quarta-feira, 26 de agosto de 2009

o pASQUIM eNTREVISTA: rAUL sEIXAS*

O PASQUIM - Você surgiu publicamente com "Ouro de Tolo". Mas nós queremos que você conte o seu início, desde o princípio mesmo.

RAUL -
Vamos ver. Vamos voltar a 1959. Eu tinha um conjunto de rock, lá em Salvador. Eu morava perto de uns garotos do consulado, eles me apresentaram uns discos de rock.

O PASQUIM - Qual consulado?

RAUL -
O americano. Estava aquela coisa acontecendo nos Estados Unidos e nós tomamos conhecimento. Nós fizemos um conjunto de rock em Salvador, e a gente viajava pra todo interior, fazendo aquela coisa, assumindo mesmo, vivendo aquela coisa da época.

O PASQUIM - Como é que chamava o conjunto?

RAUL - Os Panteras. Porque todo conjunto daquela época tinha nome de bicho.

O PASQUIM -
Era um conjunto de quantos?
RAUL - Eram quatro pessoas. Guitarra, baixo e Bateria.
O PASQUIM - Krig-Ha, onde fica?
RAUL - Krig-Ha seria um rótulo. É uma sociedade que existe hoje no mundo inteiro, com vários nomes. Aqui no Brasil nós batizamos com o nome de Krig-Ha, que é o grito de guerra do Tarzan. Você deve ter lido Tarzan, né? Khig-Ha significa "cuidado"!

O PASQUIM - Bandolo é inimigo, né?

RAUL - É. Aí vem o inimigo. Tinha o dicionário de Tarzan na primeira página. Você lia e tinha a tradução. Eu sabia aquilo decorado. Mas essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro acontecimento que essa sociedade promoveu foi o disco, o LP Krig-Ha, Bandolo!
O PASQUIM - E aquele símbolo da sociedade? A chave?
RAUL - Aquele símbolo é o símbolo de Amon Ra, acrescido de uma chave. Esse símbolo tem uma história interessante. Quando o Paulo Coelho, meu parceiro, tava em Amsterdã, em 67, ele estava usando um símbolo hippie no pescoço. E veio um sujeito estranhíssimo e arrancou o símbolo do peito dele e colocou esse símbolo, sem a chave e disse: "Não é nada disso. Agora é isso." Ele ficou assustadíssimo com aquele símbolo no pescoço, mas começou a usar. E nós fomos uma vez, há pouco tempo, escrever uma peça, que nós vamos lançar para o ano. Fomos lá em Mato Grosso, numa tribo de índio. E numa barraquinha de índio tava vendendo esse mesmo símbolo. Uma coisa incrível e batizamos como o símbolo da sociedade.
O PASQUIM - Fale um pouco sobre a sociedade.
RAUL - Como eu estava dizendo, essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro foi o LP. O segundo foi uma procissão que foi muito bem sucedida. Foi muito bonito. A gente levou uma bandeira na rua. Uma explosão. Porque vocês sabem que tem havido uma série de implosões. Nós saímos à rua, cantando, foi muito bonito. A terceira foi esse show de teatro, esse show que nós estamos fazendo agora. E a quarta vai ser o piquenique do papo. Nós vamos convidar todos os artistas, de todos os campos e vamos fazer um piquenique bem suburbano, no jardim botânico. Todo mundo. Pra conversar. Um rapaz já se prontificou a fazer um discurso sobre "A Maldade das Formigas."
O PASQUIM - Qual é o fim específico da sociedade? A que ela se propõe? Ela segue uma "filosofia"?
RAUL - Essa sociedade não surgiu imposta por nenhuma verdade, nenhum líder. Não houve liderança no mundo inteiro, como se fosse tomada de consciência de uma nova tática, de novos meios.
O PASQUIM - Da própria sociedade?

RAUL - É, do próprio mecanismo da coisa. Nós estamos correspondendo com pessoas que fazem parte dessa sociedade, inclusive Jonh Lenon e Yoko Ono. Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome. Nós mantemos uma correspondência constante com eles.
O PASQUIM - Voltando à sua biografia. Você poderia explicar sua formação literária, como você chegou a esse texto?
RAUL - Isso aí é uma coisa interessante. Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Eu sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú , que penso em publicar algum dia. Eu sou muito dado à filosofia, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando as outras coisas. Estudei literatura, comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá publicar.

O PASQUIM - Você teve a intuição de que a música seria um veículo mais imediato de comunicação?
RAUL - Essa tomada de consciência que eu tive foi há pouco tempo, uns dois anos atrás. Porque eu usava a música por música. E por outro lado eu queria atingir uma coisa pela literatura. Mas eu vi que a literatura é uma coisa dificílima de fazer aqui, de comunicar tão rapidamente como a música. Eu tive uma escola muito importante, que foi a CBS como produtor de discos de Jerry Adriani, de Wanderléa, daquela coisa toda de iê-iê-iê. Eu produzia discos para o Trio Ternura , aquele pessoal. Foi uma vivência fantástica para mim. Aprendi muito a comunicar.

