quarta-feira, 18 de março de 2009

fORÇA vERDE (1982)

Na abertura do quarto disco, Força Verde (que chegou cercado de expectativas), a viagem sonora começa com o som de um piano. Segundo Ramalho, as canções desse álbum têm intensa referência a deuses, figuras mitológicas, bíblia, apocalipse, esoterismo, paixão:

"É um disco feito para os fãs viajarem com as letras e ambiências criadas nas sessões de gravação", definiu. A música-título foi acusada de plágio - porém, não passou de equívoco. Tudo por causa de uma revista em quadrinhos...do Incrível Hulk!

A história de Força Verde vem desde 1976, quando Zé, chegado ao Rio de Janeiro, ainda atravessava seu período lisérgico pós-Paêbirú. Folheando um gibi do Hulk, reparou que os balões de determinada historinha continham "pura poesia". Fez uma música em torno daquilo e, quando finalmente resolveu gravá-la, achou que "não daria nada".

Contudo, um colecionador de gibis (um maletão né?) reconheceu o texto na letra e denunciou Zé Ramalho na TV, dizendo que ela pertecia, na verdade, a um poeta irlandês não creditado na revista original. A imprensa brasileira transformou o fato em escândalo: o apresentador Flávio Cavalcante chegou a chamar Zé de "ladrão".

Stan Lee e a Marvel Comics, criadores do personagem "Incrível Hulk", chegaram a ser procurados pela imprensa, mas resolveram pedir que abafassem o caso. Afinal, eles próprios não haviam creditado o poeta irlandês na revista original...

A CBS ficou temerosa e preferiu esconder o disco.

Hoje em dia, nem Hulk ou Marvel (muito menos o morto Cavalcante) poderão nos impedir de "pegar Força Verde emprestado" na internet. Qualquer dia desses devolvemos... Ah: de sua autoria, Zé regrava a paebiruana "Nas Paredes da Pedra Encantada" - transformada em "Segredos de Sumé".

Força Verde

Segredos de Sumé


Eternas ondas

fREE cLASSICS



eM bUSCA dO pAÊBIRÚ

*O artista plástico e arqueólogo paraibano Raul Córdula (homem que, nos anos 70, apresentou a Pedra do Ingá a Lula Côrtes e Zé Ramalho), escreveu esse texto em prosa poética que se encontra no encarte original do long-play de Paêbirú. Neste encarte, que torna o disco mais valioso ainda, também tem relatos da expedição feita por essa turma à localidade de Ingá do Bacamarte. Os relatos são assinados por Côrtes. Leia-os aqui em breve. Em 4 episódios

terça-feira, 17 de março de 2009

oH vIDA dE gADO!



*Dos arquivos de Zé Ramalho: proibida de cantar pelos censores militares, Joan Baez entra de surpresa no palco. Ramalho estava tocando "Admirável Gado Novo"

aS tRILHAS dE sUMÉ*

A pintura representa Sumé (Pai Tumé ou São Tomé) descerrando mata adentro o Caminho de Peabirú. Eis um mapa
Na imagem abaixo, uma ramal paranaense do caminho. Mui utilizado por índios, exploradores espanhóis, tropeiros e bandeirantes. Pelos entradas também
Regato que atravessa a ramal catarinense do Peabirú, em São Bento do Sul (SC)

Outro vestígio de Peabirú

No antigo retrato, expedidores saem em busca de Paebirú


*Uma das mais importantes heranças indígenas encontradas pelos colonizadores ao chegar ao Brasil foi, sem dúvida, o Peabirú, uma estrada de mais de 2.500 quilômetros - e com inúmeras rotas secundárias - que ligava o alto dos Andes até o litoral sul brasileiro.

O Peabirú era uma valeta de 1,40 metro de largura e 40 centímetros de profundidade, forrado por uma gramínea que impedia erosões. Os primeiros relatos sobre o caminho datam de 1516 e são envoltos em mistérios e lendas.

