terça-feira, 7 de abril de 2009

o fUTURO é vÓRTEX (1986)

O primeiro LP dos Replicantes, O Futuro é Vórtex (nome de uma máquina de pinball que mostrava um futuro perigoso), foi lançado com o estigma da censura federal, que vetou a execução pública de três músicas: "Choque", "Mulher Enrustida" e "Porque não".

A alegação era que continham "palavras de baixo calão". Deliberadamente, a gravadora RCA picotou "Porque não", que tinha a frase "Eu quero que o Caetano vá pra puta que o pariu!". A imprecação foi banida da faixa, como se o vocalista Wander Wildner emudecesse repentinamente no refrão.

O então baterista Carlos Gerbase lembra que a justificativa da RCA para a solução tosca é que não ficava bem atacar um artista de outra gravadora. O disco, que tem as clássicas "Surfista Calhorda", "Hippie-Punk-Rajneesh" e "Censor", destoa do padrão punk feito no Brasil, na época, marcado pelas letras de protesto.

Para o jornalista Luciano Marsiglia, os Replicantes desafiaram o cânone paulista, cujo movimento professava sério compromisso político: "Eles tinham uma preocupação estética que passou longe do punk brasileiro. O fato de os Replicantes serem do Sul favoreceu a liberdade e a criatividade da banda".

Surfista Calhorda


Boy do Subterrâneo


O Futuro é Vórtex

fREE cLASSICS





segunda-feira, 6 de abril de 2009

bUENOS aIRES eN lA cARRETERA*

POR DANIEL BACCHIERI

1972. Ano da primeira transmissão oficial em cores na TV brasileira, o primeiro videogame da história era lançado nos Estados Unidos, e o Rio Grande do Sul levava o título de Miss Brasil com Rejane Vieira da Costa. No esporte, Emerson Fittipaldi, aos 25 anos, partia para dar ao País o primeiro campeonato na categoria mais importante do automobilismo mundial.

Uma temporada que começou no calor descomunal de Buenos Aires, em 23 de janeiro de 1972. E o primeiro Grande Prêmio visto por um adolescente de 17 anos, que embarcou em Porto Alegre em direção a Argentina, através de ônibus e navio, com uma credencial de fotógrafo obtida na última hora.

E foi assim que Antônio Carlos Bacchieri Duarte, então estudante do Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, registrou os bastidores de uma Fórmula 1 despojada, distante ainda do clima de celebridades e marketing instaurado hoje no circo do automobilismo.

Uma cobertura repetida nos anos de 1973 e 1974, e a possibilidade de conviver com figuras como Jackie Stewart, Graham Hill, Carlos Reutemann, François Cevert e Ronnie Peterson.

*O jornalista Daniel Bacchieri é filho do fotógrafo esportivo Antônio Carlos Bacchieri Duarte. O Daniel reuniu no Flickr registros clicados por seu corôa em corridas de Fórmula 1, na Argentina, anos 70.

Desde que foram publicadas na internet, há pouco tempo, as fotografias já tiveram mais de 120 mil visualizações. Veja aqui algumas dessas imagens. Logo após, leia um relato do fotógrafo sobre essa rica (e aventuresca) façanha de juventude.

O álbum tem provocado bela repercussão na web, com destaques na capa do Yahoo Brasil, nas versões brasileira e francesa do Flickr, no site da Quatro Rodas e nos principais canais de discussão sobre automobilismo no Brasil.

Na legenda: Emerson Fittipaldi (Lotus-Ford) '72

fÓRMULA fOTO





Las fotitas:

1) Hermanos "brincam" ao estilo platino durante a F1
2) Fazendo charme: Emerson Fittipaldi' 73
3) Clay Regazzoni' 72 posa para o fotógrafo
4) De papo no box: Jackie Stewart & François Cevert '73
5) Mais parecendo o Cheetah Chrome, dos Dead Boys: o piloto James Hunt' 74
6) Modeletes alvoroçadas no grid de largada. F1 de Buenos Aires '73

uM fã nOS bOXES dA F1 dOS aNOS 1970*


POR ANTÔNIO CARLOS BACCHIERI DUARTE

Fui até Montevidéo de ônibus, e de Montevidéo para Buenos Aires de navio (o M/V Trinta e Tres Orientales), que levava uma noite toda para atravessar o Rio do Prata. Foram comigo alguns amigos de Pelotas (que estão em algumas fotos).

