terça-feira, 23 de setembro de 2008

tHE dICTATORS - gO gIRL cRAZY! (1975)

Selo / Epic
Produção / Murray Krugman - Sandy Pearlman
Projeto gráfico / David Gahr
Nacionalidade / EUA
Duração / 34:48

Em 1975, dois rapazes norte-americanos, Legs McNeil e John Holmstrom, gastaram a maior parte do seu verão ouvindo o álbum Go Girl Crazy!, dos Dictators.

Embebedavam-se todas as noites e acabavam aos gritos cantando cada uma das canções do disco. Não muito tempo depois, estes dois rapazes foram os fundadores da revista Punk, uma das bíblias desse movimento anárquico que eclodiu nos últimos anos da década de setenta.

Tal como os New York Dolls, os Dictators eram precedentes do punk. Anos antes de se ouvir falar dos Ramones, Dead Boys e dos Sex Pistols, Dick Manitoba, a "arma secreta" dos The Dictators, já cantava sobre vomitar comida no McDonalds, beber cerveja e assistir a filmes duvidosos de série B.

Go Girl Crazy! foi um dos primeiros discos punk, muito antes de se ouvir falar dessa definição. Mas oferecia muito mais: sons de garage surf e heavy metal – o guitarrista Ross "The Boss" Funichello fundou muito mais tarde o Manowar. Os The Dictators conseguiram inúmeros admiradores, em parte graças ao sentido de humor da banda.

O disco incluía todos os ingredientes para ser um êxito, mas os acontecimentos tomaram um rumo infeliz. Pouco tempo depois do lançamento do álbum a Epic despediu-os: má gerência, turnês mal planejadas e brigas entre os membros da banda não ajudaram.

O álbum não atraiu grande interesse até 1977, momento em que bandas como os Ramones tinham já polido a sua própria marca punk. Os Dictators foram marginalizados. No entanto, Go Girl Crazy! chegou primeiro.

* De 1001 Discos para ouvir antes de morrer (Sextante), de Robert Dimery.

Com licença, mas Next Big Thing merece ir direto para outra lista: a dos discos mais divertidos. Poucos álbuns são tão juvenis como esse. Na boa, Handsome Dick Manitoba é 'o cara'. Letra assim não é para qualquer um:

I drink Coca cola for breakfast
I've got Jackie Onassis in my pants
I'm never gonna watch channel 13
Education ain't for me
I'm so drunk
I can barely see
(
"Two tube man")

tHE lAST bIG tHING

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wALL oF sOUND

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

uLTRA-wIDE-sTEREO-bIZARRE-pOWER-pOP-sOUND!

Falando em glam rock, de todas as matizes do estilo – da cool à 'flamboyant' –, a mais estranha (para não dizer bizarra), certamente foi a que revelou o octeto londrino Wizzard.
Não dá para sair íntegro depois de uma audição inteira do supermegalomaníaco Brew (Harvest), de 1973. Alguém definiu o som desse disco como "ultra wide stereo bizarre power pop sound". Eu achei préza.
Já outro comentou que ouví-lo poderá exigir ingestão de sais de frutas: "Quando ouvi o disco, em 1973, foi assim", relembra um aventureiro num blog - 35 anos depois da experiência.
Brew é a estréia da banda inglesa Wizzard, comandada por Roy Wood, ex-Electric Light Orchestra, a ELO. A mixagem suja e complexa do disco é a receita que repugna estômagos menos resistentes.
É muito diferente, por exemplo, do fino trato dado por Tony Visconti às produções de Marc Bolan e David Bowie. Ou do toque hiperpop da dupla de produtores Chin & Chapman, manufaturadores de mega hits glam como "Tigger Feet" (Mud) e "Can the Can" (Suzy4).
O formato de Brew é glitter, mas o louco álbum vai bem além na viagem: emula antigos compactos de 78 rpm, música clássica (com citações de peças de Tchaikovsky, Bach, Schubert), rock anos 50, marching bands. Fora uma porção de coisas que só ouvindo... É um ótimo disco para se retirar samplers malucos.
De pontual mesmo só as citações de Elvis Presley, Edie Cochran e Phill Spector. Outras obssessões no som da Wizzard: juke boxes, o som alucinado das Dixielands, cacofonias. Mas nada é feito de improviso. O disco, milimetricamente controlado no estúdio, foi ensaiado à exaustão.
Os arranjos de cordas e de metais são obra de Wood, também vocalista e produtor de Brew. Alan Parsons cuida da engenharia de som. "See my Baby Jive", a mais rodada do Wizzard, não está no álbum. Assista o videotape no post de cima.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