Entre eles, a de que o Peabirú fazia parte da Estrada do Sol, construída durante o Império Inca. O seu formato mais largo em relação às outras trilhas existentes em território brasileiro na época reforça a tese dos defensores dessa teoria.

Já os jesuítas acreditavam que ele havia sido construído por São Tomé. Especulações à parte, o fato é que o caminho, ladeado por muitas aldeias de índios guaranis, foi amplamente usado por diversos conquistadores, em diferentes períodos da colonização.

O trecho inicial do Peabirú, chamado de trilha dos tupiniquins, era o único meio conhecido na época de cruzar a Serra do Mar. Passou a ser muito utilizado também pelos jesuítas, principalmente por José de Anchieta, quando estes colocaram em prática o trabalho de catequização dos índios. Por isso, a trilha foi rebatizada como "Caminho do Padre José".

Daqui

Também tem um documentário rolando - "Expedição Peabirú". Parece bem interessante:

segunda-feira, 16 de março de 2009

nUM gOLE sÓ



Ao lado de Satwa, No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro (outra raridade), de 1973, profetizou o "surto de nordeste" que inoculou gerações musicais do Recife e da Paraíba, nos anos 70 - cujo desbunde pleno desaguou na odisséia de gravação do mitológico Paêbirú.

"Desmantelado", samba rock composto por Notari, em 1968, nos tempos áureos do Teatro Popular do Nordeste, dá largada aos trabalhos. A banda que toca na bolacha é formada por Notaro, Robertinho de Recife, Zé Ramalho e Lula Côrtes. Entre outros.

O 'frevinho' "Fidelidade" (da letra: Permaneço fiel às minhas origens / filho de Deus / sobrinho de Satã) tem muito do espírito estradeiro do doc Nas Paredes da Pedra Encantada. Ou vice-versa.

"Made in PB" é a mais "noise": um rockaço. Parceria de Notaro e Ramalho - o début de Ramalho, na verdade. A guitarreira distorcida, cheia de efeitos de eco, é do jovem Robertinho de Recife. A produção gráfica leva a chancela do grupo multimídia Abrakadabra, de Côrtes & Katia Mesel. Em matrimônio, na época.

A surrealística capa do álbum, na verdade, é um desenho de Lula. As imagens deste post fazem parte do encarte original do filho único de Notaro na música. Que, além de poeta, era engajado fanzineiro.

Na foto "Povis", um registro raro de Marconi Notaro (de óculos). Ele posa ao lado poeta de mail art recifense Paulo Brusky (à sua direita).

Leia mais sobre o bendito aqui. "Seria ele um blogueiro?"...

Mais da verve poética de Notaro no trecho do poema "Num gole só"

Não se começa um poema / com provavelmente. / Começa-se com "não se começa." / Os hebraicos / diziam coisas-com-coisas / mas tudo em hebraico / e sou analfabeto de pai e mãe / nesse idioma./ Provavelmente / não se começa o mundo / em Roma / e nem lá se termina. / É que nem o amor / dado, / que outro não existe./ De blás blás constantes. /
ininterruptamente / constantes, / caminho metros de cerveja / e nada busco / senão a diferença / mais fria possível / desses olhares gulosos / remelentos de ociosidade. / Na esquina se grita : / "ei, menino, / interpretar / nada tem com interditar, / e essa metralhadora aí / na sua mão / não é de fogo de artifício não, ouviu ?" /

Felicidade

Made in PB

Não tenho imaginação para mudar de mulher

Desmantelado

pAÊBIRÚ!*

POR DANIEL FEIX

Aqui vão mais algumas informações e dois vídeos que dão uma ideia um pouquinho melhor do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, que o Cristiano Bastos e o Leonardo Bomfim estão montando em Porto Alegre.

O filme - se você leu a capa do Segundo Caderno da ZH de hoje sabe do que se trata - vai resgatar o processo de criação do disco Paêbirú, que os então jovens Zé Ramalho e Lula Côrtes lançaram em 1974.

Trata-se, segundo Bastos e Bomfim, do vinil mais caro do país, avaliado em cerca de R$ 4 mil - só existem 300 cópias do LP original; o restante foi perdido depois da grande enchente que inundou o Recife em 1975.