Chegando em Buenos Aires fui direto para a sede do Automóvel Club Argentino que era o orgão que organizava o GP. Quando me apresentei na sala de imprensa fui informado que eu seria submetido a uma entrevista com uma comissão de credenciamento para ver se teria ou não a autorização. Isso já era na sexta-feira. Sábado seriam os treinos livres.

Aguardei quase uma hora para ser atendido, lembro que estava calmo e com postura de profissional. Não poderia de forma alguma mostrar meu material de trabalho pois era rídiculo perto dos demais fotógrafos. Uma Pentax sem acessório algum.

Fui recebido pela comissão e me fizeram várias perguntas. A principal era por que eu estava chegando tão depois dos outros e por que meu nome não constava da primeira lista de credenciados. Lembro que respondi que tinha sido enviado para uma reportagem especial de bastidores do GP.

Colou! E me deram uma braçadeira de fotógrafo com uma foto 3 x 4, literalmente grampeada à braçadeira e carimbada pela organização.

Lá me fui para o autódromo na manhã de sábado, com uma bolsa de plástico com a máquina dentro e algumas caixas com filmes (existe uma foto que aparece eu e a bolsa. Eu estou sentado no carro do Wilsinho). Senti vergonha na hora de ingressar nos boxes, pois tinha que abrir a tal de bolsa. A cara dos seguranças pra mim era digna de uma foto!

Lá dentro a história foi outra, a circulação era realmente livre (a braçadeira dizia "libre circulacion"). Andei por tudo, até almoçar no restaurante dos pilotos eu tive oportunidade.

Em 1973, lembro inclusive que estava almoçando com o jornalista Clayton Rocha, amigo da Rádio Universidade de Pelotas, neste restaurante no meio do autódromo, quando avistamos aqueles uruguaios que cairam de avião nos Andes e tiveram que comer o cadáver dos amigos para sobreviver (1).

O Clayton (bom jornalista como sempre) pulou na mesa dos caras e fez na hora uma entrevista fantástica com um gravador National daqueles que tem que apertar dois botões para gravar. Foi um sucesso.

Uma fato que não esqueço nunca foi a fila de mulheres lindas que esperavam um beijinho do piloto francês François Cevert (Tyrrell-Ford). O cara ficava sentado nos boxes e alguns mecânicos organizavam a fila de meninas para um simples beijinho. Ele tratava todas educadamente, dava um autógrafo, um beijo e isso durava muito tempo. Atualmente na F1 imagino que nem chegam perto de um piloto famoso.

Recebíamos o resultado do treino de 10 em 10 minutos. Haviam máquinas de xerox nos boxes e alguém vinha com o original e tirava cópia para todos os jornalistas. Não havia computador nessa época. Era uma lista com o tempo de cada um e o grid provisório. Imagina como era disputado este tal de papel, principalmente no final do treino.

Lembro do suíço Clay Regazzoni (Ferrari) e sua forma de dirigir. Era sobrando nas curvas, movimentos bruscos parecia que estava voando, mas o tempo dele depois não era o melhor...

Eu lembro que, como não tinha lentes especiais, pensei em tirar as fotos mais de perto e procurando o detalhe.

Estas coberturas foram fantásticas. Um passe obtido através de amigos jornalistas em Porto Alegre, com o simples objetivo de acompanhar de perto o trabalho de pilotos e equipes, para um simples arquivo pessoal.

*No centro da foto, o fotógrafo Antônio Carlos Bacchieri Duarte. Gremista há 54 anos, é fanático por esportes. As corridas de F1 em Buenos Aires (1972/73/74) foram o pontapé inicial de uma série de eventos dos quais foi testemunha ocular.