O PASQUIM - E o Paulo Coelho, teu parceiro?
RAUL - Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos um disco voador.
O PASQUIM - Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo disco voador de novo. Como é que foi isso?
RAUL - Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing.
O PASQUIM - Ano Passado.
RAUL - Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa pro lado sensacionalista: O cara viu o disco voador. "O profeta do apocalipse." Eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco muito bonito.
O PASQUIM - Dá pra descrever o disco?
RAUL - Dá sim. Foi... era meio assim... prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta. Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: "Cê tá vendo o que eu tô vendo?" A gente aí sentou e o disco sumiu num ziguezague incrível.
O PASQUIM - Durou quanto tempo mais ou menos?
RAUL - Uns dez minutos.

O PASQUIM - Qual foi o efeito disso em vocês?

RAUL -
Ouro de Tolo, que pintou aí. Essa música.
O PASQUIM - Usaram muito esse disco pra dizer que você era místico, um negócio assim. Esse disco voador foi pra parada de sucesso.
RAUL - Falta do que dizer. Não se tem mais o que falar hoje. Tem que se falar mesmo neste lado de disco voador, profeta do apocalipse. O homem que viu o disco voador dá IBOPE, chamam ele pro Sílvio Santos.
O PASQUIM - Independente dessa sociedade, é claro, e das coisas em que você acredita, você não acha que o tipo de atitude que você toma publicamente influi nisso? O fato de colocar nas suas entrevistas que você viu um disco voador, o fato de você ter feito sua procissão e a entrevista que você deu à Manchete dentro do avião, no aterro...
RAUL -
Aquela foi gozadíssima. Ela ligou lá pra casa e disse que queria fazer uma matéria comigo, eu disse: "Pois não, mas eu tenho que fazer uma viagem de avião. Eu só dou entrevista dentro do avião." Era aquele avião que tem lá no aterro. Aí nós fomos pro avião 4 horas da tarde. Ela já tava me esperando lá. E Paulo Coelho com a mala. Todos nós entramos no avião "Cê tá gostando da viagem?" Pusemos o cinto de segurança. E ela com um medo de fazer a entrevista, um medo horrível de mim. Aí surgiu a aeromoça, que era minha mulher, servindo sanduíche, cafezinho. Ela ficou apavoradíssima. Mas foi uma brincadeira que nós fizemos, para usar a imaginação.
O PASQUIM - Raul, os sinais, suas letras, está tudo ligado com um magicismo seu. Você brinca muito com isso não? Magicismo, ironia mágica, seja lá qual for. Pra botar isso bem curto: Qualé?
RAUL - Vamos citar o Apocalipse bíblico. Foi escrito numa época incrível, você tinha que falar uma linguagem simbólica, uma linguagem mágica. Mas o Apocalipse é uma coisa que se adapta a qualquer época.
O PASQUIM - Principalmente a atual. É, algumas épocas mais do que as outras, alguns lugares mais do que os outros.
RAUL - É quase a mesma linguagem que nós estamos usando pra tentar dizer, tentar chegar a um objetivo. Não é um objetivo de uma verdade absoluta, porque ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais.
O PASQUIM - Então você quer abrir uma porta na cabeça de quem tá te ouvindo. Não há uma hora em que se fecha de repente? O perigo de fazer essas coisas, o perigo do magicismo, da maneira de dizer as coisas...
RAUL - É uma escada.
O PASQUIM - Mas ao mesmo tempo há o perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?
RAUL - Não. É uma escada. Um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase "Terra" da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio é outra coisa, já é mais aberto. Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima. Eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar aonde eu estou, não vou comunicar mais.
O PASQUIM - Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?
RAUL - Esse Raul Seixas que está no teatro Tereza Raquel, cantando esse tipo de música, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical, kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.
O PASQUIM - Você faz isso mais para se entender ou pra que os outros te entendam?
RAUL - Pra que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as classes, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando A Mosca na Sopa.
O PASQUIM - Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.
RAUL - Não, que é isso? Sabe por que? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.
O PASQUIM - Mas o magicismo pode cair.
RAUL - Mas é um magicismo estudado. É dosado, nêgo.
O PASQUIM - Se você não estiver muito sob controle, pode cair nisso. Isso exige um tremendo autocontrole, conhecimento de si próprio, senão você embarca no próprio som do que você está dizendo. Tem que saber o que você está fazendo.
RAUL - Eu tô fazendo.
O PASQUIM - É isso que preocupa, se você está consciente. Ô Raul, como é que você vê os seus contemporâneos no Brasil? Os que fazem outras coisas, que escrevem romances, fazem poesias, trabalham em jornal, televisão etc.
RAUL - Como eu vejo a realidade? Isso aí é fogo, rapaz.
O PASQUIM - Use o magicismo.
RAUL - Peraí. Eu vou falar uma coisa aqui. Eu vou falar sobre os cabeludos. Eu li outro dia um negócio de Pasolini na Veja. Vocês leram? Achei fantástico. Você já não sabe mais quem é quem. Tá aquela coisa de cabeludo, tá todo mundo estereotipado. Por isso é que eu faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de "audiovisuaizinhos". Minha mulher fala comigo que eu não devo fazer isso com eles, porque a garotada tá sabendo. Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo a coisa em termos globais. E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco de rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não ficar de fora fazendo bobagem, de calça Levis com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como Jonh Lenon disse, "they think they're so classless and free". Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.