O nome do álbum faz alusão a uma pedreira localizada entre a capital pernambucana e João Pessoa (PB), por onde passava uma trilha indígena pré-histórica que, conforme os arqueólogos, ligava o litoral brasileiro às montanhas peruanas habitadas pelos Incas ("paêbirú" é uma corruptela de "apé biru", ou, "caminho do Peru").

Pois bem. Aos vídeos.

Primeiro, o teaser do filme, com o Lula Côrtes (figuraça!) fazendo às vezes de guia da equipe na expedição pelo sertão paraibano:

E, agora, um raro momento em que Zé Ramalho e o próprio Lula Côrtes aparecem tocando juntos à época. Os dois e o Alceu Valença numa performance inspiradíssima da espetacular Vou Danado pra Catende, de Valença, em 1975 (da esquerda para a direita, na linha de frente da banda, Zé, Alceu e Lula):

Tem mais dados sobre Nas Paredes da Pedra Encantada no blog sobre o filme, mantido por Bastos e Bomfim (acesse clicando aqui).

E, também, no blog pessoal do Cristiano Bastos (clique aqui), onde ele compila as reportagens que saíram sobre o filme e sobre o disco, inclusive a - excelente - que ele próprio escreveu sobre a viagem de Paêbirú para a Rolling Stone.

Pela amostra que se tem, e pelo que vi na mesa de montagem, o filme tem tudo para ficar beeem interessante. É esperar e conferir.

*Postado no Primeira Fila, blog de cinema do jornal Zero-Hora

eXTRA! eXTRA! eXTRA!

*Esse é o "Dia de Lula Côrtes" no Rio Grande do Sul! Capa do Segundo Caderno da Zero-Hora. Psicodélico né? Para uma leitura 8 miles high clique no tricórdio...

sábado, 14 de março de 2009

fREVODELIA mACABRA!



*Do segundo álbum, a psicotropia tropical de "Frevo Mulher". Sucesso na voz da ex-esposa Amelinha. A bem da verdade: Ramalho a compôs no "ritmo do Cartel de Medellín"...

jOAN bAEZ: "eSTOY pROIBIDA!"*

*Zé Ramalho e Joan Baez durante apresentação de "Admirável Gado Novo" - 1980, Rio de Janeiro. Na ocasião, Baez (ovacionada pelo público) foi proibida pela censura militar de se apresentar no Brasil - ao lado do "subversivo" paraibano.

Ramalho conta essa passagem na histórica entrevista à Rolling Stone. A foto do post - separada no Baú do Ramalho por ele próprio - registra o catártico momento.

Leia um trecho no qual Ramalho fala sobre o encontro. Ouça depois saborosa seleção de músicas pinçadas em seu fantástico álbum de estréia.

"Meninas de Albarã" é uma de minhas favoritas. Eu diria: a mais "opiácia"...

Zé Ramalho - Fui pessoalmente ao hotel onde ela (Joan Baez) estava hospedada. Muito simples, ela me recebeu em seu apartamento. Ensaiei eu e essa mulher, sozinho, com um violão, a música do Geraldo Vandré "Vou Caminhando". Em português. Mas a censura não liberou. Veio um documento da Polícia Federal impedindo a apresentação dela nesse show: "Proibida de cantar". Isso eu tenho guardado no meu arquivo. Ela estava aqui pra se encontrar com Lula, sindicalista. O Senador Eduardo Suplici, na época ainda vereador, foi quem a levou. Com Baez tive a sensação de estar muito próximo ao universo de Dylan. No meu arquivo também tenho guardado a gravação da gente cantando Vandré e "Imagine", no quarto do hotel. Baez foi impedida de cantar, mas subiu ao palco e disse: "Não posso cantar...". A platéia delirando. Ela , no entanto, entrou no palco sem avisar. Em "Admirável Gado Novo", dançando e disse: "Não posso cantar. Estoy proibida!". Depois que acabou o show filmamos essas duas canções no seu camarim. Depois enviei uma cópia do VHS pra ela. Já faz quase 30 anos. Se eu botar esse vídeo no youtube pega fogo! Está guardado. Isso não morreu.

