quinta-feira, 30 de abril de 2009

nO rASTRO dA cAÇA




Uma densa floresta de abetos margeava sombria o rio congelado. Há pouco, um vento despira as árvores de seu manto alvo e nevoso; pareciam curvar-se, hostis e agourentas, uma diante da outra à luz que definhava. Um silêncio profundo reiriava sobre a terra. Desolação, estupor, estagnação, extrema solidão e frieza era a terra que nem mesmo a tristeza era maior no seu espírito.

Havia nele uma insinuação de riso, mas de um mais terrível do que qualquer tristeza - um riso tão melancólico quanto o da esfinge, um riso tão cortante quanto a geada que comungava com o lúgubre da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e inefável da eternidade escarnecendo da futilidade da vida e de seus esforços.

Era o Wild, o selvagem, o Norte de coração gélido. Mas havia, sim, vida por toda a parte, desafiadora. Uma fileira de cães-lobos descia lentamente o rio petrificado. Tinham os pêlos eriçados cobertos de neve. 0 hálito que subia de suas bocas congelava-se no ar, fundia-se em jorros de vapor que iam depositar-se sobre a pelagem de seus corpos transmutados em cristais de gelo. Os cães tinham coalheiras de couro, e de couro também eram os tirantes que os prendiam ao trenó que arrastavam atrás de si.

Era um trenó sem patins, com sarrafos de casca de vidoeira maciça cuja superfície repousava na neve. A proa dobrava-se como um pergaminho, permitindo-lhe pressionar e transpor por debaixo a massa de neve que se insurgia como ondas à sua frente. Dentro do trenó, firmemente amarrada, havia uma caixa comprida, estreita e oblonga.

Havia outras coisas no trenó: cobertores, um machado, um bule de café e uma frigideira; todavia, o que mais chamava a atenção, ocupando quase todo o trenó, era a caixa comprida, estreita e oblonga.

É frente dos cães, um homem com largas raquetes nos pés caminhava penosamente. Atrás do trenó seguia também com esforço segundo homem. No trenó, dentro da caixa, jazia um terceiro homem cuja lida havia se se encerrado - um homem a que o Wild subjugara e abatera de tal maneira que jamais se levantaria e nem lutaria outra vez. Não é próprio do Wild a afeição pelo movimento. A vida constitui-lhe um insulto, pois que se move; e o Wild tem como meta a destruição.

Ele congela a água pra que não corra para o mar; suga a seiva das árvores até emperdernir-lhes o coração com sua frialidade. Nada, no entanto, é mais feroz e terrível do que o modo esmagador com que sujeita o homem - o homem, a mais desassossegada das formas de vida, sempre em reta com a máxima de que todo movimento, por fim, cessará.


a pRAGA eSCARLATE

segunda-feira, 27 de abril de 2009

oS sERTÕES: pRELIMINARES*


O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando o consideravelmente para o interior.

De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a principio o traço contínuo e dominante das montanhas, precintando o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias; depois, no segmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando se em baias, repartindo se em ilhas, e desagregando se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...

Este facies geográfico resume a morfogenia do grande maciço continental.

Demonstra o análise mais íntima feita por um corte meridiano qualquer, acompanhando à bacia do S. Francisco.

Vê se, do fato, que três formações geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se entrelaçam, em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveis da fisionomia da terra. Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo sul se encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. A princípio abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, até as raias do litoral paulista, feito dilatado muro de arrimo sustentando as formações sedimentárias do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas; e quem a alcança como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica todos os exageros descritivos — do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle — que fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina.

É que, de feito, sob o tríplice aspecto astronômico, topográfico e geológico a nenhuma se afigura tão afeiçoada à Vida.

Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico, vêem se, estirados para o ocidente e norte, extensos chapadões cuja urdidura de camadas horizontais de grés argiloso, intercaladas de emersões calcárias, ou diques de rochas eruptivas básicas, do mesmo passo lhes explica a exuberância sem par e as áreas complanadas e vastas. A terra atrai irresistivelmente o homem, arrebatando o na própria correnteza dos rios que, do Iguaçu ao Tietê, traçando originalíssima rede hidrográfica, correm da costa para os sertões, como se nascessem nos mares e canalizassem as suas energias eternas para os recessos das matas opulentas. Rasgam facilmente aqueles estratos em traçados uniformes, sem talvegues deprimidos, e dão ao conjunto dos terrenos até além do Paraná a feição de largos plainos ondulados, desmedidos.