O PASQUIM - Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como é que era a tua transa pessoal com essa gente?
RAUL - Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconseqüente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso ia aprendendo a usar aquele mecanismo.
O PASQUIM - Você estava de rato?
RAUL - Exatamente. Eu estava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a idéia de eu contratar Sérgio Sampaio e Edith Cooper, que é uma boneca lá da Bahia, um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez. Mas o disco foi misteriosamente tirado do mercado porque não era a linha da CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora, foi quando eu comecei a fazer o trabalho. Era um disco que mostrava o panorama atual, o que tava acontecendo, o caos todo daquela época. O caosinho bonitinho que tava acontecendo naquela época.
O PASQUIM - Aí você foi expulso da CBS.
RAUL - Fui expulso em função desse LP. E também porque fui no festival Internacional da Canção, cantar Let Me Sing.
O PASQUIM - Eles não queriam isso?
RAUL - Não. Eles disseram: "Ou você é produtor ou você é cantor." Eu tinha que optar.
O PASQUIM - Raul o que te levou ao hermetismo? O que você andou fazendo de coisas herméticas, e o que te deu a noção de equilíbrio?
RAUL - Foi o primeiro LP que gravei na Odeon. Foi um LP louco, rapaz. Um LP extremamente filosófico, metafísico, ontológico, que falavam em sete xícaras, ou seja, as sete perguntas aristotélicas. Ou seja, as fontes do conhecimento.
O PASQUIM - Como é que chamava o disco?
RAUL - Raulzito e seus Panteras.
O PASQUIM - Raul, você tem filhos?
RAUL - Tenho uma filha.
O PASQUIM - Em 59, você fazia rock na Bahia. Você conheceu Caetano e Gil na Bahia?
RAUL - Conheci o Gil.
O PASQUIM - Isso foi antes do tempo de Gessy-Lever?
RAUL - Do tempo que eu fazia jingle também. Só que eu fazia jingle rock e ele fazia jingle bossa-nova. A gente se conhecia, 59, 60 por aí.
O PASQUIM - Depois desse contato, como é que foi ficando? Distante?
RAUL - Era uma coisa lá e outra aqui. Nós tínhamos um lugar, o cinema Roma, onde a gente promovia shows de rock.
O PASQUIM - Bossa-nova não?
RAUL - Bossa-nova era no teatro Vila Velha. Era uma coisa bem separada mesmo. Existia um conjunto lá, a Orquestra de Carlito, com Caetano e Gil. E existiam os Panteras. Duas coisas completamente diversas. Mas no fundo eu acho que estava todo mundo querendo chegar a mesma coisa, era só problema de linguagem.
O PASQUIM - Raul, o pessoal que viu o show em São Paulo diz que, além da crítica leve que você fez ao Roberto Carlos, tinha uma crítica ao Caetano também.
RAUL - Tinha não.
O PASQUIM - E a crítica ao Roberto?
RAUL - É uma brincadeira. Porque quando Ouro de Tolo saiu, tava saindo uma música do Roberto em que ele agradece ao Senhor pelas coisas recebidas. Ele disse que agradece, eu digo que eu devia agradecer. Foi isso que os caras pescaram.
O PASQUIM - Você está a fim de ocupar a vaga de guru que o Caetano Veloso deixou?
RAUL - Eu não sei se é isso, não. Acho que Caetano tá sabendo o que tá fazendo. Ele sabe exatamente.
O PASQUIM - Caetano era guru ou não era?
RAUL - Não... Eu acho que ele não assumiu esse negócio de guru. Eu acho que viram ele como uma tábua de salvação, as pessoas tavam precisando dele, tava na hora de um apoio. Então escolheram o Caetano.
O PASQUIM - Ele ainda é o líder?
RAUL - O que você acha?
O PASQUIM - Eu acho que é. E você o que acha?
RAUL - Eu acho que tanto Caetano como Gil, embora sendo trabalhos diferentes, são incríveis.
O PASQUIM - Você falou sobre Caetano e Gil, falou sobre Jonh Lennon. E a sua influência do Bob Dylan?
RAUL - Isso é engraçado, todo mundo fala sobre esse negócio do Bob Dylan. Eu gosto de Dylan, mas não foi uma coisa marcante.
O PASQUIM - Seu espetáculo é a aplaudido com um entusiasmo, digamos assim, com uma zorra total no teatro. Isso pode ser a força de seu recado. Um recado tão forte que o pessoal quer aplaudir, mas o recado ainda está um pouco na frente do momento. O que você acha?
RAUL - Eu não vou dizer por mim, mas Paulo Coelho acha isso. Ele acha que as pessoas ainda estão em dúvida, estão com um certo receio, assustam um pouco.
O PASQUIM - Raul, você falou sobre a sociedade. E outros planos para o futuro?
RAUL - Eu já tô com o meu segundo LP na cabeça. É como um degrau. Eu dividi o trabalho em quatro fases, simbólicas, é claro, dentro daquilo que nós já falamos, de magicismo. Fase Terra, Fase Fogo, Fase Água e Fase Ar. Somente com a identificação. Essa fase fogo vai ser diferente dessa, dentro do mesmo tipo de música, mas não exatamente iê-iê-iê. É outra coisa, eu prefiro que seja surpresa. Vejam depois de pronto. Eu tô seguindo uma orientação geral, em que eu recebo e dou informações. Em todos os quatro cantos do mundo, a gente tá sempre recebendo, tá tendo informações. Essa outra fase é uma fase de escada mesmo. Um lugar que você vai chegando gradativamente, sabendo aos poucos.
O PASQUIM - Basicamente que público você atinge?
RAUL - Todas as classes. Isso é que é bom. Sabe por quê? Eles assimilaram Ouro de Tolo dentro de níveis diferentes, mas no fundo era a mesma coisa. O intelectual recebia de uma maneira, o operário de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: "Eu devia estar feliz por que eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí..." Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aí. E as cartas que eu recebi da revista POP, que fez uma transação aí, negócio de "Diga o que você acha da música Ouro de Tolo." Veio do Brasil inteiro. Fantásticas aquelas cartas, eu guardo um monte. Eu li essas cartas todas. Todo mundo entendeu, dentro de uma conotação própria, dentro de um nível diferente. Eu achei fantástico isso. Quer dizer que tá funcionando.
O PASQUIM - Você tem algo a declarar para as novas gerações?
RAUL - Não, é uma juventude sadia, alegre, satisfeita, feliz e contente. Comendo alpiste. Amém.