Avôhai

Vila do Sossego

A Dança das Borboletas

Meninas de Albarã

sexta-feira, 13 de março de 2009

o lAGARTO qUE iLUMINA









*O arqueólogo Gabriele Baraldi afirma que o monumento paraibano - A Pedra do Ingá - se trata de um "documento milenar", escrito em hieróglifos hititas. Segundo Baraldi, essa região da Paraíba (Ingá do Bacamarte) guarda dois grandes monumentos arqueológicos de longeva antiguidade: a Pedra do Ingá, gravada com hieróglifos hititas e outro, chamado Pedra Arzawa...

Nas ilustrações, codificações feitas dos símblos encontrados na Pedra do Ingá, como essa acima, com pinta de micróbio. Na verdade, a costelação de Orion.

Está nos versos de "Pedra Templo Animal":

"E o canto do Bacurau / Embaixo de Orion / das estrelas pequeninas / Se deita pelas campinas a Pedra Templo Animal / A Sereia do Mar"

Mais

sexta-feira, 6 de março de 2009

nELSON dE tODOS oS tEMPOS

o vELHO & iNDIVISÍVEL zÉ rAMALHO

*Na edição de março da Rolling Stone (nas bancas nos próximos dias), confira a psicanalítica entrevista que fiz com Zé Ramalho, no Rio de Janeiro, no mês de fevereiro. Por enquanto, leia alguns trechos que ficaram de fora da reportagem.
O restante, só na revista. No site da RS, aprecie também uma discografia comentada que analisa 30 anos de carreira desse paraibano natural de Brejo do Cruz.
Na foto acima (e abaixo), Zé Ramalho com o filho Christian, ao lado da avó e do mítico "Avôhai" - seu "avô & pai".
Logo abaixo, o cantor posa de Elvis paraibano em meados dos anos 60.
Outra coisa: Zé Ramalho falou sobre Paêbirú, finalmente...
Fale de Robertinho de Recife que, no último álbum (Canta Bob Dylan - Tá tudo mudando), toca e produz. A parceria de vocês vem desde o tempo de "Made in PB".
Zé Ramalho – No Sub Reino do Metaozários. Marconi Notaro foi um artista que deveria ter seguido em frente. Foi um visionário. Naquela música "Permaneço fiel... Filho de Deus, sobrinho de Satã" (cantarola) - "Fidelidade", letra espetacular. Um disco que merecia ser regravado depois. O som é muito ruim porque não foi gravado na Rozenblit e, sim, na TV Universitária de Recife. É muito embolado, porém, a criatividade é grandiosa.
Saco o compacto dos Mamas and the The Papas – "Dedicated to the love i one" (1967). Álbum original customizado pelo adolescente José Ramalho Neto. Em minha visita à residêndia dos Ramalho, em João Pessoa (durante apuração da reportagem Agreste Psicodélico, sobre o disco Paêbirú), Zélia, sua prima, o havia me "emprestado". Devolvo-lhe a preciosidade...
Zé Ramalho – (pasmo, sem saber o que dizer) Eu me lembro disso aqui, rapaz... Mamas and the The Papas, "Dedicated to the love i one". Nossa, como eu adorava! Porra, muito lindo!
Estou lhe devolvendo. É seu.
Zé Ramalho – Obrigado. (risos) Toda capa de disco meu sou em que faço. Só um álbum meu - o sugestivo Décimas de um cantador - fugiu ao meu controle. Quando resumiram as capas de vinil pra CD muitos detalhes desaparecem. Na capa deste vinil, eu empunho uma gilete de ouro. Eu estou com ela na mão. A gilete era real. Na contracapa, meu nome está grafado com fileiras de cocaína. Mas foi a minha revelia. Como experiência, durou 12 anos de minha vida. Doze anos até esgotar a experiência.

oUTTAKES






Who's Next?