Acompanhou a seleção brasileira de futebol nas Copas de 1986, 1990, 1994 e 1998.

A conquista da América pelo Grêmio em 1983, e a batalha contra o Ajax, em Tóquio, em 1995. Diversos confrontos do tênis brasileiro pela Copa Davis, de Thomaz Koch a Gustavo Kuerten. Além da primeira conquista de Ayrton Senna, em Interlagos, 1991.

(1) Nota extraída do site UOL: "No episódio que ficou conhecido como 'Milagre dos Andes', um avião da Força Aérea uruguaia com 45 pessoas a bordo caiu nas montanhas nevadas do Chile em 13 de outubro de 1972. Duas pessoas morreram na hora e mais oito pessoas nos dias seguintes. Os demais sobreviventes vagaram pelos Andes durante dois meses, tendo que comer a carne das vítimas para matar a fome".

domingo, 5 de abril de 2009

pARA nÃO dIZER qUE nÃO fALEI dE rOCK (1984)

Para Não Dizer que Não Falei de Rock - ou "Por Aquelas que Foram Bem Amadas" (1984). Durante a elaboração do álbum de duplo nome, Zé Ramalho hospedou-se no luxuoso Hotel Meridien - por 2 meses... Hedonismo que gerou uma dívida de farras com bebidas importadas e refeições caras regadas a drogas sortidas. Na época, o valor da brincadeira ultrapassou a casa dos U$100 mil.

Procurado pelo presidente da gravadora, Marcos Maynard, Ramalho ficou sabendo que deveria repor os gastos excedentes. "Mistérios da Meia-Noite" (assista o clipe abaixo), que vendeu mais de 300 mil cópias, foi a salvação. No disco, o compositor relê "Made in PB" - composição registrada por Marconi Notaro em No Sub Reino dos Metazoários, de 1973 - numa versão rockabilly.

Made in PB


Brejo do Cruz



sábado, 4 de abril de 2009

oRQUÍDEA nEGRA (1983)*

Orquídea Negra (1983) - Fagner, Robertinho de Recife, além de músicos como Egberto Gismonti, e os conjuntos A Côr do Som e o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar participam desse disco. A canção-título "Orquídea Negra" foi feita por Jorge Mautner, que a entregou a Zé dizendo: "Você é a Orquídea Negra que brotou da máquina selvagem". Arranjos feitos por Radamés Gnatalli e Chiquinho de Moraes. Frustrado pelo projeto Força Verde, no ano anterior, Ramalho afunda o nariz em "montes nevados" de cocaína no tropical Rio de Janeiro.

Orquídea Negra



Kriptônia



*Há 30 anos, o iniciante Zé Ramalho apresentava a canção "Vila do Sossego", do primeiro álbum, no Fantástico.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

fREE cLASSICS





tENTAÇÃO dE sEXTA-fEIRA

Com suas mãozinhas ocupadas, esbanjando firme exuberância da mocidade, a platinada Debbie Harry (do Blondie) deixa-se fotografar nuazinha-em-pelo (provocantemente besuntada), nos animados seventies.

No Design You Trust tem mais desses inacreditáveis instântaneos do life style rock: Bon Scott (AC/DC), Bob Dylan, Syd Barret, Keith Richards, Fred Mercury, Sid Vicious, entre outras lendas (vivas & mortas), dão as caras.

Não podia faltar Iggy Pop, o messias dos deserdados. Iggy está lá, flagrado "daquele jeitinho", agarrado numa garota - literalmente - de "cara torta". Confere lá.

Antes, que tal um colinho da Debbie?

One Way or Another

quinta-feira, 2 de abril de 2009

zÉ rAMALHO dA pARAÍBA (2008)

Zé Ramalho da Paraíba (2008) - Nos dois volumes desse disco, o descobridor Marcelo Fróes, do selo Discobertas, achou e reuniu gravações esquecidas de Zé Ramalho. Além da faceta cantor/compositor, o paraibano mostra no álbum seu forte lado de bluesman e guitarrista. Tem o climão e a sonoridade dos velhos bootlegs perdidos. Grata surpresa de sua produtiva carreira.