*
Entrevista reunida no livro O Som do Pasquim (Editora Desiderata), organizado por Tárik de Sousa. Novembro de 1973.

domingo, 23 de agosto de 2009

o hOMEM dE 120 cANAIS

Marco Mazzola está na conta dos maiores produtores fonográficos do Brasil. É responsável pela qualidade técnica e artística de muitos discos de Gal Costa, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina e Caetano Veloso.

O carioca recebeu quatro Discos de Diamante (vendas acima de 1 milhão) - por "The Rythm of the Saints", Paul Simon; "Rádio Pirata ao Vivo, RPM; o compacto "Não Chore Mais", Gilberto Gil; e "Vou de Táxi", Angélica.

Para lembrar Raulzito - de quem foi produtor de muitos discos importantes -, Mazzola editou o kit 20 Anos Sem Raul (MZA), no qual resgatou "Gospel", gravação inédita de 1974 - cuja letra Raul e Paulo Coelho escreveram para a trilha-sonora da novela O Rebu, da Rede Globo.

Nessa entrevista, Mazzola contou sobre a façanha que era gravar discos no Brasil, nos anos 70. Falou das picardias de Raulzito em estúdio, e não deixou escapar Paulo Coelho.

Pouca gente sabe que Raul, a seu exemplo, também era homem de estúdios.

Raul era um cara de sensibilidade muito grande. Cuidava dos artistas que vinham de uma nova geração, que começavam a ir para o cast da CBS, como Jerry Adriani, por exemplo. Foi assim ele que aprendeu a fazer uma coisa muito difícil, que é administrar um disco numa gravação.

Na época em que fomos apresentados, Raul não foi a Phillips para "mostrar seu trabalho". Na realidade, foi levar Sérgio Sampaio, que tinha vencido o Festival Internacional da Canção com "Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua".

Lembro do Raul vestido de terno; estava todo arrumado. Ele disse:

"Tenho umas músicas bonitas que eu faço na CBS".

O levei à minha sala e ele cantou "Let me Sing" e "Eu Sou Eu, Nicuri é do Diabo". Quando interpretou ''Let me Sing", tirou a gravata e se posicionou como artista de rock. Cruza de Luiz Gonzaga com Elvis Presley.

Fiquei sem entender nada. Fui à sala do Roberto Menescal: "Nós temos um puta artista aqui!". "Aonde?", ele perguntou. "Está lá na minha sala. Se inscrevermos essas músicas no FIC, ganhamos". "Então cuida dele e contrata", disse o Menescal.

O contratei. Uma semana depois, fomos imediatamente pro estúdio.

Como foi produzir discos da "fase áurea" do Raul?

Fiz todos os seus álbuns, até sua carreira começar a declinar. Também o levei, como artista contratado, para Warner. O Dia Em que a Terra Parou foi seu último LP produzido por mim. Antes de trabalhar com Raul, eu era requisitado para mixar discos do pessoal exilado: Caetano, Gil, Gal.

O tipo de mixagem de som que eu fazia, era muito diferente daquela feita, na época, no mercado fonográfico brasileiro. A Phillips contatou-me para que eu fizesse exclusivamente isso. Percebi que o importante era primar pela boa qualidade nos arranjos, pelas letras e pelos acabamentos.

De que forma trabalhavam a criatividade no estúdio?

Tem uma história que eu conto em meu livro, Ouvindo Estrelas. Fui um dia a uma reunião, na qual Raul projetava o álbum Gita. É importante frisar que o formato de gravação, há 30 anos, nem de longe era como hoje em dia, onde se tem 120 canais à disposição.

Nos anos 70, eram só quatro canais. Entrei no estúdio, só com velas acesas, e rolava um "ritual satânico". Paulo Coelho estava junto. "Estamos pensando em pôr uma orquestra sinfônica no disco", me disseram. Mas só tinham quatro canais. Falei: "Deixa pra mim que eu faço!".

Desde, no entanto, que eu trabalhesse nos arranjos. Assim, poderia fazer o que fosse preciso em estúdio. Escutando Gita com atenção, ouve-se até sons de sinos de catedrais. Em 1973, segui para os Estados Unidos, a convite da Phillips, para fazer curso numa máquina de oito canais.

Essa foi a primeira do país. Depois passou para 16, 24 e 48 canais.

Acredita que, hoje, Raul ficaria feliz com mais canais à sua disposição?

Na época de Krig-há, Bandolo!, a gente queria botar uma guitarra do cara do Toto, Steve Luckater. Peguei a fita, em quatro canais, e levei pros Estados Unidos, onde os estúdios de 16 pistas eram realidade.