lEÃO: "a gUINADA sONORA eCOA pELO eSPAÇO"*

Nas décadas de 60 e 70, o paraibano Hugo Leão, o Huguinho, fez fama como guitarrista e vocalista do grupo The Gentleman - grande sucesso na Paraíba.
Zé Ramalho se iniciou na linguagem do rock com os Gentelmen e Os 4 Loucos, outra das bandas de Leão. Ainda hoje, os Gentlemen tem um extenso fã-clube Brasil afora.
Huguinho teve "participação relâmpago" em Paêbirú; relâmpago, mas literalmente incendiária. Ramalho o chamou para participar como tecladista do ousado projeto. Sua atuação ficou imortalizada no álbum com os riffs selvagens do órgão Farfisa de "Nas paredes da pedra encantada".
Para assumir a bateria, Ramalho recrutou Carmelo Guedes, outro parceiro seu nos Gentlemen. A mágica, rememora Huguinho, começou logo que entraram no estúdio. As bases foram criadas na hora, como num susto.
"Cravei um tom maior: MI! O sonho começara. Os segredos da Pedra do Ingá, finalmente, pareciam que seriam desvendados. A guinada sonora ainda ecoa pelo espaço", acredita o músico.
O primeiro álbum de Hugo Leão, Coração de Brasil, foi produzido por Zé Ramalho. No LP A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, de Ramalho, tocou teclado. Huguinho também arranjou os primeiros discos da cantora Cátia de França e, hoje, leva uma carreira solo.
Quais suas lembranças de ter participado das gravações de Paêbirú?
Hugo Leão - Na época eu era o contrabaixista da banda de baile The Gentlemen. Zé Ramalho era o guitarra-solo. Fazíamos muito sucesso na Paraíba e Recife, especialmente no famoso Encontro de Brotos do Clube Internacional. Zé me chamou para participar do 'ousado projeto'. Convidou também o baterista Carmelo Guedes. Tocamos na furiosa "Nas Paredes da Pedra Encantada".
As batidas de fogo de Carmelo abriram caminho para a viagem: depois, precisei ouvir todos os sete minutos, inúmeras vezes, para escrever as cifras da música. Uma vez que Zé ainda ia colocar o contrabaixo e sua voz, era preciso encaixar tudo nos devidos tempos.
Foi maravilhoso e eterno. De nós explodia criatividade e talento. Uma porrada de som que ainda anda pelos espaços. Paêbirú é antológico e universal.
Como chegaram aos riffs de "Nas Paredes..."?
Hugo Leão - Quando ferrei o acorde "MI" senti que tudo ia acontecer. Usei uma quarta de Mi para chamar a melodia que, num repente, soou em forma de 'chama rebelde', difícil de apagar naquele momento. Dei asas ao sonho e fui: os acordes harmônicos de base ferrada foram surgindo levados pela inspiração.
Estava tudo muito perfeito. Então usei os seguintes tons de passagem: E/ G#-/ D/ A/ C/ A#/ G/ F/ C/ E. Quando Zé Ramalho pegou aquele som picotado, de uma viola de doze nas oitavas e transportou para o contrabaixo, pronto - aí os cometas se alinharam. O baixo tocado por Zé mostra que ali foi criado o rock/repente. Foi formidável - é formidável.
E a aventura de fazer rock na Paraíba, se no resto do Brasil já era complicado?
Hugo Leão - Nos tínhamos a melhor banda de baile do momento. Durante cinco anos, fomos eleitos pela crítica como a melhor banda do Norte e Nordeste. Tocávamos de tudo. Somos do tempo dos Beatles. Depois chegou aos nossos ouvidos a Jovem Guarda com Roberto, Erasmo e grupos como Renato e Seus Blue Cap's, com as famosas versões de Rossini Pinto.
The Fever's, Os Incríveis, Rolling Stones, The Who quebrando todos os instrumentos. Também quebramos num baile no Esporte Clube do Recife. Foi lindo, mais ficou muito caro (risos)!
Levamos uma forte pancada na cabeça quando assistimos ao filme Woodstock. Era um sonho: exatamente o que queríamos fazer - criar. Em um bar na Paraíba chamado O Boiadeiro, apresentamos um show escrito por Zé Ramalho. Eu era o baixista, Carmelo Guedes o baterista e, Zé Ramalho guitarra e viola. A mesma 'equipe' de "Nas Paredes da Pedra Encantada".
O nome do espetáculo era Esse Rock Me Inspira e me Aquece Nesse Inverno Frio e Caudaloso. Bar Lotado. Outra música que ainda soa pelos ares é o rock "Made In PB", composição de Zé Ramalho que está em No Sub reino dos Metazoários, do Marconi Notaro.
*Na foto, da esquerda para a direita: Ramalho, Joca, Walmir, Carmelo, Enilton, Celso e Huguinho (Hugo Leão)