Entretanto, para leste a natureza é diversa.

Estereografa se, duramente, nas placas rígidas dos afloramentos gnáissicos; e o talude dos planaltos dobra se do socalco da Mantiqueira, onde se encaixa o Paraíba, ou desfaz se em rebentos que, após apontarem as alturas de píncaros centralizados pelo Itatiaia, levam até o âmago de Minas as paisagens alpestres do litoral. Mas ao penetrar se este Estado nota se, malgrado o tumultuar das serranias, lenta descensão geral para o norte. Como nos altos chapadões de São Paulo e do Paraná, todas as caudais revelam este pendor insensível com derivarem em leitos contorcidos e vencendo, contrafeitas, o antagonismo permanente das montanhas: o rio Grande rompe, rasgando a com a força viva da corrente, a serra da Canastra, e, norteados pela meridiana, abrem se adiante os fundos vales de erosão do rio das Velhas e do S. Francisco. Ao mesmo tempo, transpostas as sublevações que vão de Barbacena a Ouro Preto, as formações primitivas desaparecem, mesmo nas maiores eminências, e jazem sotopostas a complexas séries de xistos metamórficos, infiltrados de veeiros fartos, nas paragens lendárias do ouro.

A mudança estrutural origina quadros naturais mais imponentes que os da borda marítima. A região continua alpestre. O caráter das rochas, exposto nas abas dos cerros de quartzito, ou nas grimpas em que se empilham as placas do itacolomito avassalando as alturas, aviva todos os acidentes, desde os maciços que vão de Ouro Branco a Sabará, à zona diamantina expandindo se para nordeste nas chapadas que se desenrolam nivelando se às cimas da serra do Espinhaço; e esta, apesar da sugestiva denominação de Eschwege, mal sobressai, entre aquelas lombadas definidoras de uma situação dominante. Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando "travessões" sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto arrimados à serra dos Aimorés; e volvem águas remansadas para o poente os que se destinam à bacia de captação do S. Francisco, em cujo vale, depois de percorridas ao sul as interessantes formações calcárias do rio das Velhas, salpintadas de lagos, solapadas de sumidouros e ribeirões subterrâneos, onde se abrem as cavernas do homem pré histórico de Lund, se acentuam outras transições na contextura superficial do solo.

De fato, as camadas anteriores, que vimos superpostas às rochas graníticas, decaem, por sua vez sotopondo se a outras, mais modernas de espessos estratos de grés.

Novo horizonte geológico reponta com um traço original e interessante. Mal estudado embora, caracteriza o notável significação orográfica, porque as cordilheiras dominantes do sul ali se extinguem, soterradas, numa inumação estupenda, pelos possantes estratos mais recentes, que as circundam. A terra, porém, permanece elevada, alongando se em planuras amplas, ou avultando em falsas montanhas de denudação, descendo em aclives fortes, mas tendo os dorsos alargados em plainos inscritos num horizonte de nível, apenas apontoado a leste pelos vértices dos albardões distantes, que perlongam a costa.

Verifica se. assim, a tendência para um aplainamento geral.

Porque, neste coincidir das terras altas do interior e a depressão das formações arqueanas, a região montanhosa de minas se vai prendendo, sem ressaltos, à extensa zona dos tabuleiros do norte.