Viajei com a voz de Raul gravada no Brasil. Botei vocais, teclado, guitarra e sopro. Daí pra frente, a Phillips foi obrigada a se modernizar. Não dava para gravar bateria junto com bumbo e com baixo; era assim que se gravava até então.

Os técnicos da época eram verdadeiros maestros. Hoje, os discos perderam parte desse calor.

E Paulo Coelho?

Paulo Coelho enfiava muita coisa na cabeça do Raul, aquele negócio de Sociedade Alternativa, por exemplo. Eu convivi com isso. Botava loucuras na cabeça dele; Raul acreditava. Por volta de 1977, Paulo largou a loucura, mas Raul prosseguiu.

Foi uma alquimia que funcionou, porém, Raul não soube parar. Paulo Coelho soube muito bem.

E as loucuras do Raul?

No estúdio, uma vez Raul me pediu: "Não dá pra botar um bebedor aqui?". Instalaram um bebedor dentro do estúdio pra ele, que estava "parando de beber". Ele chegava normal pela manhã e, ao longo do dia, ia se transtornando.

"Porra, que água esse que você tá bebendo?!". Ele só ficava rindo da minha cara.

O garoto que limpava o estúdio, colocava duas garrafas de vodca dentro do bebedor. Outra vez, ele veio com a conversa de "saquê era feito de arroz", milenar especiaria. Portanto, não fazia mal para a saúde.

"O problema não é o saquê, mas tudo o que você consome junto".

Vocês conheceram-se pouco tempo depois de Raul gravar Sessão das Dez?

Foi. "Eu preciso de um salário; preciso viver!", seguidamente ele reclamava pra mim. Aconselhei: "Cara, você é um artista. Pode ganhar muito mais dinheiro como cantor do que como produtor". Tanto que ele foi gravar como "Raulzito" e recomendei a ele:

"Esse nome não é legal. Como é todo seu nome?". "Raul Santos Seixas". Sugeri: "Raul Seixas". Então tá, daqui em diante você não é mais Mazzola. É 'Mazzolêra", ele falou.

Época em que a inteleligência brasileira não engulia Raul Seixas.

De forma alguma. Ele me dizia: "Não consigo entender. Sou baiano, mas ninguém me dá mole". Um dia, levei o Gil numa gravação, para ver se eu conseguia quebrar o gelo. Gravamos "Que Luz é Essa", na qual Gil toca violão. Mas os dois não continuaram tendo relação.

Uma coisa que muito lamento, deu-se por volta de 1985. Eu estava dirigindo meu carro, e não via o Raul há muito tempo. Eu não compatilhava mais das loucuras. O vi com um violão, num ponto de ônibus.

Dei a volta pra tentar pegá-lo; queria conversar com ele. Quando consegui fazer o retorno, Raul havia partido. Tentei ir atrás do ônibus, mas não consegui. Fiquei meio desesperado: tentei ligar pra Kika Seixas pra saber dele.

Um dia, a mãe dele ligou-me e disse que ele precisava muito falar comigo. Raulzito estava muito doente. Falei que estava indo a Salvador e seria bacana reencontrá-lo pra conversarmos. Ele me telefonou cobrando:

"Você vem a Salvador ou não, nego?".

Quando decidi ir, Raul estava em São Paulo, vivendo com outra pessoa. Na época, eu estava gravando o disco do RPM. Recebi outra ligação, avisando-me de seu falecimento. Consternado, liguei pra Dona Eugenia.

Perguntei-lhe se sabia o que Raul queria falar comigo. Me contou que Raul queria passar a limpo tudo o que vivemos juntos.

*Trio Paradadura: Gil, Mazzola e Raul.


mULHERES*

Tânia Menna Barreto, terceira esposa de Raul Seixas, o conheceu numa festa, em 1976. Viveram juntos até 1979. A primeira vez que viu o futuro consorte, foi levitando no cromaqui surrealista do vídeo "Gita", exibido no dominical Fantástico.

Quando o casal morava na Bahia, Tânia recorda, o médico da família advertiu: "Ou Raul deixa o alcoolismo ou não dura dez anos." No relacionamento, Tânia exerceu a missão de reconduzir o marido de volta ao seio familiar, em Salvador:

Por causa da fama, ele andava muito afastado de sua família. Todas as suas ex-esposas, de certa forma, foram suas enfermeiras", acredita. Para Tânia, previsibilidade nunca combinou com a personalidade de Raul:

"A única coisa que se podia prever, era quando, no calor de 45 graus, ele se vestia de couro e calçava botas: alguma travessura aprontaria". Raul considerarava-se incrível amante – mas, por outro lado, como marido, assumia ser uma desgraça.

Tânia concorda: "Raul era um amante maravilhoso; no amor, armava um circo. Mas não suportava a rotina do casamento."

*Fotografia enviada por Tânia Menna Barreto, que ficou com Raulzito entre 1978 e 1979. No retrato, clicado na Bahia, em 79: Tânia, Raul e o cão Alfie. Breve, uma entrevista com ela aqui.

A segunda esposa de Raul Seixas, a norte-americana Gloria Vaquer (foto abaixo), é outra que reapareceu: "Nos apaixonamos sem rima e sem razão", contou a ex-mulher em recente entrevista.