domingo, 14 de setembro de 2008

lULA cÔRTES: "sOU uM fACTÓTUM"

Qual a importância de Paêbirú para a música brasileira?

Lula Côrtes - Na época em que foi feito, nenhuma. Mesmo após o lançamento, a recepção foi fria. As pessoas não estavam preparadas pro espírito do disco. Paêbirú é um disco de "hoje", na verdade.

Como foram criados os efeitos do disco ?

Lula Côrtes - Se costuma pensar que a maioria dos efeitos são eletrônicos, mas, na realidade, são panelas com água, pios de caça, vozes humanas, chocalhos de cabra. A introdução que antecede o saxofone de "Segredo de Sumé" é uma corneta de vender picolé. Louco, né?!

O que descobriram de mais legal fazendo Paêbirú?

Lula Côrtes - A amizade e, depois, harmonia pra continuarmos trabalhando em vários álbuns. Cada qual, após Paêbirú, seguiu seu caminho: Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Lailson, Zé da Flauta, Jarbas Maris.

Que bandas vocês ouviam?

Lula Côrtes - It's a Beatifull Day, Crosby, Stills and Nash, Tyranossaurus Rex, Neil Young, Captain Beefheart, Grand Funk Railroad, e mais uma penca de coisas…

Alguma obra foi modelo para as "loucuras" do grupo?

Lula Côrtes - Os discos que mais influenciaram foram os temáticos: Viagem ao Centro da Terra, Ozzy Bizza, Frank Zappa & Mothers of Invention. Dos brasileiros, basicamente Mutantes. Foi Duprat quem abriu nossas cabeças.

Qual é a energia da Pedra do Ingá?

Lula Côrtes - A energia do mistério, do lendário que ficou no inconsciente coletivo e gerou muitas lendas mal-assombradas... Ainda hoje procuro outras formas de energia no local.

O que há de mais revelador em toda essa história?

Lula Côrtes - Às vezes, estamos num lugar tão raro, em beleza e mística, que nem nos damos conta. No som, a fusão do folclore com a abordagem livre, vanguardista e psicodélica que tivemos.

Depois de Paêbirú, enveredou por qual trilha musical?

Lula Côrtes - O caminho do RPB: Rock Popular Brasileiro. Já trabalho com a banda Má Companhia, de Recife, há 17 anos.

E hoje?

