sexta-feira, 30 de abril de 2010

gAUCHISMO fREAK*

*O fotógrafo porto-alegrense Eduardo Aigner já clicou: ruas, prédios, gatos, panelas, pedras, fábricas, amigos, namoradas, folhas, personalidades, paisagens, tempestades, atores, árvores, campos, cavalos e... gaúchos.
Aigner estudou arquitetura para, a seguir, descobrir a fotografia. Após atuar durante anos no caderno Arquitetura & Decoração do jornal Zero-Hora, ainda transita em ambos os mundos.
Nessa sessão de fotos, cujo tema é a Semana Farroupilha (que leva milhares de gaúchos à catarse coletiva nos meses de setembro), o fotógrafo captura o "lado cafona" do festejo.
"Eu gosto de gauchismo de estância, enraizado, mas sou extra-crítico do gauchismo urbano. A Semana Farroupilha é uma piada que junta multidões".
Eduardo fotografa a comemoração - a qual chama de "ponto de encontro de doidos" - anualmente.
O "bando" se aglomera no centro de Porto Alegre para reviver o discutivelmente glorioso passado do Rio Grande Sul:
"Música, comida, vestimenta, dialeto. Esse pessoal até mora no parque ao longo de 20 dias! Constroem ranchos. Os admiro. Só não deixo de achá-los freaks pra caralho".
As fotos, no entanto, são de primeira.

domingo, 25 de abril de 2010

jIMI hENDRIX: uM mESTRE sEM dISCÍPULOS

POR CRISTIANO BASTOS - Especial para O Estado
Hendrix será sempre imbatível, mesmo porque as novas bandas não ligam muito para solos de guitarra
Califórnia, Estados Unidos, 18 de junho de 1967.
Clímax do verão do amor. No backstage do Monterey Pop Festival, os guitarristas Jimi Hendrix e Pete Townshend tiram cara ou coroa para saber qual banda sobe ao palco primeiro:
The Who ou Experience?
A face da moeda pendeu para o Who, que, literalmente, demoliu tudo com a estridência de "My Generation" - instrumentos, palco, amplificadores.
Diante tal espetáculo, o que qualquer guitarrista da face da terra poderia fazer para impressionar o público depois de um Pete Townshend no auge de sua forma?

Hendrix não deixou "pedra sobre pedra". Aliás, deixou o britânico "comendo poeira".

Engendrada nos três poderosos acordes de "Wild Thing", a performance de Hendrix é icônica. Talvez a mais grandiosa da história do rock e, com certeza, a mais majestosa.
Ao tocá-la, tirou um isqueiro do bolso, jogou o fluído sobre a guitarra, ateou-lhe fogo e fez lenda com sua Fender Stratocaster agonizando em chamas.

Em seguida, quebrou a guitarra em pedaços. Depois os distribui à pasma audiência.
Gesto que significou tanto a consagração como a destruição do solo (na próxima postagem assista as duas performances, filmadas por D.A Pennebaker).
Quarenta anos após a morte de James Marshall Hendrix, em 1970, o guitarrista é recolocado novamente em cena por força de lançamentos que, ao contrário de efemérides recentes como a dos Beatles, vem com combustível inflamável, bem ao gosto de Jimi Hendrix.
Em julho, a gravadora Sony vai reeditar o catálogo com quatro álbuns oficiais de Hendrix remasterizados:
Are You Experienced?, Axis: Bold As Love, Cry of Love (também conhecido como The First Rays of New Rising Sun, que vem com outakes) e Eletric Ladyland.
Os discos serão acompanhados de um documentário contando a história das gravações dos álbuns, com direção de Bob Smeaton, o mesmo que fez Anthology, dos Beatles.
E desde março, começou nos EUA a Experience Hendrix Tour 2010, com guitarristas como Joe Satriani, Kenny Wayne Shepard e o baixista Billy Cox, ex-parceiro de Hendrix.

Apesar de ter guitarristas de mãos cheias celebrando vida longa a Hendrix, os solos de guitarra não têm mais tanta importância.
As décadas que separam o guitarrista de Seattle de bandas insípidas como Vampire Weekend e Coldplay fazem perguntar, afinal, por onde andam as viagens em notas pelas quais Hendrix tanto batalhou?
As bandas se cansaram dos solos? Ou os jovens não querem mais ouvi-los?

Voltemos a Monterey. Se alguma vez na história houve um "duelo mundial de guitarristas", decididamente, a magna batalha foi travada na noite de 18 de junho de 1967, no palco do Monterey Pop Festival.

Colossal era habilidade de Hendrix, que, em meio ao caos sônico de "Wild Thing" (projétil proto-punk dos The Troggs), seus dedos ainda encontraram fresta para solar "Strangers in the Night", do old blue eyes Frank Sinatra.
Ainda que o rock revisite-se o tempo todo, em 2010 o estilo não mais se emoldura nessa "tela" de 40 anos atrás. O espírito, muito menos, é igual. Natural.
Nesses esdrúxulos tempos de Lady Gaga, as lições transmitidas pelo guitarrista, porém, ainda flamejam como em Monterey.
O fogo hendrixiano jamais esvaneceu. É perene.
Com deferência e idolatria, novas gerações de bandas, mundo adentro, retroalimentam o planetário fascínio por Jimi Hendrix.
Numa era movida a "hype", que, às vezes, se confunde com "rock", e de alta descartabilidade pop, surge o terrível dilema: a insígnea maior de Jimi Hendrix – o solo de guitarra – estaria reduzido a indolente cadáver?
A mais óbvia resposta seria a de que Hendrix, mesmo enterrado há quatro décadas, teria chegado a algum lugar do futuro com seu instrumento que até hoje guitarristas não conseguiram atingir.
"Ainda sinto 'emanações espirituais' de Hendrix toda vez que tocamos com o grupo Hendrix Experience Tour", diz ao Estado Billy Cox, baixista que tocou com Hendrix na formação Band of Gypsys.
Cox apresentou-se ao lado de Hendrix nos célebres concertos Live at the Isle of Wight e Woodstock.
Dentre todas as canções do amigo, elege a sensual "Red House", do álbum Are You Experienced?, de 1967, sua favorita – número que também era o predileto de Jimi.
O escaldante solo de guitarra do blues "Red House", segundo a antropóloga Priscila Borges, é perfeito para fantasiar eroticamente. Priscila revela que a melodia lhe atiça a libido:
"O solo inicial tem uma ambiência que me dá vontade de tirar a roupa. Cada vez que ouço "Red House" penso logo em tesão, paixão, sensualidade, mistério ou amor".
Sua canalha letra – que diz: "Cause if my baby don't love me no more, i know her sister will" (Porque se o meu amor não me ama mais, eu sei que a sua irmã vai) – só coloca mais "lenha na fogueira", confidencia a antropóloga.
Longe do sexo, outra resposta à crise dos solos pode estar na origem dos novos guitarristas. Jack White, ícone dos anos 2000 com seu White Stripes, é uma referência atual sem nunca ter colocado fogo em seu instrumento.

Apesar de ter técnica de sobra e atacar a guitarra com ferocidade, não dá a mínima a viagens hendrixianas.
Hendrix, por sua vez, bebeu em um lago que só fica mais raso a cada geração: o blues, gênero que fez existirem Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page.

