 38 anos sobre os Novos Baianos: "As cartas ainda estão na mesa".

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