Lula Côrtes - Hoje sou um eterno futucador de coisas, um factótum.

mETAL mACHINE mUSIC

a cARNICEIRA dOS pÂNTANOS fRIOS

sábado, 13 de setembro de 2008

oS aNOS lISÉRGICOS dA mÚSICA pERNAMBUCANA

Cena setentista ganha documentário acurado da época

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

Com dois meses de entrevistas, o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, da produtora Flesh Nouveau! Filmes, do jornalista Cristiano Bastos e do historiador Leonardo Bonfim, conta histórias de uma das cenas mais mitológicas e menos conhecidas da música pop brasileira: a psicodelia pernambucana e (por extensão) paraibana dos anos 70.

Que, no decorrer do documentário – ainda em fase de finalização – aparece sustentado por dois fortes pilares. O principal é o álbum duplo Paêbiru: Caminho da Montanha do Sol, de Côrtes e Zé Ramalho, lançado em 1975 pela gravadora recifense Rozemblit.

No pano de fundo, surge o sítio arqueológico que inspirou o álbum: a Pedra do Ingá (a tal "pedra encantada"), no município paraibano de Ingá do Bacamarte, com estranhos desenhos feitos em baixo-relevo que teriam sido feitos por um certo "cacique de pele colorida", Sumé, que veio do espaço para orientar os indígenas, antes da chegada dos colonizadores. Nas paredes da pedra encantada, os segredos talhados por Sumé, canção de Côrtes e Ramalho, veio dessa lenda, assim como toda a produção da dupla.

– Inicialmente, quisemos só falar a respeito do disco. Mas, quando conhecemos o lugar, achamos tudo fantástico e quisemos fazer um road movie, relatando a viagem – diz Bonfim, que saiu de Porto Alegre, onde mora, para encontrar Bastos, que vive em Brasília, e pôs-se a rodar com ele Pernambuco e Paraíba numa Kombi. – Fomos ao agreste, conversamos com pessoas que conhecíamos na hora e que contavam as lendas sobre a pedra. Há quem diga até que há uma chave que abre a pedra e que tem um tesouro dentro dela. O Côrtes viajou com a gente e foi mostrando os lugares. Parou até nos campos em que eles e os amigos catavam cogumelos para fazer chá.

Do cenário musical da época, saiu pelo menos um artista de renome – justamente Zé Ramalho, cuja fase lisérgica foi recentemente dissecada no CD Zé Ramalho da Paraíba, produzido entre 1973 e 1977 e lançado apenas agora. Côrtes, ao lado de nomes como Lailson de Holanda (com quem fez o ultrapsicodélico e independente Satwa, álbum de 1973), Marconi Notaro (responsável pelo não menos lisérgico álbum No sub-reino dos metazoários, do mesmo ano), o grupo Ave Sangria, do qual saiu Paulo Rafael, guitarrista de Alceu Valença, e a cineasta Kátia Mesel (então mulher de Côrtes) pertencem à relação de nomes que construíram a cena e, mesmo não alcançando sucesso popular, são cultuadíssimos.

– Côrtes é artista 24 horas por dia. Se houvesse mais pessoas como ele, o mundo seria mais poético e musical – diz um entusiasmado Alceu Valença, que, mesmo tendo se mudado para o Rio em 1970, participou de Paêbiru, tocando instrumentos de percussão improvisados, como pentes em papel celofane. – O Lula tocava um instrumento que comprou em Marrocos, o tricórdio, e tinha uma voz bem blues. E era, como ainda é, um grande poeta.

Paêbiru, o mais cultuado desses discos, teve quase todas as suas cópias perdidas numa enchente do Rio Capibaribe, em 1975 – sobraram apenas 300 exemplares, que hoje não trocam de mão por menos de R$ 4 mil. Para Bastos, Nas paredes da pedra encantada faz justiça a uma cena que nunca teve atenção que mereceu. Ele crê que o mangue beat ignorou a geração dos anos 70.