"Nosso pai tinha uma imensa coleção de álbuns de artistas de blues. Jimi ficava ouvindo e estudando dia e noite. Em cada uma das audições, ele alimentava sua inspiração", conta Janie Hendrix, irmã de Jimi.

Ela lembra que, nos tempos de garoto, o irmão queria mesmo era se formar em publicidade e propaganda. "Ele adorava desenhar enquanto escutava os velhos bluesmen na vitrola."

Nativo de Seattle, cidade natal de Jimi Hendrix, nos Estados Unidos, o produtor Jack Endino (Mudhoney, Nirvana, Titãs) é um nome associado ao grunge – "salvação" do rock, nos anos 1990, tal qual o punk em 1977.

Endino sublinha que a genialidade de seu conterrâneo transcende o mise-en-scéne do solo.
Hendrix, para o produtor, sobretudo criou "O" padrão para tocar e gravar o som da guitarra: "Jimi realizou façanhas em estúdio que jamais haviam sido alcançadas antes".

Os predicados musicais de bandas do mainstream, como Franz Ferdinand e os The Strokes -para ficar em dois exemplos nem tão contemporâneos assim - resumem-se a timbres, batidas e riffs. E na canção em si, também.
Quase não há espaço para o solo.
Na verdade, na dinâmica pop de ambas as bandas não existe lugar para arroubos instrumentais solitários – tanto do guitarrista como dos demais instrumentistas.

O solo está fora de moda, Jack?

Ele é reticente, mas deixa pistas boas:
"Eu não sei... Só sei que estou indo assistir o show da volta do Soundgarden esta noite!", exulta.

Estranhamente, o canhoto e autodidata Jimi Hendrix aprendeu manejar sua guitarra Fender Stratocaster (para destros) invertendo as cordas do instrumento.
Antes dele, e do rival Towshend, além dos virtuoses Eric Clapton e Jeff Beck, solos guitarrísticos tinham valor mínimo na música pop sessentista.
O beatle Sir George Harrison é uma das exceções que se faz, embora não solasse heroicamente e, sim, para sortir com variedade sonora as composições do fab four.
O "toque de Midas" de Hendrix revolucionou, também, o instrumento, cujo manejo aperfeiçou com artifícios técnicos como o uso da alavanca e, especialmente, dos pedais fuzz e wha-wha.
Sozinho, "Ele" personifica imagem, semelhança e paternidade do guitarrista-solo. Ou seja: é o verdadeiro Deus da guitarra.
Lucio Maia, guitarrista da Nação Zumbi e do projeto Maquinado, conta que, desde criança seu estilo foi abençoado por tal divindade.
"Só ouvindo Hendrix compreendi o real significado do solo de guitarra", compartilha Maia, que lançou, recentemente, Mundialmente Anônimo – O Magnético Sangramento da Existência.
As "soladas" de seu mestre reverberam do início ao fim do disco.

Em 60 anos de rock'n'roll (levando-se em conta "Rocket 88", primeiro registro do gênero, gravado pelos The Kings of Rhythm, em 1951), as guitarras cansaram de sair e entrar em voga.
Nos anos 1970, elas se lambuzaram nas vertentes dos rocks progressivo/hard.
A ressaca veio na posterior década, com a invasão pausterizada dos sintetizadores que, por detalhe, não baniram as guitarras do código linguístico do pop.
Escura noite quase recaiu sobre o instrumento.

Turbinadas pelos excruciantes não-solos de Kurt Cobain, mártir grunge do Nirvana, nos anos 90 as guitarras voltaram a cena potentes.
Em 2010, outra vez, parece que o rock recrudesceu aos 80:
"Aqui no Reino Unido, as guitarras perderam novamente o lugar para os sintetizadores dos anos 80. É parte do revival que está rolando agora", contemporiza o baterista da da indie Shadow Riots, Gaylord Knott, de Manchester.

Do outro lado do Atlântico, no cerrado do planalto central do Brasil, o guitarrista do duo electro rock brasiliense Lucy and The Popsonics, Pil Popsonic, aposta que, se estivesse vivo, o inventivo Jimi estaria fazendo música no computador – ao invés da guitarra.
"Hendrix adorava experimentar com as tecnologias da época", observa Pil.
Não só os solos, mas, também, os riffs de guitarra ainda estão bem vivos no playlist da Rádio Cultura FM (100.9), de Brasília, no Distrito Federal.

De acordo com o diretor da estação de rádio, Marcos Pinheiro, Hendrix é nome fundamental na programação, que desfila no dial canções como "Hey Joe", "Purple Haze" e "Fire", além da nova "Valleys of Neptune".

Pinheiro não tem dúvida: "Os solos de guitarras fazem muito a felicidade dos ouvintes".

"O rock revisita-se o tempo todo. Chegará o dia em que os guitarristas haverão de ressurgir como solistas outra vez", prediz o ex-Ira! Edgard Scandurra, instrumentista canhoto tal como o ídolo Jimi Hendrix.

No século 21, representando a velha escola, Scandurra menciona o múltiplo Jack White, dos White Stripes, cujo "tímbrico" estilo de tocar mostra, também, vocação para solos e improvisos.

O fato de Jimi Hendrix, em 1966, ter se mudado para a Inglaterra (país em que, ironicamente, veio a morrer, aos 27 anos), onde finalmente foi descoberto pelo ex-The Animals Chas Chandler, tem como viés o extremo conservadorismo dos EUA.

Jimi foi parar em Londres, situa o baterista dos Shadow Riots, Gaylord Knott, porque, naquela época, a cidade era considerada a "mais cool do planeta" com a swinging london e as loucuras de Carnaby Street.

"Hendrix era um jovem negro, chocante e desafiador. Seu estilo de tocar e de solar era extravagante demais para a caretice norte-americana", critica Knott.
Diretamente, assume o baterista, o som mezzo eletrônico dos Shadow Riots não refulge reflexos hendrixianos.

Porém, segundo ele, estão lá:
"É impossível ter uma banda de rock, tocar guitarra e não ter sido 'tocado' por Jimi".
Na opinião da vocalista da banda Loomer, Liege Milk, de Porto Alegre, no sul do Brasil, diz que as levas de bandas, no mundo todo, praticamente aposentaram os solos de guitarra.
"De certa forma, isso é ótimo: na realidade, um grande desprendimento", condera Liege, que também é baixista.

O som da Loomer tem vocação para o "barulho", portanto, a baixista reconhece que, graças a Jimi, guitarristas "nonsense" como J. Mascis, do Dinossaur Jr., também tiveram sua vez na história do rock.

"Não temos cacife pra solar. Pensamos em elaborar mais as bases mesmo e os riffs que conversam entre si", diz o jovem Andrio Maquenzi, guitarrista da banda gaúcha Superguidis, que acaba de lançar seu terceiro CD.

Fernando Catatau, cabeça da banda Cidadão Instigado, guitarrista e produtor ícone da nova geração de cantores e compositores que surgem em São Paulo, vai no mesmo tom.
"Ainda tem bandas muito voltadas para o solo, como Mars Volta. Mas é um lance que, na real, foi largado. Antigamente, era todo mundo solando. Hoje, os solistas são do segmento da música instrumental. Os grupos capricham mais nas bases."