A reportagem da Rolling Stone, Moleque Maravilhoso, foi bater lá nos EUA. Veja no que deu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

pIAZITO sEIXAS eM fAMÍLIA

*Saqueei esses retratos de família (menos o do Raulzito "existencialista") no excepcional site Raul Rock Clube - Raul Seixas Oficial Fã-Clube, que é presidido por Sylvio Passos, em São Paulo. Recomendo uma viajada por lá. Passos é quem - há tempos - melhor zela pela posteridade artística de Raul Seixas. Sua dedicação ao amigo merece sincero parabéns.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

qUE dISTRAÇÃO!


Eu Acho Graça (Sérgio Sampaio)

Todo Mundo Está Feliz Agora
(Sérgio Sampaio)


Sou Tabarôa (Antônio Carlos/Jocáfi)



Chorinho Inconsequente (Miriam Batucada)



Dr. Pacheco (Raul Seixas)



o bAÚ dO iVAN

*Inventor do gênero "terrir", o cineasta e fotógrafo Ivan Cardoso topou com Raul Seixas pelos corredores da recém-inaugurada gravadora WEA. Cardoso era fotógrafo oficial das capas de discos. Os discos Respire Fundo (Walter Franco) e A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (Zé Ramalho) levam sua assinatura.

Em 1977, Raul assinara contrato para gravar o álbum O Dia em Que a Terra Parou. Detentor de mais 70 mil negativos, os quais estão guardados no seu acervo, Cardoso o considera "o melhor modelo que fotografou":

"Ele tinha vocação para ser ator. Tanto que dizia a todos: 'Sou um ator representando o papel de cantor'. Era tão bom ator que enganava todo mundo".


Essas fotos - que fazem parte da exposição Prisioneiro do Rock, programadas pra entrar em cartaz, no dia 21 de agosto (aniversário de morte de Raulzito), no Rio de Janeiro e São Paulo - são do baú do Ivan.

Leia mais

cARPINTEIRO dO uNIVERSO

"Foi o Paulo Coelho, de quem eu era amigo, que me apresentou ao Raul, em 1988. Nos tornamos amigos. Ele me 'transformou' em compositor, ao me pedir que contribuísse com idéias para a canção 'Pedra do Gênesis'.

Pouco tempo depois, levei a ele um poema meu, em inglês, dizendo que gostaria de musicá-lo. De imediato, Raulzito pegou o violão e, em poucos minutos, estava pronta 'Angel'. Tínhamos muitos pontos em comum, sob o prisma espiritual; isso fortaleceu nossa amizade.

Raul homenageou-me na música 'Carpinteiro do Universo', em parceria com meu querido amigo Marcelo Nova. Essa canção teve inspiração em duas frases que eu tinha dito a ele: que me sentia como um 'carpinteiro do universo' - sempre tentando consertar coisas que as pessoas insistiam em estragar em suas próprias vidas.

Ele falou: 'Você tá sempre limpando as unhas e penteando os cabelos dos amigos, nego?'. Respondi: 'Não. Estou sempre querendo mudar a direção do trem!'. Quando ele morreu, sua empregada, Dona Dalva, me ligou pedindo que eu fosse ao seu apartamento e fizesse algo.

Avisei Marcelo Nova e o empresário deles, o Albertino, e fui apanhar o médico particular de Raul, na época, Dr. Luciano Stancka. Rumamos para a casa de Raulzito. Nada mais havia para se fazer. O resto é história".

*Depoimento do "bruxo" José Roberto Abrahão, amigo e um dos últimos parceiros de Raul Seixas. As foto são do ensaio de Conceição Almeida, que clicou as fotos da reportagem de capa da Rolling Stone. As fotos, tiradas em São Paulo, são de novembro de 1978.

Segundo Conceição, não teve essa de "montar o artista": "Tudo foi feito na hora, sem figurino e cenário, num hotel na Avenida Brigadeiro Luís Antônio". E, depois, na "casinha da Warner", antigo reduto da gravadora na Rua Alves Guimarães.


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

rAULZITO pRODUCER cBS

A Qualquer Hora (Raulzito) - Waldir Serrão

Príncipe Valente (Raulzito/Paulo Coelho) - Maria Luiza


Problemas (Raulzito/Motta) - Monny



Convite para Angela (Raulzito/Leno)
- Leno

Sentado no Arco-Íris (Raulzito/Leno) - Impacto 5



pANELA dO dIABO

*O último show de Raul Seixas foi em Brasília, 1989. Essas fotos são preciosidades que encontrei nos arquivos do Jornal de Brasília. Nessa última, o público candango enlouquece com a presença do ídolo, no extinto Gran Circular.

No disco Se o Rádio Não Toca (cuja coordenação de produção foi de Sylvio Passos), a gravação de Loteria da Babilônia também foi retirada de um show feito na capital federal, em 1974 - quando só era uma "baby city".

rAUL sEIXAS lIVE - pRAIA dO gONZAGA (1982)





sexta-feira, 14 de agosto de 2009

gUITARREIRO

rAULZITO cAMARADA

"De repente, chegou um rapaz dizendo que era compositor, tocava violão e gostaria muito de poder 'mostrar seu trabalho' para Raul. Mas ele não tinha o braço direito. Ficamos meio sem jeito, olhando para o cara - até que Raul lhe perguntou:

'Ah, é? E o que o senhor quer que eu faça?'.

Com muita humildade, o garoto respondeu: 'Seu Raul, o senhor faz o ritmo e eu as posições'.