– Levando em conta que, nos anos 80, não aconteceu muita coisa lá, é uma falta de sensibilidade histórica. Alguns dos primeiros discos independentes do Brasil saíram dali – diz o jornalista, revelando que a cena guardava, até devido ao contexto hippie, algumas semelhanças com a vida comunitária de grupos mais conhecidos, como os Mutantes e os Novos Baianos.

Com parte do material pronto, a dupla pretende editar tudo em Porto Alegre e lançar Nas paredes da pedra encantada em 2009.

– Investimos tudo do nosso próprio bolso. Agora preciso recuperar minha poupança e meu carro – brinca Bastos, que só lamenta o fato de Zé Ramalho, outro grande personagem da cena, ter se recusado, educadamente, a falar para o documentário – Apesar de ele fazer parte do contexto, para Ramalho isso tudo é assunto encerrado. Ele fez Paêbiru, mas renega o disco.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

zÉ dA fLAUTA

Zé da Flauta é um dos "personagens" de Paêbirú. Em 1974, participou da gravação do LP gravado em quatro canais, na Rozemblit, pela dupla Zé Ramalho Lula Côrtes.

O disco ainda teve grandes participações de músicos como Geraldo Azevedo, Ivinho, Paulo Rafael e Dikê. É de Zé o sax de "Nas Paredes da Pedra Encantada", na realidade, sua primeira gravação profissional.

Iniciou sua carreira artística em 1970, na cidade de Recife, tocando com músicos como Don Tronxo (guitarrista da trovejante "Raga dos Raios"), Agrício Noia, Robertinho do Recife, Marconi Notaro, Flaviola. Ele nos conta um poucas de suas histórias daquele tempo - e de agora.

Depois, veja o Zé no videoclip de "Vou Danado pra Catende". O Zé é o "cara da bata".

Zé, tudo bom?!

Zé da Flauta - Tudo ótimo, como sempre!

Como era o ambiente das gravações e composição de Paêbirú, dá pra lembrar?

Zé da Flauta - Eu estava com 18 anos quando decidi ser músico profissional. Foi quando também conheci Lula Côrtes e Kátia Mesel, por intermédio de uma prima que era amiga deles. Logo em seguida, conheci Lailson no Conservatório Pernambucano de Música, onde me iniciei nos estudos. Vivíamos na repressão militar, religiosa e familiar e, a casa de Beberibe, onde Lula e Kátia moravam, era o verdadeiro templo da liberdade e da contra-cultura.

Um lugar onde aprendi muito sobre arte e liberdade de expressão. Lá se conversava e se fazia de tudo, inclusive se fumava muita maconha. Se falava muito sobre arte. Foi nesse ambiente que vi nascer Paêbirú e outros discos dos quais participei.

Ninguém sabia o mínimo de teoria musical: tocavamos por pura intuição e rebeldia. Eu mesmo estudava flauta e resolvi comprar um sax que fora de Felinho, um grande saxofonista da década de 50 em Recife. Felinho foi o criador da improvisação no frevo.

Me senti honrado por comprar tal instrumento. Mas, como não conhecia direito o saxofone, paguei por um objeto defeituoso que, na realidade, não servia nem como luneta. Era difícil tirar som naquele instrumento.

Eu não tinha uma boquilha boa e não encontrava a palheta certa. O que me lembro claramente é que cheguei na casa de Lula com ele debaixo do braço e, duas horas depois, estava no estúdio da Rozemblit gravando com ele e Zé Ramalho.

Nunca vou me esquecer disso, pois aquela foi a primeira vez que eu entrei num estúdio para gravar como músico.

Você toca com frequência na Europa. Já vieram lhe comentar sobre Paêbirú?

Zé da Flauta - Sim! Uma vez em Berlim, 2006. O pessoal de uma rádio, com uma intérprete brasileira. Perguntaram sobre Paêbirú e também sobre o grupo de heavy metal Hanagorick, daqui do interior de Pernambuco.

Esses caras fazem o maior sucesso por lá, são famosos. São de Surubim, a terra do Chacrinha.