Se a guitarra vive dias de ressaca, o que explicaria então o sucesso mundial de um jogo como o Guitar Hero, em que a graça é fazer o solo dos grandes mestres o mais fiel possível ao original, usando uma guitarrinha de plástico?

O músico Gustavo Martins, do Ecos Falsos, faz a associação.

"O solo clássico, aquele momento em que a banda para e o guitarrista tem seu momento de glória, caiu mesmo em desuso com o fim dos rock stars. Na maioria dos casos também, convenhamos, não era nada que servisse à música: era mais um negócio de 'eu consigo, você não'. Daí o sucesso do Guitar Hero e do Rock Band, que permitem às pessoas experimentar essa egotrip."
De volta à Inglaterra (onde começou toda essa história), o guitarrista Frank Gannon, a frente do power trio de surf-garage que leva seu nome, exclama com veemência – por e-mail.
"Não, o solo não morreu!"
Para Frank, é Chuck Berry nos anos 50, Jimi nos 60, Ry Cooder nos 70, Stevie Ray Vaughan nos anos 80, Kurt Cobain nos 90 e e Jack White agora.
"Enquanto houver bandas tocando ao vivo e um garoto enfiado no quarto aprendendo a tocar guitarra, o solo estará lá: eles saem da alma e do coração, crus e sem controle".

sHAKE iT: wILD tHING x mY gENERATION



yOU mAKE mE eVERYTHING...gROOOVE

sábado, 24 de abril de 2010

"fOI cOMO 'aLICE nO pAÍS dAS mARAVILHAS'"*

"Quando ouvi Jimi Hendrix pela primeira vez, eu estava tocando na banda The Bitter End, que deixei para formar o grupo Fein, o qual Raul Seixas contratou para a gravadora CBS.
Eram os tempos do Raul produtor, no Rio de Janeiro.
Antes de me mudar em definitivo para o Brasil, assisti Hendrix ao vivo em três oportunidades. A segunda foi na Faculdade do Alabama.
Nessa noite tomei o primeiro LSD de minha vida. O show foi como 'Alice no País das Maravilhas'!
O som da Fender Stratocaster de Hendrix ganhara vida própria: era tão alta e cheia de cores que nunca mais na vida tive experiência igual.
Anos depois, gravei Krig-há Bandolo! com Raul Seixas, em 1973. Era sempre uma briga entre eu e os engenheiros de som. Eles achavam que eu tocava alto demais.
Sempre me mandavam baixar o volume. Na preparação para o solo da música 'Al Capone', eu faço uma citação de "Fire". É só ouvir bem.
Na terceira vez, quando vi Hendrix tocar em Atlanta, alguns caras na platéia ficavam gritando insistentemente:
'Toca Purple Haze!, Toca Purple Haze!
Hendrix se cansou e respondeu ao microfone:
'Vão todos à merda! Hoje vocês vieram aqui para me ouvir tocar o blues. Se querem ouvir 'Purple Haze' vão comprar o disco. Isso foi o passado, mas agora ninguém sabe o que será da guitarra no futuro'.
Ninguém deu mais nenhum pio, e o concerto foi inacreditável".
*Jay Vaquer é guitarrista e ex-cunhado de Raul Seixas, que era casado com Gloria Vaquer (atual Sky Kyes), sua irmã. Nos anos 1970, ele assinava Gay Vaquer", nome que, por óbvios motivos, mudou para Jay Vaquer.

lONG pURPLE dICK

O fogo de Jimi Hendrix continua ardendo num sem fim de lançamentos inéditos e reedições. O mais importante deles, é o recente álbum Valleys of Neptune, que congrega 60 minutos de gravações semi-inéditas.
Todas as músicas foram, oficiadas originalmente pelo engenheiro de som de Jimi, Eddie Kramer,
que cuidou da remasterização de canções como "Bleeding Heart e "Sunshine of Your Love", do Cream.
Mas, Jimi também volta à ribalta, não exatamente, pelo caminho das notas musicais.
Suas supostas proezas sexuais serão reveladas no DVD Jimi Hendrix: The Story Of The Lost Sex Tape, cujo lançamento é previsto para maio.
Bombástico, o vídeo promete mostrar 11 minutos de cenas pornográficas, as quais teriam sido protagonizadas pelo herói da guitarra e por duas groupies.
De acordo com semanário musical New Muscal Express, os autores do filme asseguram que descobriram as imagens num leilão, em 2007.
Em meio à polêmica suscitada pelo DVD, a ex-groupie e artista plástica Cynthia "Plaster" Caster (que moldava em gesso os membros dos rock stars com os quais dividia a cama) saiu em defesa da veracidade do filme.
Bem familiarizada com a "anatomia" do astro, Cynthia garante que o "instrumento" - para o qual ela deu o apelido de "Long Purple Dick" - exibido no bizarro vídeo pertence, de fato, a Jimi.
Veja o trailler e tire suas conclusões (proibido para menores de 18anos!).

Valleys of Neptune

quarta-feira, 21 de abril de 2010

vIVE lE fLESH nOUVEAU! (vLFN!)