Não dá para explicar o carinho com que Raul ajudou o rapaz. Ele ficou abraçado, quase pendurado por trás do cara, fazendo o ritmo com a mão direita, enquanto o cara mudava os acordes com a mão esquerda.

Foi uma cena linda".

"Dividimos muitos pratos-feitos, durante os primeiros tempos de nossa vida profissional. Período em que comprovei o grande caráter de Raul, o qual era muito apegado às pessoas simples. Uma demonstração disso aconteceu em Guabimirim, Rio de Janeiro.

Ficamos bebendo, até às 2 da horas madrugada, depois fomos dormir. Mas, por volta das 5 horas da manhã, acordei e reparei que Raulzito havia sumido. Olhei por toda a casa, pelo quintal - e nada. Decidi, então, sair com o carro para procurá-lo.

Comecei a ouvir um som de longe. Vi um cara magro de calça jeans, sem camisa, descalço e com um chapéu de São João, cheio de fitas coloridas e um violão, cantando Elvis Presley no meio dum monte de pinguços.

Os caras nem sequer imaginavam que aquele era o Raul Seixas. Raulzito estava na maior alegria, feliz da vida. Na hora em que me viu, falou: 'Tratanius (o jeito como chamávamos um ao outro), vem cá tomar uma cachacinha comigo'.

Raul cantou pra galera até o dia amanhecer".

*Historinhas contadas por Mauro Motta, um dos melhores amigos de Raul Seixas. Vizinhos de quitinete e produtores na linha de montagem do iê-iê-iê romântico da CBS. Motta e Raul produziram o álbum Sessão das Dez.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

eNTREVISTA: eDY sTAR

POR CRISTIANO BASTOS

E
dy Star (ou "Edy Bofélia", como Raul Seixas lhe chamava), 71 anos, começou sua carreira artística em Salvador, no início da década de 1960. Foi um dos elementos que atuou no extraordinário álbum-levante Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 (CBS Discos/1971), juntamente com Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada - o quarteto da foto (Edy à esquerda).


Star ganhou notoriedade, ao ser descoberto pela "contracultura", que notou suas performances em boates do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 1975, estrelou a primeira montagem brasileira do musical Rocky Horror Show, produzida por Guilherme Araújo.

No ano seguinte, gravou o LP Sweet Edy (Som Livre/1974), com músicas compostas - especialmente para ele - por compositores do calibre de Roberto & Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Mautner. Além de Raulzito.

Edy Star considera-se "o primeiro artista glitter (ou glam) do Brasil". Segundo ele, no meio artístico, também foi o primeiro a assumir sua homossexualidade em público. E, para quem não sabe, Edy é artista plástico de renome, com mais de 30 exposições no curriculum.

Há 15 anos, Edy vive na Espanha. É mestre de cerimônias de um cabaré no centro de Madrid, onde - usando de suas próprias palavras - dirige "35 mulheres internacionais". Com Gilberto Gil, divide parceria na música "Procissão".

Como "artista plástico", é verbete na Enciclopédia de Artes Plásticas Brasileiras, de Roberto Pontual. Como "cantor de rock glam", consta na Enciclopédia do Rock Brasileiro – A a Z, de Marcelo Dolabela.

Como é a sua vida em Madri?

Eu adoro Madrid, como todas as pessoas que vêm a conhecê-la. Gosto de andar pelas ruas antigas e velhos bairros. Visitar o Museu do Prado e os pueblos vizinhos. Amo o flamenco e as Tardes de Toro que, no Brasil, são chamadas de touradas.

Em 1975, você estrelou a primeira montagem brasileira da peça Rocky Horror Show. Dá para rememorar esses tempos?

Em 1974, fui chamado por Guilherme Araújo, para protagonizar o projeto. Inicialmente, seria com Wanderléa, Jorge Mautner, Jerry Adriani e outros. Mas, abandonei as reuniões do grupo porque não concordava com a direção. Daí o projeto michou. Tempos depois, estreou com elenco completamente diferente.

O Eduardo Conde fazia o personagem Vampirão. Porém, com 20 dias de estreia, Conde contraiu hepatite; Guilherme foi me buscar em Salvador, para substituí-lo. Consegui introduzir algumas coisas no espetáculo. Fiquei até o final da temporada no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro.

Sua apresentação no Palco Toca Raul! foi considerada a melhor da Virada Cultural de São Paulo. Rolou a "presença" de seu velho e conterrâneo Raul Seixas?

Me dediquei a fazer um show diferente, divertido e muito dentro do espírito do disco Sessão das Dez. Só sei dizer que o público raulseixista entregou-se em todas as músicas. A força e o espírito e a força de Raul dominou todas as 24 horas de apresentações. Foi lindo e emocionante!

O que você estava ouvindo nos tempos do álbum Sweet Edy?

Eu atuava na Boite Number One, em Ipanema, levado por Maria Alcina para substituí-la. Ouvia o de sempre: muita música velha brasileira. Mas tinha sintonia com alguns "novos", como Zé Rodrix, Gonzaguinha, Caetano, Novos Baianos e o velho e bom rock'n'roll. Adorava Humble Pie.

Porque você saiu do Brasil?

Eu estava praticamente sem mercado de trabalho. As boites não tinham conjuntos musicais. Eu trabalhava em cinco boites ao mesmo tempo - de Mauá à Copacabana. Durante oito anos, recebi o troféu Melhor Atração da Noite, todavia, o mercado estava cada vez pior.