A serra do Grão Mogol raiando as lindes da Bahia, é o primeiro espécimen dessas esplêndidas chapadas imitando cordilheiras, que tanto perturbam aos geógrafos descuidados; e as demais que a convizinham, da do Cabral mais próxima, à da Mata da Corda alongando se para Goiás, modelam se de maneira idêntica. Os sulcos de erosão que as retalham são cortes geológicos expressivos. Ostentam em plano vertical, sucedendo se a partir da base, as mesmas rochas que vimos substituírem em alongado roteiro pela superfície: embaixo os rebentos graníticos decaídos pelo fundo dos vales, em cômoros esparsos; à meia encosta, inclinadas, as placas xistosas mais recentes; no alto, sobrepujando as, ou circuitando lhes os flancos em vales monoclínicos, os lençóis de grés, predominantes e oferecendo aos agentes meteóricos plasticidade admirável aos mais caprichosos modelos. Sem linhas de cumeadas, as maiores serranias nada mais são que planuras altas, extensas rechãs terminando de chofre em encostas abruptas, na molduragem golpeante do regímen torrencial sobre o terreno permeável e móvel. Caindo por ali há séculos as fortes enxurradas, derivando a princípio em linhas divagantes de drenagem, foram pouco a pouco reprofundando as, talhando as em quebradas que se fizeram cañons, e se fizeram vales em declive, até orlarem de escarpamentos e despenhadeiros aqueles plainos soerguidos. E consoante a resistência dos materiais trabalhados variaram nos aspectos: aqui apontam, rijamente, sobre as áreas de nível, os últimos fragmentos das rochas enterradas, desvendando se em fraguedos que mal relembram, na altura, o antiqüíssimo "Himalaia brasileiro", desbarrancado, em desintegração contínua, por todo o curso das idades; adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos incorretos de menires colossais, ou em círculos enormes, recordando na disposição dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em ruínas ou então, pelos visos das escarpas, oblíquos e sobreanceando as planuras que, interopostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da monstruosa abóbada da antiga cordilheira, desabada...

Mas desaparecem de todo em vários pontos.

Estiram se então planuras vastas. Galgando as pelos taludes, que as soerguem dando lhes a aparência exata de tabuleiros suspensos, topam se, a centenas de metros, extensas áreas ampliando se, boleadas, pelos quadrantes, numa prolongação indefinida, de mares. É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões ondulantes —grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros...

Atravessêmo-la.

Adiante, a partir de Monte Alto, estas conformações naturais se bipartem: no rumo firme do norte a série do grés figura se progredir até ao plateau arenoso do Açuruá, associando se ao calcário que aviva as paisagens na orla do grande rio, prendendo as às linhas dos cerros talhados em diáclase, tão bem expressos no perfil fantástico do Bom Jesus da Lapa; enquanto para nordeste, graças a degradações intensas (porque a serra Geral segue por ali como anteparo aos alísios, condensando os em diluvianos aguaceiros), se desvendam, ressurgindo, as formações antigas.

Desenterram se as montanhas.

Reponta a região diamantina, na Bahia, revivendo inteiramente a de Minas, como um desdobramento ou antes um prolongamento, porque é a mesma formação mineira rasgando, afinal, os lençóis de grés, e alteando se com os mesmos contornos alpestres e perturbados, nos alcantis que irradiam da Tromba ou avultam para o norte nos xistos huronianos das cadeias paralelas de Sincorá.

Deste ponto em diante, porém, o eixo da serra Geral se fragmenta, indefinido. Desfaz se. A cordilheira eriça se de contrafortes e talhados de onde saltam, acachoando, em despenhos, para o levante, as nascentes do Paraguaçu, e um dédalo de serranias tortuosas, pouco elevadas mas inúmeras, cruza se embaralhadamente sobre o largo dos gerais, cobrindo os. Transmuda se o caráter topográfico, retratando o desapoderado embater dos elementos, que ali reagem há milênios entre montanhas derruídas, e a queda, até então gradativa, dos planaltos começa a derivar em desnivelamentos consideráveis. Revela os o S. Francisco, no vivo infletir com que torce para o levante, indicando do mesmo passo a transformação geral da região.

Esta é mais deprimida e mais revolta.

Cai para os terraços inferiores, entre um tumultuar de morros, incoerentemente esparsos. Último rebento da serra principal, a da Itiúba reúne lhe alguns galhos indecisos, fundindo as expansões setentrionais das da Furna, Cocais e Sincorá. Alteia se um momento, mas descai logo para todos os rumos: para o norte, originando a corredeira de quatrocentos quilômetros à jusante do Sobradinho; para o sul, em segmentos dispersos que vão até além do Monte Santo; e para leste, passando sob as chapadas de Jeremoabo, até se desvendar no salto prodigioso de Paulo Afonso.