Seita inclinada à direita prega trepanação, exaltação à carne, trapaça punk, fornicação interplanetária e hostilidade estética como preceitos religiosos
Mas a questão é: você toparia se converter a uma crença que se diz a mando de entidades espaciais, que preconiza uma nova carne e cuja proposta de elevação espiritual é um buraco no crânio? Se, por diabos, sua resposta foi "sim, eu me converteria", então, é certo que há um lugarzinho guardado para você na seita jovem Vive Le Flesh Nouveau! (VLFN!). Se achou apenas outra sandice desses tempos de demência generalizada, saiba que, ao menos, um grupo de lunáticos aposta todos seus níqueis nisso.
Como ocorre na maioria das seitas, VLFN! começou com o velho clichê: um chamado. Segundo Marcel B-Venão, ministro iconoclastra da religião, precisamente com a perturbadora fita Videodrome – A Síndrome do Vídeo, do diretor canadense David Cronenberg. Uma força sobrenatural apoderou-se do filme: "Sabe aquela cena em que a barriga de Max Ren (James Woods) vira uma espécie de vagina esgaçada, depois um videocassete e a sua mão direita transforma-se numa arma de fogo? Houve um "pause"; foi quando Ren tomou de assalto minha mente.
O sujeito "videoabduziu-me", garante B-Venão. Com o indicador em riste, o ser encarnado na imagem ordenou: "Fostes escolhido para criar Vive Le Flesh Nouveau! – a simbiose entre a carne e os raios catódicos. Conduza o homem ao próximo estágio evolutivo", instruiu a imperativa voz. "Nos comunicamos por meio de vídeo-tapes gravados", confidencia o pastor.
VLFN!, explica o líder religioso, é obra de entes extraterrenos conhecidos como zeta-reticulianos. Ele diz contatá-los de quando em quando. Descreve-os como cinzas, baixos, altura entre 1,20 a 1,40m, crânio grande e pelado e olhos rasgados - tipo japa. "Eles têm grande domínio da telepatia e integram uma mente grupal sui generis. O propósito dos reticulianos, e portanto de VLFN!, é o domínio da humanidade".
Embora frequentemente confundidos com grupos de arte contemporânea (foram capa do mais cultuado suplemento de cultura do país numa reportagem sobre a(r)tivismo), eles negam a pecha e cagam pro lance: "A única verdade nisso tudo", confidencia B-Venão, "é que também nos indentificamos como um levante contra o sistema cultural e contra aquilo que denominamos de 'arrrte'". Por isso, eles também são adeptos do que intitularam "marketing vilipendioso".
Uma das formas utilizadas por VLFN! pra difundir suas mensagens niilistas, são t-shirts francamente plagiadas da estilista britânica Vivienne Westwood (esposa do sujieto que forjou os Sex Pistols, Malcom MacLaren). As camisetas vêm estampadas com frases imperativas, sempre seguidas de uma exclamação: "Trepe nas ruas!", "Não há limites para nossa total ausência de leis!", "Pleonasme-se ou morra!".VLFN! também é a favor da bebedeira desenfreada, dos atos gratuitos e do sexo pelo sexo.
No texto "Chute o traseiro dos alternativos", declaram sua aversão aos alternas, esportistas cosmopolitas, publicitários, cineastas, clubbers, onanistas da arte e a arte em si e conclamam a "todos aqueles que partilham desse sentimento para que, ao topar com um desses blasé passeando pela rua de mãos dadas com a sua namoradinha escrava da moda, que os encurrale, chute o traseiro de ambos e os sujeite a cruéis brincadeiras vis". No final, o mea culpa: "Flesh Nouveau! parte do pressuposto de que é possível – e bom –ser facista quando isso for pragmático para você. Vamos desconstruir tudo que a humanidade já edificou. A arte é o próximo alvo", postulam.
B-Venão entrega que os reticulianos possuem uma quedinha pelas libertinagens humanas: "É, os caras são chegados, sim, à famosa fubangagem terráquea". Às vezes – somente às vezes –, ele admite que satisfaz alguns desejos de Ren chicoteando sua TV 16 polegadas, que se contorce e soluça de prazer. O sinal vem de longe, da estrela Zeta-Retículi. Uma trepada, portanto, a cerca de um bilhão de anos-luz.
O ministro B-Venão esclarece o papel do levante: "O trabalho de VLFN! é monitorar dispositivos (chips) implantados pelos reticulianos nas mentes de certos humanos escolhidos ainda na infância. De tempos em tempos os revisamos, sem que se deêm conta de que estão inteiramente envolvidos e submissos". Graças ao congraçamento com os reticulianos, em pouco tempo o pessoal do VLFN! acredita que poderá clonar a si mesmo, em úteros. E assim como os reticulianos, serão capazes de fabricar andróidesde aparência humana em massa para povoar o planeta terra.
A pré-estréia da seita foi celebrada com o culto Denúncia a Deus, em que VLFN! fez um "acerto de contas" com o Criador, o qual não estaria atendendo as "necessidades históricas de satisfação hedonísticas dos seres humanos". A novidade é que o protesto não foi feito em uma igreja de arquitetura ortodoxa, mas numa moderníssima igreja inflável (o novo hype religioso da Europa entre católicos descolados) onde, espremidos, cabem cerca de 60 fiéis.
O templo de látex já vem de fábrica com arcos góticos e janelas e afrescos góticos e pode ser comprado pela bagatela de U$ 35 mil: "Verdadeira pechincha", diz o ministro, que subiu ao púlpito de pvc da igreja vestido numa batina feita inteiramente de pele humana tatuada que arranjaram com a máfia japonesa de São Paulo. "Quem nos passou a pele foi um tipo chamado Wilson Amura, se não me engano. Apesar do jeito afetado, ele tinha os melhores preços do mercado".
Agora, a seita está programando uma nova ação, a III Trepanação Pública Flesh Nouveau!. A trepanação, um rombo feito no crânio, é considerada a mais antiga prática cirúrgica da humanidade. Em tribos da África do Norte (rifkabyla e hausa), o procedimento ainda é usado para aliviar feridas de guerra infligidas à cabeça e também para libertar demônios obsediadores. Nos anos 60, o médico, hipster e louco de pedra, Barth Hughs, descobriu que a trepanação também poderia agir como eficiente expansora da consciência.
Em 1965, Hughs concluiu que a iluminação não estava, coisa alguma, em nenhuma religião e, sim, num rombo bem no meio da testa. Hughs defendia que, eliminada a pressão craniana, podia-se aumentar o fluxo de sangue pro cérebro e deste modo conseguir um efeito lisérgico.Pra que tudo corra como planejado, Flesh Nouveau! anda distribuindo instruções aos seus fiéis, que no total já somam uns 29 indivíduos: "Recomenda-se que os trepanados (iniciantes ou não) venham munidos de sua própria instrumentação cirúrgica: perfuradora elétrica, escapelo e agulha hipodérmica, para administrar a anestesia local".
B-Venão exorta a todos: "Iluminem-se! Voltem a se sentir com 19
anos! Tenha a experiência mais mística da sua vida, depois da morte! Nós garantiremos a sua vida! Atestaremos a sua felicidade!". VLFN! aceita contribuições em grana. Contate-nos que te passamos o número da conta.
VLFN! alinha seus textos somente pela direita.