*A maior parte das gravações são do tempo em que o forasteiro recém-chegado ao Rio de Janeiro, José Ramalho Neto (após acompanhar o músico pernambucano Alceu Valença), iniciava carreira própria. Tempos difíceis, conforme contou. Como ainda não tinha na mão as canções de seu primeiro LP, por volta de 1977, Zé fez tentativas no "Sul" que não deram em nada:

"O repertório era basicamente de músicas de rock, mas não chamava público. Sem ter disco gravado, uma carreira, na vida artística você é considerado aspirante", justificou na entrevista que deu à última Rolling Stone.

Os blues rock "Táxi Lunar" e "Jacarepaguá Blues", e o rock'n'roll balançado da crítica "Paraíba Hospitaleira", marcam o período desbravador. Ouça na ordem - todas elas ao vivo:





quarta-feira, 1 de abril de 2009

zÉ rAMALHO 2

Zé Ramalho 2 (1980) - Na capa terrorífica do segundo disco, o trovador posa tranquilo entre Zé do Caixão e uma de suas messalinas do inferno. Ramalho prova à crítica seu talento nato como compositor. Quem nunca se pegou cantarolando "Vida de Gado" ou assoviando a 'frevodélica' "Frevo Mulher"? Outros canções são a autobiográfica "Garoto de Aluguel", "Jardins das Acácias" e "A Peleja do Diabo com o Dono do Céu".

*No site da Rolling Stone, você já pode ler (e também curtir capas de outros 21 discos) uma discografia completa e comentada que escrevi sobre a obra de Zé Ramalho.

Gradualmente, vou postar no blog comentários sobre os demais álbuns do paraibano natural de Brejo do Cruz. Do segundo álbum, destaco três grandes sons: "Admirável Gado Novo", "Jardim das Acácias" e "Frevo Mulher".

Sobre essa última, Zé deu a real:

"'Frevo Mulher', hit há 30. No carnaval de Salvador, não existe uma banda que não toque. Essa música foi feita numa madrugada, num quarto de hotel. De repente dá aquela chispa. Eu estava tão agoaniado, a cabeça latejando de tanto pó que tinha entrado, e fui tomar um banho para relaxar. Quando sai do banho, a música saiu junto. E fiz rapidamente. Foi feita para a Amelinha gravar. Eu estava tão excitado, a energia era tanta que eu poderia fazer muito mais músicas nessa madrugada. Mas tem o velho problema: você bebe e fuma muito. No meu caso, sempre teve mais música envolvida. Adorava ficar cantando, tinha essas viradas violentas, ficava a noite inteira e emendava no dia seguinte".

Frevo Mulher


Admirável Gado Novo


Jardim das Acácias

mEMÓRIAS fOTOGRÁFICAS

O colunista Roger Lerina (Zero-Hora) montou blog dele, uma galeria fotográfica com mais 20 registros que contam um pouco sobre a vida e a obra de Zé Ramalho.

São imagens do arquivo pessoal de Ramalho, selecionadas por ele próprio, e que serviram à entrevista que deu à última (trigésima) edição da Rolling Stone.

Inclusive, essa do conterrâneo Huguinho Leão - um dos "heróis" de Paêbirú. Huguinho fundou com Ramalho, nos anos 60, conjuntos de beatleamaníaco sucesso no Nordeste, como os The Gentlemen e Os 4 Loucos (ex-"Four Crazy's").

É o homem que arquitetou o riff do petardo "Nas Paredes da Pedra Encantada". Presença confirmada no doc que, por sinal, leva o nome da música.

Descontraídamente ao piano, Huguinho pita sua cigarrilha para a foto.