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido...

a eNTRADA nO sERTÃO


E
stá sobre um socalco do maciço continental, ao norte.

Demarca o de uma banda, abrangendo dois quadrantes, em semicírculo, o rio de S. Francisco: e de outra, encurvando também para sudeste, numa normal a direção primitiva, o curso flexuoso do Itapicuru açu. Segundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o mesmo descambar expressivo para a costa, vê-se o traço de um outro rio, o Vaza Barris, o Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as cabeceiras é uma fantasia de cartógrafo. De fato, no estupendo degrau, por onde descem para o mar ou para jusante de Paulo Afonso as rampas esbarrancadas do planalto, não há situações de equilíbrio para uma rede hidrográfica normal. Ali reina a drenagem caótica das torrentes, a naquele da Bahia facies excepcional e selvagem.

tERRA iGNOTA


A
bordando o, compreende se que até hoje escasseiem sobre tão grande trato de território, que quase abarcaria a Holanda (9º 11' — 10º 20' de lat. e 4° — 3° de long. O.R.J. ), notícias exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de serras.

E, que transpondo o Itapicuru, pelo lado do sul, as mais avançadas turmas de povoadores estacaram em vilarejos minúsculos — Maçacará, Cumbe ou Bom Conselho — entre os quais o decaído Monte Santo tem visos de cidade: transmontada a Itiúba, a sudoeste, disseminaram se pelos povoados que a abeiram acompanhando insignificantes cursos de água, ou pelas raras fazendas de gado, estremados todos por uma tapera obscura — Uauá, ao norte e a leste pararam às margens do S. Francisco, entre Capim Grosso e Santo Antônio da Glória.

Apenas naquele último rumo se avantajou uma vila secular, Jeremoabo, batizando o máximo esforço de penetração em tais lugares, evitados sempre pelas vagas humanas, que vinham do litoral baiano procurando o interior.

Uma ou outra o cortou, rápida, fugindo, sem deixar traços.

Nenhuma lá se fixou. Não se podia fixar. O estranho território, a menos de quarenta léguas da antiga metrópole, predestinava se a atravessar absolutamente esquecido os quatrocentos anos da nossa história. Porque enquanto as bandeiras do sul lhe paravam à beira e envesgando, depois, pelos flancos da Itiúba, se lançavam para Pernambuco e Piauí até o Maranhão as do levante, repelidas pela barreira intransponível de Paulo Afonso, iam procurar, no Paraguaçu e rios que lhe demoram ao sul, linhas de acesso mais praticáveis, Deixavam no de permeio, inabordável, ignoto.

É que mesmo trilhando o último daqueles rumos, adstritas a itinerário menos longo, as salteava impressionadoramente o aspecto estranho da terra repontando em transições imprevistas.

Deixando a orla marítima e seguindo em cheio para o ocidente, tinham, transcorridas poucas léguas, amolentada ou desinfluída a atração das "entradas" aventurosas, e extinta a miragem do litoral opulento. Logo a partir de Camassari as formações antigas cobrem se de escassas manchas terciárias, alternando com exíguas bacias cretáceas, revestidas do terreno arenoso de Alagoinhas que mal esgarçam, a leste, as emersões calcárias de Inhambupe. A vegetação em roda transmuda se, copiando estas alternativas com a precisão de um decalque. Rarefazem se as matas, ou empobrecem. Extinguem se, por fim, depois de lançarem rebentos esparsos pelo topo das serranias; e estas mesmo, aqui e ali, cada vez mais raras, ilham se ou avançam em promontório nas planuras desnudas dos campos, onde uma flora característica — arbustos flexuosos entrechassados de bromélias rubras — prepondera exclusiva em largas áreas, mal dominada pela vegetação vigorosa irradiante da Pojuca sobre o massapé feraz das camadas cretáceas decompostas.