lONG lIVE tO nEW fLESH


fIVE mINUTES, pOR fAVOR*


*5 Minutos é a primeira aventura videodromológica da VLFN! Filmes, produtora que também finaliza o road doc Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o disco Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho (1974).
No ano de 1999 (11 anos!), eu, Carlinhos Carneiro, Daniel Lopes, Chicão Bretanha, Vinicius Tavares, Leandro Freda e Drégus de Oliveira tínhamos de editar um vídeo para cadeira de Cinejornalismo II, na Famecos (saca o clima).
Nossa simples missão era realizar uma convencional reportagem de 5 minutos, apenas. Mas a insanidade apoderou-se de nossas mentes. No final, montamos esse "Frankstein" completamente torto (e bem tosco).
5 Minutos ficou tão... "enviesado", que os professores o inscreveram no Festival de Cinema & Vídeo de Gramado daquele ano. Foi a zebra na categoria Experimental. Para as outras turmas, as professoras usavam-no como modelo de "não fazer".
O diretor Jorge Furtado, jurado que nos concedeu o Kikito - junto com os atores Stepan Nercessian e Lucélia Santos -, cotejou o filmito à estética de seu premiado Ilha das Flores (um exagero).
Contudo, nenhum de nós havia assistido, até então, o curta-metragem.
De fato, Carneiro encontrava-se borracho da cabeça aos pés, na parte em que comete sua espontânea, inesquecível, eterna fala:
"Estamos aqui, muito bem trajados, nos sentindo zen. Zen como nunca, jóvens como nunca! E agora andam parindo hippies por aqui!".
Sob impacto de 5 Minutos, Carlinhos e eu ainda escrevemos o roteiro de um filme sobre o qual nos debruçamos meses. Esse era para a cadeira do Carlos Gerbase, Cinejornalismo III.
O filme se chamava Os Matadores de Calças Justas, uma estória que narrava as andanças de dois magrões ("magrão" é a gíria sessentista, até hoje em voga, em Porto Alegre, que tira uma onda dos tomadores de pervitin, que é da família das metanfetaminas) fissurados em glitter e hard rock, à solta em Porto Alegre.
Lôcos de "Spaceball Ricochet" (boletinhas que circulavam entre uns poucos. na cidade...), os dois viviam situações inusitadamente nonsense na enregelante night de Porto Alegre.
Numa dessas, tinha a cena de uma argentina que discorria - às 3 e meia da manhã, no Bar Garagem Hermética -, num irritante castelhano, sobre Patty Smith e Lou Red. E, ainda por cima, totalmente embriagada.
Situação verídica: foi vivida por mim e pelo Carlinhos (meu alterego) no Bar Garagem Hermética, também às 3 e meia da matina de um sábado intensamente lisérgico. "Spaceball Ricochet" é a canção do T-Rex presente no disco The Slider.
Transformou-se na música "Spaceball", do primeiro álbum da Bidê ou Balde: Se Sexo é o que Importa, Só o Rock é Sobre Amor. Algumas de nossas aventuras com a substância são cantadas na letra.
O enredo de Matadores era tão "ambicioso", que, óbvio, não foi adiante. Mas está guardado para uma futura (re)visitação.
Tivemos de nos contatar com uma corruptela da ideia original: "Detonem o Japão!", filme no qual fizemos um mea-culpa de nosso absoluto fracasso como "videomakers".
É ruim, garanto. Mais é mais divertido que 5 Minutos.
A passagem do Daniel Lopes (na passarela da PUCRS), legendamos e editamos detrás-pra-frente porque nenhum de nós tinha a manha de fazer o troço direito. Então fizemos do jeito errado - mas acertamos. O texto legendado, sim, é uma farsa.
A sacada "Lych" dessa cena, logo depois a Bidê ou Balde usou no final do videoclipe de "Melissa", ganhador do VMB. "Cobwebs and Strange", número circense de Keith Moon (The Who), eu escolhi por, à época, estar descobrindo o maravilhoso - e poderoso - álbum A Quick One.
A mão que aparece sendo a de "Ana Maria Braga", é da Kátia Aguiar, a gainsbourguiniana tecladista da Bidê que não tocava desacompanhada de suas cigarrilhas Galois e de uma long neck. A Katia também era da nossa "tchurma" de faculdade.
Porém, o melhor - ou pior - ainda está por vir. Agora encontrei o VHS de nossa colação de grau, especial momento para o qual editamos, outra vez, um vídeo-agradecimento pela auspiciosa ótica do "detrás-pra-frentismo".
Lúdico detalhe: nos formamos todos sob efeito de LSD... Minha trilha de formatura, nunca esquecerei, foi "Victoria", dos Kinks. Só que na versão do The Fall. Uma viagem. Tenho até medo em rever-me/rever-nos. Breve no Youtube.
Spaceball (Bidê ou Balde)

sábado, 17 de abril de 2010

pAULO, jOÃO, jORGE e rINGO: tHE bITOLS

POR CRISTIANO BASTOS/ Estado de S. Paulo
Músicos do rock gaúcho aparecem em filme que satiriza a banda inglesa em noite dos anos 90
Em 1981, o longa-metragem Deu Pra Ti Anos 70, rodado em Super 8 pelo diretor Giba Assis Brasil, arrebatou crítica, e considerável público, com sua narrativa sobre encontros e desencontros da incipiente juventude urbana de Porto Alegre.
O filme tinha participações de artistas como Júlio Reny (Expresso Oriente), Augusto Licks (Engenheiros do Hawaii) e Wander Wildner (Os Replicantes), desbravadores da falecida sigla outrora conhecida como rock gaúcho. Quase 30 anos depois, Deu Pra Ti Anos 70 ainda é raro exemplo de pop fiction feita no Brasil.

Nesses tecnocráticos tempos - nos quais editar um álbum de rock tornou-se relativamente fácil -, a ficção pop, contudo, segue praticamente ignorada pelos cineastas brasileiros.
Em 2010, a exceção ao gênero, novamente, vem do Sul: o longa Bitols, recém-finalizado pelo coletivo gaúcho Cinema8ito com recursos financiados, em parte, pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre (Fumproarte).

As filmagens custaram em torno R$ 200 mil e começaram em 2004. Evidente troça com o nome do quarteto de Liverpool, Bitols enquadra uma noite dos anos 90 na vida dessa fictícia banda gaúcha, que tem em sua formação Paulo (Leo Felipe), João (Bruno Bazzo), Jorge (Leonardo Machado) e Ringo (Carlinhos Carneiro).

Os atores são bem conhecidos no circuito cultural da cidade: Leo Felipe foi proprietário do mitológico bar Garagem Hermética (palco no qual a Graforréia Xilarmônica fez seu show de estreia); Bruno Bazzeo toca na banda Destilantes; Leonardo Machado é ator da novela Viver a Vida. E Carlinhos Carneiro é mais popular como o frontman da banda Bidê ou Balde.

"Os Bitols fazem um som tipo art-noise-punk, só que eles são muito ruins. Facilmente poderiam ser chamados de "A pior banda do mundo"", ironiza Carneiro, que promete gravação do novo disco para junho.

O diretor André Arieta conta que escolheu retratar a década por tê-la vivenciado de perto, história que, segundo ele, estava se perdendo na memória audiovisual. Bitols, explica Arieta, recupera um período riquíssimo da cultura underground de Porto Alegre.

"Faltava um filme sobre rock feito de dentro para fora, sem frescuras e sem cinebiografia, embora de um jeito bizarro."

O bizarro está a cargo da montagem, ou melhor, da retorcida desmontagem proposta na edição do filme, que trilha a cartilha do Cinema Desconstrução encampada pelo coletivo: "É operar o avesso do cinema", resume o diretor, que cita como influência o marginal Meteorango Kid - O Herói Intergaláctico, do baiano André Luiz Oliveira.

A ficção conta também com aparições do músico Frank Jorge e do legendário Plato Divoraki, além de valer-se do tom documental ao desencavar imagens raras de bandas como Lovecraft, Tarcísio Meira"s Band e Colarinhos Caóticos.

Uma dessas preciosidades é o registro em VHS do primeiro show de Júpiter Maçã (Flavio Basso) quando ainda se chamava Júpiter Maçã Combo, em 1994. Em outra cena de Bitols, o produtor Gordo Miranda - Carlos Eduardo Miranda - enxovalha o cenário roqueiro daqueles dias.

A atriz e roteirista Bia Werther, que no filme faz a misteriosa Rita, revela que o mote de exibição do filme será nas salas alternativas e nos cineclubes. "Numa estratégia de guerrilha pretendemos chegar até o Acre."

O coletivo Cinema8ito possui também conexões com cineclubes de Paris e Tóquio. Ela explica: "Exibimos seus filmes e eles exibem os nossos. Assim, vamos tomando de assalto espaços que, para muitos, podem parecer inalcançáveis."