Dá pra definir "udigrudi"?

Zé da Flauta - É apenas uma terminologia. Naquele caso, nos anos 70, não caracterizou um movimento musical. Era apenas um momento de excitação, perturbação, inquietação artística. Não foi uma idéia com manifesto, objetivo e consistência, como foi o mangue na década de 90.

Alguma história para nos contar de 33 anos atrás?

Zé da Flauta - Cara, são várias! O problema com a censura era grande, com a Polícia Federal, também. Para se fazer um show, tínhamos que fazer prévia para a polícia... Só então eles decidiam se tua banda podia ou não fazer o show, peça de teatro ou o que fosse.

Para se colocar um cartaz na rua, ou mesmo in dor, por exemplo, tinha que ter o carimbo da censura política e estética e, às vezes, isso só podia ser feito no dia do show.

O tricódio de Lula, que ele trouxe do Marrocos, virou um símbolo visual, sexual, sonoro da época. Todos os discos gravados por essa turma, inclusive o meu com Paulo Rafael, tiveram a participação de Côrtes.

Veja como ele dá um brilho especial em "Vou Danado Pra Catende", do Alceu Valença. Neste momento, estou escrevendo um livro de memórias que pretendo lançar no final de 2010.

E hoje?

Zé da Flauta - Ando tocando no meu estúdio, compondo trilhas para TV, filmes, peças de teatro, produzindo discos e artistas. Atualmente estou trabalhando com a SpokFrevo Orquestra, um grupo que ajudei a criar com o objetivo de mostrar o frevo apenas como linguagem musical, sem o folclore. Já tocamos na China, por toda Europa. Vamos para a Índia em outubro. Nós somos uma Big Band de frevo. Eu não toco na orquestra, apenas produzo. Nos assista.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

nAS pAREDES dA pEDRA eNCANTADA

pAÊBIRÚ, o dISCO mAIS cARO dO bRASIL


Redação Yahoo! Notícias

Na edição deste mês, a revista Rolling Stone tenta desvendar um dos mitos da história fonográfica brasileira, o álbum "Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol", gravado por Lula Côrtes e Zé Ramalho.
O vinil original de "Paêbirú" é o álbum mais caro da música brasileira, atualmente avaliado em mais de R$ 4 mil. O LP desbanca, inclusive, o disco "Louco por Você", de Roberto Carlos, avaliado na metade do preço.
"Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol" foi produzido em 1974 nos estúdios Rozemblit. Em 1975, uma enchente danificou mil cópias das 1 300 produzidas. A calamidade levou junto a fita máster do disco, fazendo com que ele se tornasse uma verdadeiro achado arqueológico 33 anos depois de seu lançamento.
A reportagem da Rolling Stone foi até o local que serviu de inspiração para o disco de Lula Côrtes e Zé Ramalho, guiado pelo artista plástico Raul Córdula, o guia da expedição dos músicos na época.
Foi na Pedra do Ingá, no município de Ingá do Bacamarte, localidade conhecida antigamente como Vila do Imperador, que Ramalho e Côrtes decidiram produzir o álbum conceitual. "As gravações na Pedra foram feitas com raio laser, simulamos com onomatopéias, 'aves do céu', 'pássaros em vôo' e adicionamos o berimbau, além do tricórdio", conta Côrtes.
A revista Rolling Stone já está nas bancas e traz a cantora Amy Winehouse na capa.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

aGRESTE pSICODÉLICO*

POR CRISTIANO BASTOS

A trilha em busca das origens de Paêbirú, o disco maldito de Lula Côrtes e Zé Ramalho, hoje o vinil mais caro do Brasil

No dia 29 de dezembro de 1598, os soldados liderados pelo capitão-mor da Paraíba, Feliciano Coelho de Carvalho, encalçavam índios potiguares quando, em meio à caatinga, nas fraldas da Serra da Copaoba (Planalto de Borborema), um imponente registro de ancestralidade pré-histórica se impôs à tropa. Às margens do leito seco do rio Araçoajipe, um enorme monólito revelava, aos estupefatos recrutas, estranhos desenhos esculpidos na rocha cristalina.