Antes que começasse a passar fome, resolvi conhecer o país que eu mais queria, a Espanha. Mas, logo fui contratado; fui ficando. Voltei ao Brasil em 1999, atuei em várias peças de teatro e retornei às boites, só que era tudo muito difícil. Chamaram-me para voltar à Espanha e, assim, voltei à Madrid.

É verdade que você sobreviveu no Rio graças à uma maracutaia de Raul, que lhe arrumava grana mensal como prestador de serviços para a CBS?

Sim. Graças a Raul e a "seu" Evandro Ribeiro, que era o diretor da CBS. Desde que Raul me apresentou a ele, ficamos muito amigos. Era um gentlemen, muito culto e de bom papo. Ele tinha certeza que, um dia, eu iria estourar. Ele chegou planejar para que eu cantasse salsa.

Evandro me trazia discos dos states. Como eu não tinha emprego, e o compacto gravado sob a direção de Raul não me rendia nada, inventaram-me uma série de direitos conexos. Eu recebia meu tutu e a vida seguia correndo.

Quando Raul o chamou para gravar Sweet Edy, você disse que se surpreendeu muito: "Eu fui o único dos seus amigos da Bahia convidado para trabalhar com ele". Raul estava em início de carreira. Percebia nele o potencial artístico que viria a desenvolver futuramente?

O Sweet Edy não! Para esse LP, o convite veio de João Araújo (pai do Cazuza e diretor da Som Livre), ao me ver atuando no Number One, em 1973. Quando Raul me contratou para gravar na CBS, cheguei a pensar que seria uma brincadeira, justamente por isso.

Havia gente mais importante e mais amiga, como o Thildo Gama e o Waldir Serrão. Eu nunca fui um bom cantor. Sou um cara que canta razoavelmente. Sentia o potencial do Raul vendo compor e produzir seus pupilos. Frequentei sua casa e sabia que ele tinha outras músicas que jamais poderia gravar na CBS.

Principalmente, como cantor. Para explodir, tinha de sair de lá. Foi o que ele fez.

"Edy Star" é verbete no Dicionário de Artes Plásticas do Brasil, de Roberto Pontual. Fale sobre essa sua vertente artística.

Eu desenhava desde pequeno e sempre tive bom traço. Depois, enveredei pela pintura, mas sempre como auto-didata. Fiz minha primeira exposição em 1961. Tempos depois, entrei para a equipe da Galeria Bazarte.

Tenho 32 exposições; 16 delas foram individuais. Estive presente em três bienais. Parei de pintar por falta de tempo e espaço. Mas estou voltando aos pincéis.

É verdade que Raul enciumou-se com a sua histriônica versão de "La Bamba", na Rádio Sociedade da Bahia, nos anos 60?

Sim, fui cantor dos programas de auditórios nas rádios de Salvador. Porém, conhecia Raul desde o Elvis Rock Club, ao qual tambem pertenci. Na Rádio Cultura, Raul e os Panteras encerravam o programa.

Não creio que fosse ciúmes: ele estava era puto da vida por ter que acompanhar uma bicha louca, como eu, enlouquecendo o auditório. Depois, fomos nos aproximando por meio dos papos de ensaios. Ficamos grandes amigos. Fizemos, inclusive, alguns shows juntos.

Qual era a melhor qualidade do Raul?

O bom-humor e o profissionalismo.

Como era a relação artística de vocês?


A melhor possível. Às vezes, discordávamos do valor de uma música ou outra. Mas isso nunca nos afetou, aliás, muito pelo contrário. Raul sempre me pedia para cantar o bolero mexicano "Suicídio".

Ano passado, lendo o livro Baú do Raul Revirado, li que esse bolero era a segunda canção preferida de Raul.

40 anos depois, como definiria o álbum Sessão das 10?

É um disco atualíssimo. Muito inventivo e divertido. Não fica a dever nada ao de outros movimentos. Dos álbuns de Raul, para mim, os dois mais importantes são: Sessão das 10 - é nele que Raulzito dá a virada em sua carreira e, também, porque assina, pela primeira vez, Raul Seixas; depois, Krig-Há- Bandolo!, pois é o primeiro no qual assume seu lado cantor e assina todas as composições.

Como era integrar o quarteto kavernista?

Nunca nos consideramos fantásticos ou grandes artistas. Éramos só um pessoal na batalha para estourar um disco diferente. O único elemento que destoava era a Miriam, que vinha de São Paulo. Tinha outra cultura e outra procura pelo sucesso.

Eu, Sérgio e Raul éramos, praticamente, nordestinos unidos nos deboches, nas piadas, nas críticas e no humor. Curtíamos um bom baseado para abrir a cuca, podes crer!

Há planos de voltar ao Brasil e gravar um álbum?

Não tenho gravadora e nem estou na mídia!

Comos seria se gravasse um disco novo?

Cheguei a fazer um projeto celebrando Raul Seixas. Contudo - de repente - tinha muita gente fazendo o mesmo. Também pensei num novo Sweet Edy, mas com o nome de O Último Kavernista. Ou, então, um disco com músicas do folclore nordestino.

Ou, quem sabe, faço um álbum independente de salsa e merengue: junto-me à uma banda decente com duas piranhudas indecentes mostrando a bunda. Pode não primar pela moral e pelos bons costumes, mas é o que o povão brasileiro gosta no momento. É a nossa cultura, né?


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