Nas Paredes da Pedra Encantada

sexta-feira, 27 de março de 2009

fREE cLASSICS






aVÔ & pAI, nETO & fILHO

No aguardado show de hoje no Teatro do Bourbon Country, em meio a versões de músicas de Bob Dylan e sucessos de sua carreira, o grande ZÉ RAMALHO vai cantar um de seus melhores clássicos: Avôhai.

Em entrevista ao jornalista gaúcho CRISTIANO BASTOS, publicada na revista Rolling Stone Brasil deste mês, o músico paraibano contou a origem da canção, dedicada ao avô – à esquerda na foto, em que Ramalho aparece no cantinho do outro lado.

"Depois da morte do pai, poeta, afogado num açude do sertão, foi criado pelo avô para ser médico. O avô-pai, após uma viagem lisérgica do neto envolvendo cogumelos, extraterrestres e mensagens telepáticas, virou a canção-hino Avôhai", escreveu o repórter.

A entrevista é ilustrada por fotos do álbum de família do intérprete como estas aqui. Passa lá no Bloger Lerina – www.zerohora.com/blogerlerina – pra ver mais fotos do jovem Zé Ramalho...

*

... Entre outras revelações, o cantor e compositor falou para a publicação sobre sua experiência com a cocaína durante 12 anos, que resultou em músicas como Frevo Mulher – outra que está no repertório desta noite:

– Essa música foi feita numa madrugada, num quarto de hotel. De repente dá aquela chispa. Eu estava tão agoniado, a cabeça latejando de tanto pó que tinha entrado, e fui tomar um banho para relaxar. Quando saí do banho, a música saiu junto. E fiz rapidamente. Foi feita para a Amelinha gravar.

*

Leia (e veja mais fotos) na Contracapa Zero-Hora de hoje.

quinta-feira, 26 de março de 2009

pAÊBIRÚ (ePÍLOGO)

Achávamos que ali estariam as chaves maiores. Eu conversava com Zé (Ramalho) e as imagens das palavras ecoavam na minha mente fundindo-se à realidade. Andávamos ou voávamos, e encontramos um outro traçado.

Nós os chamamos de Tratado dos Triângulos. Uma das rochas formando uma parede a mais ou menos vinte metros à esquerda da cabeça do lagarto, (digo à esquerda em se estando voltado para o sentido da corrente).

Trazia sua superfície totalmente talhada com triângulos de relevo agudo como sendo o entalhe posterior ao resto das escrituras existentes. Seria a própria formação atômico-molecular das rochas?

Olhávamos em volta pedras do templo recentemente quebradas. (Dizem os nativos que por Doutores Franceses). E não encontramos nenhum sinal da solidificação em triângulos como pensávamos.

As pedras mesmo em suas rachaduras naturais apresentavam-se sempre compactas, mostrando pequenos filetes brancos, paralelos e horizontais, possivelmente de sua solidificação em camadas.

Mais adiante encontramos traçados dos mesmos triângulos anteriores, porém tão desgastados como o resto das inscrições da pedra.

Teria sido duas as civilizações era épocas diferentes?

Seriam os triângulos a formação da própria rocha?

Ou uma certificação da existência de uma pirâmide naquele local?

O mistério se estende em tudo e lá continua em seu semi-esquecimento silencioso, provocando apenas tensões em nossos nervos, ânsias em nossos peitos e sons em nossas vidas.

Poucos e raros são os livros que tratam sobre as pedras, e nunca se descobriu ou relacionou seus símbolos com nenhum alfabeto da terra.

Apenas uma enorme lenda paira entre as idades do sertão.

SUMÉ.

O feiticeiro índio de cabelos vermelhos e barbas de fogo, que trilhou das praias e matas de cajús da Paraíba, até a porta do sol, ora com os índios, ora fugindo dos carirís-guerreiros canibais.

Conta-se que nessa fuga passou pelo Ingá e muitos sertões até Machu-pichu fazendo conhecer sua caminhada como PAEBIRÚ - A Estrada da Montanha do Sol.