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

dEAD bOYS: aTROPELADOS pELO tEMPO*


POR CRISTIANO BASTOS
Se ainda restar uma única centelha punk flamejando no dia em que as profecias sobre o fim do rock se cumprirem, Young, Loud and Snotty não será olvidado em meio aos destroços.
Nem mesmo o descaso da Sire Records, cujo desinteresse pelo álbum praticamente o levou à proscrição do seu catálago, consegue abafar esse testamento de alta periculosidade sonora deixado pelos Dead Boys.
Lançado no levante de 1977, o álbum marca a estréia fonográfica da banda que, na verdade, era considerada intrusa na cena punk. Com agravante de não serem de Nova York, Londres ou, tampouco, Detroit.
A célula do grupo – Stiv Bators (vocais), Cheetah Chrome (guitarra) e Johnny Blitz (bateria) – vinha de Cleveland, no interior dos EUA, onde já horrorizavam com as formações Frankstein e Rocket From The Tombs.
Sobreviveram à pecha de punks caipiras e foram anunciados com o surrado clichê: "a resposta americana aos Sex Pistols". Até hoje, Young, Loud and Snotty soa como uma metralhadora carregada de projéteis mortíferos. Logo de cara, "Sonic Reducer" festeja a juvenilidade exorcitando microfonias.
"Ain't Nothin to Do", "All This and More" e "Down in Flames", alguns dos impiedosos murros desferidos nos 28 minutos do disco, prescrevem o receituário da banda: substâncias químicas, letras arrogantes e riffs durões. Estilhaços do estrago causado voaram longe – em Seattle, acertaram o Green River (núcleo do Mudhoney) e, no Brasil, botaram os Forgotten Boys no mau caminho.
A festa acabou em 1979. Bators montou o The Lords of the New Church, mas sucumbiu à exacerbação gótica, enquanto Chrome se deu mal com o Ghetto Boys. Em 1990, Stiv Bators é atropelado por um motorista bêbado na França.
Examinado, os médicos lhe deram alta (depois se descobriu que ele tivera um coágulo no cérebro). Foi pro hotel e adormeceu despreocupado, como um autêntico garoto morto.
NAZISMO LÚDICO
Niilistas, os Dead Boys tinham prazer em chocar a todos com suásticas nazistas. São famosas as fotos da suástica que o guitarrista Jimmy Zero esculpiu na púbis da groupie Eileen Polk. Eles também adoravam polemizar com Genya Ravan, judia e produtora do álbum Young, Loud and Snotty.
QUALUUDS
Bators não segurou a onda ao topar o seu herói, Iggy Pop, em uma espelucunca de Nova York. Pancadão de qualuud, apagou com a cara enfiada em uma tigela de sopa. Uma das suas glórias pessoais foi "ser o cara que alcançou o pote de manteiga de amendoim para Iggy" se bezuntar durante a histórica performance de em "I Feel Alright" (ou 1970), na qual o iguana põe-se de pé, soberano, sobre o público de Cincinatti, em 1970.
NADA FÁCIL...
"Alguém me disse pra ir no CBGB's pra ver a melhor banda do mundo, os Dead Boys. Então fui lá uma noite quando eles estavam tocando, entro e a primeira coisa que vejo é Stiv Bators sendo chupado no palco por uma garçonete. A primeiríssima coisa". (Bebe Buell, groupie e mãe de Lyv Tyler)
Loung, Loud and Snotty/ Dead Boys/ Sire (1977)/ Relançado, em CD, pela Warner Bros em 1992/ Inédito no Brasil/ Ouça:
I Need Lunch
*Revista Bizz

sONIC rEDUCER





sábado, 10 de abril de 2010

rETRATOS dO bOÊMIO

1 - A cara do Henry Chinaski
2 - Família Gonçalves Sobral (Nelson na bicicleta)
3 - Ídolo do rádio nos anos 1940
4 - Conferindo a loteria esportiva
5 - Com os filhos adotivos após sua prisão em 1961
6 - Fichado
7 - Casamento da filha Marilene Gonçalves na década de 1960
8 - Primórdios da TV
9 - No ringue: seu habitat fora dos palcos
10 - Abraçando o amigo Eder Jofre
11 - Na parceria com Chico Buarque
12 - O fã Silvio Santos
13 - Traje de gala
14 - De olho na Chacrete
15 - Malandragem

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sUPERfUZZbLUESgLITTERrOCK'n'rOLL

*Simplesmente impossível topar com uma banda dessas (sem nunca na vida ter ouvido falar) e não ficar curioso para saber: "...Que diabos?!" A capa dá pistas, mas o melhor jeito é abrir a "Caixa de Pandora"...

E o que há lá dentro? Tiger Rock, álbum do power-heavy-trio Tiger B. Smith. São de Frankfurt, na Alemanha. Gravado em 1972, o disco foi editado pelo selo Vertigo em 1974. No Brasil, Paêbirú; na Alemanha, Tiger Rock!
O som é barulhento, sujo e pesado. Altamente recomedável. É o Queens of Stone Age de 30 anos atrás. Ou: West, Bruce & Laing soando com a veemência orgânica de um Slade Alive. Ou ainda: Sir Lord Baltimore, Stooges, Grand Funk Railroad, Guess Who e Cheap Trick cozidos na mesma fervura.

Tiger Rock (1972)



segunda-feira, 5 de abril de 2010

aRE tEENAGE dREAMS sO hARD tO bEAT

Teenage Kicks (1978)


*O radialista John Peel, criador das célebres "Pell Sessions" (na Radio1 da BBC de Londres), dizia que "Teenage Kicks", dos Undertones, era sua canção predileta de todos os tempos. E foi a música que tocou em seu funeral, em 2004. Mais de 30 anos depois, uma coisa é certa: seus dois minutos e meio de pop perfeito são para sempre.

domingo, 4 de abril de 2010

cHICO xAVIER: dETETIVE dO aLÉM*

TEXTO DAVID NASSER / FOTOS JEAN MANZON

Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever. Terminando, disse, apenas, à família assustada:

- "Não fui eu. Alguém me empurrava a mão".

Desde esse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossego e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço-profeta. Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pode sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fôsse só isto. Era mais, muito mais. Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens. O representante da editôra insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.

As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.

Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo. Não nos interessa, embora pareça estranho, o medium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados - ou não psicografados - já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se ele é inocente ou culpado dirão os juízes. Se êle é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.

Se os espíritos nos ouvem, eles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sobre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com êste pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier.

Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extra-terrena mostrar-se absolutamente complicado. Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura:

"É Chico Xavier um impostor ou não é?" E dirá: - "Não conseguiram desvendar o mistério!" Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segredo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura.

A frase de uma vizinha define melhor: - "Sabe, moço? O Chico é um amor". Justamente dêsse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo. Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.

O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é dactilógrafo. O motorista não quer entrar. - "Aí, não. Até os zebus são atuados". O diretor, Rômulo, está na horta, sòzinho. Ele nos dará, talvez, esclarecimentos sôbre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu "não" é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dele, diretor, dar umas férias a Chico. - "O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico". Apresentadas as despedidas, êle adverte: - "Não creio que será possível aos senhores um encontro com êle. Creio que vão esperar até sexta-feira".

Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. - "Onde fica a casa do Chico Xavier?" O menino aponta a igreja. - "Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família". Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: êle. Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Êle só podia ser êle. - "Minha irmã foi curada por êle".

Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vêzes vem passar semanas com o medium. - "Gosto de falar com êle. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, "O homem, êsse desconhecido" e êle não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para êle. Seu único amor é o espiritismo".

Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos. Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.

Chico parecer ser um bom sujeito. Suas ações, mesmo fora do terreno religioso pròpriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos. Vão dizer, os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim. Sei de um que não teve dúvida em abandonar a espôsa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.

- "Na rua, entre seus irmãos de seita, - disse-me um dos filhos - êle se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.

Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa. Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Sòmente o Chico vai lá, fazer companhia ao garôto, às vêzes uma noite inteira.