O painel rupestre se encontrava nas paredes internas de uma furna (formada pela sobreposição de três rochas), e exibia, em baixo-relevo, caracteres deixados por uma cultura há muito extinta. Os sinais agrupavam-se às representações de espirais, cruzes e círculos talhados, também, na plataforma inferior do abrigo rochoso.

Inquietado com a descoberta, Feliciano ordenou minuciosa medição, mandando copiar todos os caracteres. A ocorrência está descrita em Diálogos das Grandezas do Brasil, obra editada em 1618. O autor, Ambrósio Fernandes Brandão (para quem Feliciano Coelho confiou seu relato), interpretou os símbolos como “figurativos de coisas vindouras”. Não se enganara. O padre francês Teodoro de Lucé descobriu, em 1678, no território paraibano, um segundo monólito, ao se dirigir em missão jesuítica para o arraial de Carnoió. Seus relatos foram registrados em Relação de uma Missão do rio São Francisco, escrito pelo frei Martinho de Nantes, em 1706.

Em 1974, quase 400 anos depois da descoberta do capitão-mor da Paraíba, os tais “símbolos de coisas vindouras” regressariam. Dessa vez, no formato e silhueta arredondada de um disco de vinil. A mais ambiciosa e fantástica incursão psicodélica da música brasileira – o LP Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol, gravado de outubro a dezembro daquele ano por Lula Côrtes e Zé Ramalho, nos estúdios da gravadora recifense Rozemblit.

Contar a história do álbum, longe da amálgama das pessoas, vertentes sonoras e, especialmente, da chamada Pedra do Ingá que o inspirou, é impossível. Irônico é que o LP original de Paêbirú também tenha se convertido em “achado arqueológico”, assim como a pedra, 33 anos depois de seu lançamento. As histórias sobre a produção do disco, como naufragou na enchente que submergiu Recife, em 1975 e, por fim, se salvara, são fascinantes.

A prensagem de Paêbirú foi única: 1.300 cópias. Mil delas, literalmente, foram por água abaixo. A calamidade levou junto a fita master do disco para que a tragédia ficasse quase completa. Milagrosamente a salvos ficaram somente 300 exemplares. Bem conservado, o vinil original de Paêbirú (o selo inglês Mr Bongo o relançou em vinil este ano) está atualmente avaliado em mais de R$ 4 mil. É o álbum mais caro da música brasileira. Desbanca, em parâmetros monetários (e sonoros: é discutível), o “inatingível” Roberto Carlos. O Rei amarga segundo lugar com Louco por Você, primeiro de sua carreira, avaliado na metade do preço do “excêntrico” Paêbirú.

A expedição no rastro dos mistérios e fábulas de Paêbirú se inicia em Olinda (Pernambuco). O artista plástico paraibano Raul Córdula me recebe em seu ateliêr. Na parede do sobrado histórico, uma cobra pictográfica serpenteia no quadro pintado por ele. A insígnia foi decalcada da mesma inscrição que, há milênios, permanece entalhada na Pedra do Ingá.

No mesmo ano de Louco por Você, 1961, o professor de geografia Leon Clerot apresentou o monumento a Córdula. O professor fizera o convite: “Me acompanhe, e verás algo que jamais se esquecerá”. Uma década depois, 1972, Raul Córdula se tornou amigo de José Ramalho Neto, o jovem Zé Ramalho da Paraíba. Os conterrâneos se conheceram no bar Asa Branca, que Córdula tinha na capital, João Pessoa: “O único boteco que ficava aberto na Paraíba inteira depois das oito horas da noite, à base de ‘mensalão’ pago à polícia”. O Zé Ramalho compositor, atesta, nascera no Asa Branca.

*Você lê esta matéria na íntegra na edição 24 da Rolling Stone Brasil, setembro/2008

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