Existem marcos realmente por todo o interior do Brasil que parecem confirmar a lenda. Cidades e vilas, curas e plantas que trazem o nome de SUMÉ ou ainda variações em torno desse nome, como se um mesmo homem ou motivo, os tivesse denominado assim na mesma era.

Muitos ouviram falar de Sumé. Poucos procuraram recompor a sua trilha.

Mas o templo de Ingá do Bacamarte nos deixou crer que todos aqueles símbolos gravados na pedra, formam um documento palpável de épocas bem anteriores ao carirís e ao grande feíticeiro.

Mãos ou raios?

Homens ou não gravaram esses sinais?

Eu quase já nem durmo.

LULA CÔRTES


terça-feira, 24 de março de 2009

pAÊBIRÚ (PARTE 3)



POR LULA CÔRTES

Corri ate lá, e descendo uma pequena elevação dei com o inesperado: uma imensa pedra medindo uns 15 a 20 metros de comprimento com a forma de um lagarto imenso e sua barriga era totalmente bordada pelos fungos antiqüíssimos e pelas escritas estranhas, imagens humanas e espirais desenhadas em relevo forte.

Êxtase.

A cabeça rodava sobre o pescoço e os olhos não sabiam ainda o que fitar. Entramos num templo, era a única coisa que sabíamos ao certo. Na areia quente, fosseis de búzios do mar, toda aquela área fora um mar antigo, a água cantava, as cigarras e os pássaros invisíveis, eram como sereias.

Nenhuma nuvem, e no rosto da terra os mesmos mapas dos rostos dos homens que havíamos encontrado em BACAMARTE.

A pedra brilhava e hipnotizava os lagartos pequenos. Estes correndo dada a quentura do chão, caiam em buracos espiralados e lisos, cavados pelas águas através dos anos, dali não podendo mais sair.

Suas pequenas garras não aderem à superfície lisa e quase mármore da Pedra Polida. As cobras têem as suas presas quando cai o sol. Sentamos a beira d'água. Os sapos entoavam um canto como o som do OMM.

Os troncos gemiam com vento que era mais forte. Uma música estranha se formava com os carros-de-boi gemendo distante, como um misto de festa e de incelença, como lamento e festejo do uno vital.

Harpa dos ares, e o mundo era um feixe de afinadíssimas cordas de cobre brilhante, e essas cordas loucas, e os gemidos seus se entrelaçavam nos galhos dos arvoredos tortos se misturando no verde do juazeiro novo e entre as bages secas e as sementes duras e vermelhas do mulungú sozinho.

AXÉ-CAÔ.

E as lâminas das pedreiras brilhantes eram como as tarrachas dessa afinação natural. O lagarto imenso coxilava e sua boca tocava um poço no lajedo levemente.

Ele bebia.

Com o tempo passando e os dedos nervosos como se tocassem, apalpávamos a pedra, enquanto com pequenos cacos de um coité quebrado, jogávamos água no dorso do templo ou nos altares do réptil.

Jogávamos água com avidez e os símbolos pulsavam e se moviam, cresciam e respiravam. O calor da pedra transformava em ar a umidade e um cheiro estranho emanava dessa fumaça, como se saindo dos fungos cinza-esverdeados.

Os fungos grandes eram como escamas e se estendiam em todo o corpo do animal. Às vezes sentados numa pequena sombra de uma rachadura, parecíamos assustados trogloditas, raquíticos e indefesos.

E aquele imenso sáurio nos olhava e era manso e pleno. Ali seria um templo da fertilidade?

O vento trazia as sementes da Paina, voando em seus veículos de seda de algodão quase cristalino, e os levava passeando ante as cavernas dos nossos olhos acesos.

Na barriga do templo-animal outro calango menor se achava gravado. Medindo uns três palmos. Outro símbolo redondo e com uma cruz, muito se assemelhava a um gameta feminino.

Órion regendo a terra-mãe.

E formas como um homem e uma mulher de cabeça para baixo, como se deitados talvez, o milho, as frutas encravadas, e ainda um símbolo incrível que multo nos fazia crer em toda essa loucura verdadeira.