- Chico!
- Que é, meu senhor?
- Você lê muito?
- Não. Só revistas e jornais.
- O outro disse...
-Disse o quê.
- Nada.

Ele nos olha, surpreso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:

- Você, não pensa em se casar, Chico?
- Eu, casar? (Dá uma gargalhada) - Claro que não.
- Não namora?
- Nunca.
- Por que?
- Não há razões. Não gosto. Tenho outras preocupações. Ora, eu namorando... Tinha graça...
- Chico...
- Que é?
- É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?
- Ele disse pra eu ir à igreja discutir. Não é lugar próprio.
- Você gosta do padre, Chico?

E ele, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:

- Ué, eu gosto do padre, mas ele não gosta de mim.
- Chico...
- Que é?
- Onde estão suas mensagens?
- Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.
- Você vai ao Rio?
- Até agora, nada resolvemos. Possìvelmente, mandarei uma procuração.

Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde êle recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emanuel, guia de Chico, lá estava. Quem é Emanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sôbre a terra, naqueles tampos de há dois mil anos.

- Ele dita?
- Vou psicografando as mensagens. Há outros mediuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.
- Chico...
- Que é?
- Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?
- Homens célebres?
- Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?
- Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a terra. Ele disse: - "A vitória da fôrça é fictícia".

O cavalheiro do Rio acode:

- E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Ele disse, categòricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.

Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal. A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro.

Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas. Depois, sua irmã solteira faz o café, que êle toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou. Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina. Volta para almoçar às onze horas. O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão.

Sua vida é frugal. - "Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados".

- Peregrinos?
- Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consôlo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite. - "Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando..." Evito atender, mesmo constrangido. Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquêle Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...
- Impossível a viagem de volta...
- Impossível? Não, não é impossível. Eu voltarei a ser aquêle sossegado Chico. Não tenha dúvida.
O repórter imagina, a essa altura, que ele acredita na possibilidade de suas comunicações, com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de cor negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.

- "Trago para o senhor, Seu Chico..."

Ele segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Ele sorri e devolve o menino à mãe.

- Meu sobrinho - explica o profeta Chico - é nervoso e fica dêste jeito. Sabe por que? Ele sofre de paralisia infantil.
- Não tratam dele?
- Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, sòmente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.

Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei porque os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra conta a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Alan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.

- Quem toca pandeiro nesta casa?

Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é ele.

- Alguns espíritos?

O sorriso beatífico desaparece.

- Os espíritos não tocam pandeiro.

Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade. Será orgulho pela celebridade que ele deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dele, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu sùbitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz.

A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Ele não se importa. Não procura convencer ninguém à força de seu estranho e discutido poder. Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. - "Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!" E não deu mais importância ao caso.

Até à volta, sereno Chico. De todas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio. Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo: - "Castigo, sim, nhô moço... Antão, êle telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?"

Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: - "Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?"

Ele, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que êle não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fôsse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.

*Revista O Cruzeiro, 12 de agosto de 1944.

Cobras criadas, o jornalista David Nasser e o fotógrafo francês Jean Manzon (foto) viajaram secretamente a Pedro Leopoldo (MG) com a missão de "desmascarar" o misterioso médium Chico Xavier, e entrevistá-lo.
Em 1944, a família de Humberto de Campos movia uma ação contra Xavier por causa das obras supostamente psicografadas que andara publicando como sendo de autoria do falecido escritor.
Nasser fingiu-se de estrangeiro para abordar Xavier. A estratégia serviria para testar se o médium comunicava-se, de fato, com espíritos - os quais, supostamente, delatariam o repórter.

A história contada pelo jornalista, como tudo o que escrevia, é controversa. Mas, do ponto de vista jornalístico,
não existe contraponto: é dos maiores textos do jornalismo brasileiro.

Personalidade malandra, David Nasser - além de águia da grande reportagem - foi co-autor, ao lado de Herivelto Martins, de músicas de sucesso na voz de Nelson Gonçalves (e de uma porção de cantores da Era do Rádio): "Hoje quem Paga sou Eu", "Camisola do Dia", "Francisco Alves", "Vermelho 27", "Carlos Gardel", "Serpentina".

Recordista absoluto dos estúdios, o Metralha cantou uma letra "além-túmulo" psicografada por Chico Xavier. A canção é "Maria e Mais Nada" (ouça), do álbum Quando a Lapa era Lapa, de 1970.

"Barreto Pinto Sem Máscaras", outra reportagem de David Nasser, deu muita polêmica. Nela, o deputado federal Barreto Pinto deixava-se fotografar numa banheira em seu gabinete vestindo fraque, cartola e sem calças (de cuecas samba-canção). Barreto foi cassado; Nasser ficou popular.

Em 1963, foi agredido pelo então deputado federal Leonel Brizola no Aeroporto do Galeão, Rio de Janeiro. Irritado com um artigo publicado em O Cruzeiro, no qual lhe fazia pesadas ofensas, o velho Brizola partiu aos socos para cima do jornalista.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

gUITARRAS (e bAIXOS) eM pEDAÇOS

POR CRISTIANO BASTOS

É incerta a origem da Mail Art (Arte Postal), mas a peça de Marcel Duchamp, "Pode Bal Duchamp" - um telegrama postado em primeiro de junho de 1921, de Nova York para Paris, consagra o dadaísta como desbravador na apropriação do sistema de correios para a difusão artística.

Intraduzível, o texto do telegrama traz a mensagem "Peau de balle et balai de crini", um comunicado a Tristan Tzara no Salão Dadá, que se realizava na galeria parisiense Montaigne.

A complexa rede de Arte Postal, que se formou ao redor do mundo, despontou somente na década de 1960. A maioria dos participantes eram egressos do grupo novaiorquino Fluxus, do qual fizeram parte nomes como George Maciunas, Yoko Ono e o músico experimentalista John Cage.

Liderados pelo lituano Maciunas, o fluxistas defendiam o fim da cultura comercial e conservadora e da arte dos museus. Se a proposta do Fluxus era a insurgência contra o stablishment artístico, o fluxista Geoffrey Hendricks, porém, acredita que, com sua chegada, a arte não foi afetada, tampouco mudou.
A arte, nas suas palavras, estará eternamente subordinada a uma "maquiavélica" força: Great Art Structure - a Grande Estrutura da Arte:
"Essa estrutura tem o poder de cooptar idéias, de acomodá-las, obscurecê-las, negá-las e destruí-las. Não só o Fluxus, mas muitas das grandes forças artísticas radicais do século 20 foram mortas por essa entidade".

As conclusões do norte-americano são respaldadas pela crítica de arte francesa Muriel Caron. Conforme Muriel, vanguardas como Dadá e Futurismo, que acreditavam poder revolucionar a arte, assim como as neovanguardas dos anos 60 - a exemplo do próprio Fluxus e da arte conceitual -, ainda tentaram escapar ao estigma de simples produtos culturais.

Todas, entretanto, foram reabsorvidos pelos museus e pelo mercado das artes: "Cedo ou tarde, essas rupturas foram reintegradas à história oficial da arte e às instituições culturais", ela situa.

O dilema da obra de arte, hoje em dia, entende Muriel, é claramente colocado. Tendo se perdido ou se afastado de sua aura original, ela tornou-se item dentre tantos do "entertainment":

"A única margem de subversão que as obras possume, atualmente, é a possibilidade de se posicionarem de forma diferente, principalmente lá onde não se espera: no imprevisível".