Deste lugar em diante, reaparecem os terrenos terciários esterilizadores, sobre os mais antigos que, entretanto, depois, dominam em toda a zona centralizada em Serrinha. Os morros do Lopes e do Lajedo aprumam se, à maneira de disformes pirâmides de blocos arredondados e lisos; e os que se sucedem, beirando de um e outro lado as abas das serras da Saúde e da Itiúba, até Vila Nova da Rainha e Juazeiro, copiam lhes os mesmos contornos das encostas estaladas, exumando a ossatura partida das montanhas.

O observador tem a impressão de seguir torneando a truncadura malgradada da borda de um planalto.

Calca, de fato, estrada três vezes secular, histórica vereda por onde avançavam os rudes sertanistas nas suas excursões para o interior.

Não a alteraram nunca.

Não a variou, mais tarde, a civilização, justapondo aos rastos do bandeirante os trilhos de uma via férrea.

Porque o caminho em cuja longura de cem léguas, da Bahia ao Juazeiro, se entroncam numerosíssimos desvios para o poente e para o sul, jamais comportou, a partir de seu trecho médio, variante apreciável para leste e para o norte.

Calcando o, em demanda do Piauí, Pernambuco, Maranhão e Pará, os povoadores, consoante vários destinos, dividiam se em Serrinha. E progredindo para Juazeiro, ou volvendo à direita, pela estrada real do Bom Conselho que, desde o século 17, os levava a Santo Antônio da Glória e Pernambuco — uns e outros contorneavam sempre, evitando a sempre, a paragem sinistra e desolada, subtraindo se a uma travessia torturante.

De sorte que aquelas duas linhas de penetração, que vão interferir o S. Francisco em pontos afastados — Juazeiro e Santo Antônio da Glória —, formavam, desde aqueles tempos, as lindes de um deserto.

eM cAMINHO pARA mONTE sANTO


N
o entanto quem se abalança a atravessá lo, partindo de Queimadas para nordeste, não se surpreende a princípio. Recurvo em meandros, o Itapicuru alenta vegetação vivaz; e as barrancas pedregosas do Jacurici debruam se de pequenas matas. O terreno, areento e chão, permite travessia desafogada e rápida. Aos lados do caminho ondulam tabuleiros rasos. A pedra, aflorando em lajedos horizontais, mal movimenta o solo, esgarçando a tênue capa das areias que o revestem.

Vêem se, porém, depois, lugares que se vão tornando crescentemente áridos.

Varada a estreita faixa de cerrados, que perlongam aquele último rio, está se em pleno agreste, no dizer expressivo dos matutos: arbúsculos quase sem pega sobre a terra escassa, enredados de esgalhos de onde irrompem, solitários, cereus rígidos e salientes, dando ao conjunto a aparência de uma margem de desertos. E o facies daquele sertão inóspito vai se esboçando, lenta e impressionadoramente...

Galga se uma ondulação qualquer — e ele se desvenda ou se deixa adivinhar, ao longe, no quadro tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem um traço diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas.

Intercorrem ainda paragens menos estéreis, e nos trechos em que se operou a decomposição in situ do granito, originando algumas manchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros circuitam — parêntesis breves abertos na aridez geral — as bordas das ipueiras. Estas lagoas mortas, segundo a bela etimologia indígena, demarcam obrigatória escala ao caminhante. Associando se às cacimbas e "caldeirões", em que se abre a pedra, são lhe recurso único na viagem penosíssima. Verdadeiros oásis, têm contudo, não raro, um aspecto lúgubre: localizadas em depressões, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada, recortando se com destaque no chão poento e pardo, graças à placa verde negra das algas unicelulares que as revestem.

Algumas denotam um esforço dos filhos do sertão. Encontram se, orlando as, erguidos como represas entre as encostas, toscos muramentos de pedra seca. Lembram monumentos de uma sociedade obscura. Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, vêm em geral, de remoto passado. Delinearam nos os que se afoitaram primeiro com as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis, porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes.