Uma maçã e uma serpente.

O vento cantava entre as horas do mundo. E elas se passavam vagas e acústicas, lerdas e infladas, sopradas como as nuvens, raras e brancas. Os quatro elementos juntos formavam como um só corpo.

De homem e de mulher composto em formas indefinidas, e esse corpo fecundo, se alastrava no vento, se derretia no tempo, se demonstrava no mundo. Fetos dentro da água éramos no leito do rio.

E pássaros sobre o juízo éramos pensando muito.

Que caminho maravilhoso se estendia como sendo o rio, que branco e cristalino se move. Havíamos achado uma pirâmide anterior às Aztecas ou Incas?

A imagem da montanha com arestas quase triangulares do município de Bacamarte nos invadia e nos fazia crer estarmos em terras de um antigo reino ou civilização.

Será que a localização dessa montanha formaria um triângulo eqüilátero com as pirâmides do México e do Egito? A vontade que nos afligia agora, era de cavarmos com as próprias mãos o sopé da montanha piramidal.

Continua...

sexta-feira, 20 de março de 2009

pAÊBIRÚ (pARTE 2)


POR LULA CÔRTES

Comemos alguns cogumelos secos que encontramos. Não tínhamos água e uma forte emoção pairava sobre tudo. Um forte silêncio enchia a claridade, e dali por diante seriam as pedras, os lagartos, as cobras e as urtigas.

E como são elétricas as urtigas.

A informação parecia estar correta. Achamos o regato e acompanhamos o sentido do seu caminho. A água era clara e bastante salgada. E entre as rochas de formações vulcânicas, escorrendo leve e fria, ela descia conosco e nos refrescava o rosto e a boca, seca e sem saliva.

A irrealidade se apossava cada vez mais dos nossos corpos e de nossas mentes, e toda a lenda que nos havia enchido os ouvidos até aquele dia parecia florar em tudo.

Nas sombras raras onde descansávamos, nos maribondos e nas borboletas, e na nossa pele que se avermelhava ou se coloria com os primeiros símbolos que encontramos, claros e bem gastos dentro de uma loca.

Começamos a andar melhor sobre as pedras. Já sem os sapatos, éramos como os índios, e a medida que nos compenetrávamos disso, sabíamos mais onde procurar os escritos. E achamos vários.

Muitos quase findos. A água secular levou consigo muitos dos seus relevos e segredos. Éramos como os índios? Ou estranhos seres primitivos ou sem idade?

E como loucos assim achamos estrelas de um relevo mais forte.

Como pequenos sóis, elas estão talhadas na rocha de ferro vulcânico. Como se cunhadas por estranhos raios ou ainda gravadas por enormes homens.

Com um papel na mão subi a uma pedra que se punha ao lado da estranha constelação, e constatei que se assemelhava muito a Órion, constelação esta que nos escritos dos mapas estrelares dos astrólogos, regem os signos ligados à Terra.

Antes mesmo que falássemos das nossas assustadas conclusões, os olhos eram novamente surpreendidos.

Estávamos em pleno templo e olhávamos em volta felizes. Zé (Ramalho) foi andando como quem voa e encostou o rosto na pedra quente, e me chamava dizendo:

"É aqui, a pedra está VIVA!".




Continua...

tIGER fEET*


*Segundo do Tiger B. Smith:
We're the Tiger Bunch. Tão legal quanto Tiger Rock só que mais "colorido". A dadaística capa é obra à parte.










quinta-feira, 19 de março de 2009

pAÊBIRÚ (pARTE 1)


POR LULA CÔRTES

Todos os sóis do universo imenso, parece que brilhavam sobre nós naquele instante: seis léguas de sol e caatinga já havíamos andado desde ITABAIANA, a cidade mais próxima. O caminho de barro vermelho, esburacado e seco, banhava de poeira os mandacarus e arbustos de espinheiro, espalhando em tudo os tons de fogo, aumentando alucinadamente a sede e o calor.

