quinta-feira, 19 de junho de 2008

mAIS uM cORPO qUE cAI*

Sim, houve outro. Foi numa dessas noites loucas que contando ninguém acredita, tão inverossímeis quanto a realidade. Era comum o pessoal sentar no parapeito da janela pra tomar um arzinho, obrigatório em se tratando de verão, no bafo asfixiante de casa lotada e sem ar-condicionado. Nunca tinha acontecido de alguém cochilar bêbado e desabar lá de cima, do segundo andar do sobrado de pé direito alto, em queda-livre até o chão do pátio: ploft! Nunca até o Ned sentar no parapeito no maior porre e invariavelmente cometer a façanha. O Noites já tinha pulado dessa altura, mas ele era um bêbado consciente: entrou no banheiro, passou a chave, abriu a janelinha e se atirou lá de cima. Depois voltou pro bar, mancando, joelho detonado, entrou na fila do banheiro e ficou rindo enquanto o povo esmurrava a porta xingando o cheirador que supostamente se trancara lá dentro. Mas o Ned, coitado, não teve motivo pra rir. Era um publicitário gordinho, garageiro assíduo que não fazia parte do nosso círculo de amizades. Um desses tipos que a gente nunca nota a existência, não lembra o nome e sempre estende a mão dizendo muito prazer quando encontra. O Ned era tão invisível que não me surpreenderia se ninguém notasse a queda. Um mês depois eu perguntando pro Ricardo:

Tu já tinha visto aquele cara deitado no pátio?

Quem? Responderia ele.

Mas pra sorte do Ned alguém viu o acidente e espalhou a notícia. Daí o rebuliço de salvamento, o diz-que-diz que distorce a história até deixar as cinco vítimas paraplégicas e finalmente as piadinhas sarcásticas que transformaram a queda no assunto da noite.

Enquanto isso eu curtia minha folga com a namorada no quarto-e-sala dividido com um chiuaua, dois gatos siameses fake e uma ninhada de gatinhos. What a life! Só fui saber do acidente no dia seguinte, quando o Ricardo contou a história: um gordinho bêbado tinha despencado da janela do bar até o chão do pátio: ploft! Lá embaixo, todo quebrado, foi socorrido, por um grupo de prestativos, gente que se entusiasma com qualquer desgraça, só pelo prazer da prontidão. Removeram o Ned inconsciente e o levaram pro hospital. Climão pesado que durou meio minuto até alguém gritar drogas! e tudo voltar ao normal.

*

Anos depois. Festinha boca-livre de produtora. No meio daquele mundaréu de chope sou apresentado a esse gordinho publicitário, o Ned:

Muito prazer.

Te conheço há anos, ele diz. E emenda:

Eu sou o cara que caiu do Garagem.

Ploft!

Então o Ned me contou a sua história:

– Esse era o primeiro trabalho legal que eu pegava em publicidade, uma conta que ia render grana, status, mulheres, a guinada na minha vida que até ali andava meio meia-boca. Fechei o contrato e fui comemorar no Garagem. Tomei todas e tu sabe o resto.

O que eu não sabia era que o Ned tinha quebrado a clavícula e não sei mais quantos ossos e ficou de cama durante seis meses e acabou perdendo a grande chance da vida porque o cliente do Ned rescindiu o contrato logo depois do acidente. Mas o Ned era um cara sortudo. Só perdeu um cliente no fim das contas. Melhor do que perder a vida, que, mesmo sendo meio meia-boca, era a única que ele tinha.

– O médico disse que só não me fodi completamente porque tava muito bêbado e inconsciente na queda. Se eu tivesse caído lúcido, tinha enrijecido o corpo e o estrago podia ser bem maior. Fatal, disse o médico.

Brindemos!

Foi a única coisa que me ocorreu dizer. O que não mata, salva.

*Mais um capítulo da saga do bar Garagem Hermética, por Leo Felipe.

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