MAIL ARTE - No Brasil, o artista multimídia pernambucano Paulo Bruscky foi reconhecido "trabalhador" na filamentada teia de Arte Postal, com ramificações pelo mundo todo. Bruscky guarda o maior acervo Fluxus do país, com mais de 150 obras.

Ligado às ações vanguardistas e ao experimentalismo desde os anos 70, o artista manteve correspondência regular – ainda que patrulhado pela ditadura – com os excêntricos ativistas da Correspondence School. Dentre eles, Ana Banana, Genesis P. Orridge (um dos inventores da acid house) e Pauline Smith – essa perseguida por liderar na rede um fã-clube de Adolf Hitler.

O que melhor identifica a Arte Postal, explica Brusky, é seu caráter não tradicional: um processo evolutivo decorrente da veloz mutação dos meios de comunicação. No princípio, com os correios (telex, telegramas, cartas, postais, selos e assemblagens); em seguida também nos formatos de Arte Telefônica, Fax Arte, Arte Computadorizada e outras "ultrapassadas" mídias.
Para o pernambucano, a Arte Postal conseguiu romper mundialmente todas as barreiras institucionais da arte e da cultura e levou à tona o subterrâneo:
"A Arte Postal é anti-sistema, anti-comercial e anti-burguesa. Tanto que quase toda 'crítica de arte' passou às brancas nuvens, ignorando sua existência por muito tempo. Agora corre em busca do tempo perdido", provoca.
Substituiu, também, os museus e as galerias, espaços de exposição, na opinião de Bruscky, caducos: "A Arte Postal surgiu num momento em que a arte oficial estava cada vez mais comprometida com a especulação do mercado capitalista e com a exploração do artista. Uma realidade que beneficiava uns poucos: marchands, críticos e galerias".

NERVO ÓPTICO - Em Porto Alegre, a conjuntura retratada por Paulo Bruscky (da busca de linguagens e de novos locais para exibição de arte contemporânea) foi contestada por um grupo formado por jovens artistas: o Nervo Óptico.

Na década de 1970, o Nervo Óptico chegou a utilizar expedientes da Arte Postal como alternativa de veiculação artística. Surgido em 1976, em encontros realizados no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs), o Nervo Óptico, esclarece o fotógrafo e artista plástico Clovis Dariano, "confluia pessoas em comum, que tentavam fazer algo para romper o vicioso círculo de amostragem da época".

Dertre os quais, Carlos Asp, Mara Alvares, Telmo Lanes, Carlos Pasquetti e Vera Chaves Barcellos. Na capital gaúcha, recorda Dariano, o acesso à galerias era privilégio exclusivo de obras que tivessem "alguma possibilidade de venda".

Situação paradoxal, na opinião do fotógrafo, se levado em conta que toda a tendência do período seguia uma linha não comercial: "O Nervo Óptico protestou contra a lógica da arte de mercado, o sistema de artes dirigido e o circuito de galerias, onde quaisquer manifestações modernas eram excluídas", conta Dariano.

O manifesto Nervo Óptico, de dezembro de 1976, fala pelo grupo: "Não somos contra a venda da obra de arte. Não aceitamos, isto sim, que o mercado dirija o movimento artístico. A venda não é medida de qualidade da obra de arte, como prova a história".

Artisticamente, a ação do Nervo Óptico era centrada na publicação de cartazetes homônimos, mensais e colecionáveis – "abertos a divulgação de novas poéticas visuais" – enviados por um mailling à instituições de ensino e para artistas do Brasil e de outros países.

Algumas edições, que tinham a fotografia como linguagem principal, chegaram a ser encartados na revista dadaísta sueca Ephemera, com marcante atuação no circuito internacional de Arte Postal.
NO FLUXO DO FIM (DOS BEATLES) - Quando John Lennon conheceu Yoko Ono, em 1966, ela já era conceituada artista Fluxus, o grupo vanguardista criado, em Nova York, por Geoge Maciunas a partir de idéias do compositor John Cage.
O beatle foi ver a exposição de Yoko, "Ceiling Painting" (instalação em que uma escada conduzia o observador até um vidro no teto. No alto, uma lupa ampliava a pequena inscrição: "Yes!"), e ficou encantado com a obra da futura esposa.
A rigor, o começo do fim dos Beatles foi tudo culpa do Fluxus...
Se o Fluxus fez o favor de enterrar os Beatles (pois era hora de alguém pará-los mesmo), ao menos a natureza bizarra e destrutiva de certas atuações, como as chamadas Música de Ação, deixaram "lições simbólicas" para o rock.

A performance "Peça de Guitarra", do fluxista Robin Page, apresentada durante o Festival de Desajustes, foi uma das mais impactantes, como descreve Victor Musgrave no livro The Unknown Art Movement.
A ação lembra a cena do filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, na qual Jeff Beck arrebenta guitarra&amplificador numa espelunca da swinging london tocando "Stroll On" (assista no post abaixo) - cena que, originalmente, fora concebida para o The Who interpretar:
"Vestido em um reluzente capacete prateado e segurando sua guitarra pronta para tocar, Robin esperou alguns minutos antes de jogá-la no palco violentamente e chutá-la na direção do público, pelo corredor e escada abaixo, até sair na rua Dover. O efeito foi dramático, os espectadores levantaram-se e correram atrás dele enquanto ele dava voltas no quarteirão chutando o que ainda sobrava da guitarra".

O guitarrista do The Who, Pete Towshend, transformou a destruição da guitarra numa poderosa alegoria para a juventude hippie, em Woodstock e, em igual medida, num emblema ainda mais legítimo para os punks dez anos depois.

O instantâneo perfeito, no entanto, é a imagem congelada do baixista Paul Simonon, do The Clash, na cultuada capa do álbum-testamento London Calling (foto do post). A fotógrafa Pennie Smith - numa sublime hora de felicidade fotográfica - capturou o exato momento em que Simonon, irritado com a péssima do equipamento, imola seu baixo num show nos Estados Unidos.
Os fluxistas foram longe demais e perderam-se na loucura das extravagâncias performáticas. O cúmulo foi a "Missa-Fluxus", uma divertida deturpação até mesmo para os pioneiros do Fluxus. Insanidades ainda maiores, como os Esportes-Fluxus, o Casamento-Fluxus, o Divórcio-Fluxus e até o Funeral-Fluxus decretaram a morte do grupo.
O inglês Stewart Home, autor do revelador Assalto à Cultura - Utopia, Subversão e Guerrilha na Antiarte do Século 20 (Conrad Livros), traz um divertido relato sobre a bizarra "Missa Fluxus":

"Na cerimônia, de liturgia semelhante à católica, os coroinhas trajavam fantasias de gorila, o vinho sacramental era mantido num tanque e derramado por uma mangueira, as hóstias eram biscoitos azuis recheados de laxante e o pão era consagrado por uma pomba mecânica que cagava sobre ele.

O ritual tinha prosseguimento com o sacrifício de um Super-Homem inflável abarrotado de vinho; tudo acompanhado intermitentemente pela sucessão de uma sonoplastia previamente gravada com sons desconexos como o latir de cães raivosos, assobios de locomotivas, o piar de passarinhos e o estopim de tiros".

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