Novamente a estrada se dividia, e nós nos decidimos por intuição, ao caminho da direita. Depois soubemos a resposta afirmativa: chegamos a Ingá do INGÁ DO BACAMARTE, pequeno povoado aos pés de uma montanha de arestas desgastadas como uma pirâmide antiga.

Nós caçávamos o passado, e os corações se encheram de esperança com aquela visão. Conversamos com os nativos que limpavam umas quadras de roça. O caminho que havíamos abandonado mais atrás era o de PEDRAS DE FOGO, outro pequeno aglomerado quase sem nenhuma chance de vida.

A água e muito escassa. Conversávamos sobre as pedras. E ao longo, no horizonte agora curto, o lombo prateado da BORBOREMA desenha curvas leves, demonstrativas de sua imensa idade.

A CUPAOBA - como a chamavam os CARIRÍS guerreiros que habitavam aqueles vales há muitas eras. Os nativos tinham mapas no rosto, e o sol lhes rachou os lábios como racha a terra, as pedras duras e afiadas que dificultam a caminhada, lhes endureceu o riso.

Quase sempre calados com os olhos brancos e fundos, eles aos poucos se aproximavam de nós e começavam a nos falar de lendas e de pedras pintadas deixadas pelos índios. Falavam do rio que atravessava o vale, o qual não tinhamos visto ainda, e à medida que contávamos o motivo da nossa estada ali, eles achavam muito estranho.

Um dos homens mais velhos informou enfim o destino que deveríamos seguir: mais cinco léguas por outra picada na caatinga, e quando encontrássemos um eucalipto grande dobrar à esquerda na última porteira branca. Lá se acabava para o carro todo o acesso, e os lajedos iam ficando mais freqüentes. O resto faríamos a pé.

Continua...

*A foto foi tirada no dia em que conheci Lula Côrtes. Em Casa de Pedra (espécie de comuna cultural encravada em Recife) - ambiente no qual se deu a concepção artística de Paêbirú. Algumas locações importantes de Nas Paredes da Pedra Encantada têm a casa como ambiente

íDOLO pOP*

Viver é um afago.

Hoje, como em todas as quintas, das 20h às 21h, vai ao ar na rádio Ipanema - 94.9 FM (ou www.ipanema.com.br) -, o programa Ping Pong!

Apresentado por Zelmo Swift, Pancho e Bam Bam, com agradáveis intervenções de mais um monte de gente da rádio e convidados, a pilha do programa é tocar sons bizarros, pouco conhecidos, toscos, de criadores geniais e subestimados, curiosidades, lados b ou o que bem passar pela cabeça dos caras!

E para regozijo geral da nação psicodélica desse mundão astral, o programa de hoje terá como convidados os mestres que estão na fotinho catêga aí de cima: Léo Bonfim e Plato Divorak!

Sim, PLATO DIVORAK, o mestre absoluto da psicodelia, bicho! Estará contando suas aventuras com dragões, alienígenas e pin ups desfiguradas, e apresentando seu novo lançamento, o disco "Vulcão de Preciosidades".

E além de ir lá pra tocar um som com o Plato (pois faz parte da banda dele, os Exciters), o carioca acochambrado em porto alegre Léo Bonfim vai também para falar sobre o filme que está finalizando, cuja direção divide com o jornalista Cristiano Bastos (o Terréks).

A pepita cinematográfica que estão para lançar chama-se "Nas Paredes da Pedra Encantada" e é um road movie que acompanha o músico Lula Côrtes em uma viagem de volta ao templo natural que inspirou o disco Paêbiru, que realizou em 75 com Zé Ramalho - e hoje é o vinil mais caro e raro do Brasil.

Não Perdam!

Pra viajar no cosmo não precisa gasolina (by Nei Lisboa)


*Plato - "nosso Rocky Ericson predileto" - terá participação especialíssima/artística no filme. Aguardem! Safadeza...

Who's Next?