Mas transpostos estes pontos — imperfeita cópia das barragens romanas remanescentes na Tunísia — entra se outra vez nos areais exsicados. E avançando célere, sobretudo nos trechos em que se sucedem pequenas ondulações, todas da mesma forma e do mesmo modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação da imobilidade. Patenteiam se lhe uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável que se afasta à medida que ele avança. Raras vezes, como no povoado minúsculo de Cansanção, larga emersão de terreno fértil se recama de vegetação virente.

Despontam vivendas pobres; algumas desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras, agravando todas no aspecto paupérrimo o traço melancólico das paisagens...

Nas cercanias de Quirinquinquá, porem, começa a movimentar se o solo. O pequeno sítio ali ereto alevanta-se já sobre alta expansão granítica, e atentando se para o norte divisa se região diversa — riçada de vales e serranias, perdendo se ao longe em grimpas fugitivas. A serra de Monte Santo, com um perfil de todo oposto aos redondos contornos que lhe desenhou o ilustre Martins, empina-se, a pique, na frente, em possante dique de quartzito branco, de azulados tons, em relevo sobre a massa gnáissica que Constitui toda a base do solo. Dominante sobre seu enorme paredão, vincado pelas linhas dos estratos, expostas pela erosão eólia, afigura se cortina de muralha monumental. Termina em crista altíssima, estremando lhe o desenvolvimento no rumo de 13° NE, a cavaleiro da vila que se lhe erige no sopé. Centraliza um horizonte vasto. Observa se, então, que atenuados para o sul e leste, os acidentes predominantes da terra progridem avassalando os quadrantes do norte.

O sítio do Caldeirão, três léguas adiante, ergue se à margem dessa sublevação metamórfica; e alcançando o, e transpondo entra se. afinal, em cheio, no sertão adusto...

pRIMEIRAS iMPRESSÕES


É
uma paragem impressionadora

As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando se ou entrelaçando se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça — dispondo se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.

Porque o que estas denunciam — no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos — é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.

As forças que trabalham a terra atacam na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Dissociam-na nos verões queimosos; degradam na nos invernos torrenciais. Vão do desequilíbrio molecular, agindo surdamente, à dinâmica portentosa das tormentas. Ligam se e completam se. E consoante o preponderar de uma e outra, ou o entrelaçamento de ambas, modificam se os aspectos naturais. As mesmas assomadas gnáissicas caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares, que surgem em numerosos pontos, dando, às vezes, a ilusão de encontrar se, de repente, naqueles ermos vazios, majestosas ruinarias de castelos — adiante se cercam de fraguedos, em desordem, mal seguros sobre as bases estreitas, em ângulos de queda, incombentes e instáveis, feito loghans oscilantes, ou grandes desmoronamentos de dolmens; e mais longe desaparecem sob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses "mares de pedra" tão característicos dos lugares onde imperam os regímens excessivos. Pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda — restos de velhíssimas chapadas corroídas —, se derramam, ora em alinhamentos relembrando velhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajens fraturadas, delatando idênticas violências. As arestas dos fragmentos, onde persistem ainda cimentados ao quartzo os cristais de feldspato, são novos atestados desses eleitos físicos e mecânicos que, despedaçando as rochas, sem que se decomponham os seus elementos formadores, se avantajaram ao vagar dos agentes químicos em função dos fatos meteorológicos normais.

Deste modo se tem a cada passo, em todos os pontos, um lineamento incisivo de rudeza extrema. Atenuando o em parte, deparam se várzeas deprimidas, sedes de antigos lagos, extintos agora em ipueiras apauladas, que demarcam os pousos dos vaqueiros. Recortam nas, no entanto, abertos em caixão, os leitos as mais das vezes secos de ribeirões que só se enchem nas breves estações das chuvas. Obstruídos, na maioria, de espessos lastros de blocos entre os quais, fora das enchentes súbitas, defluem tênues fios de água, são uma reprodução completa dos oueds que marginam o Saara. Despontam lhes em geral, normais às barrancas, estratos de um talcoxisto azul escuro em placas brunidas reverberando a luz em fulgurar metálico — e sobre elas, cobrindo extensas áreas, camadas menos resistentes de argila vermelha, cindidas de veios de quartzo, interceptando lhes, discordantes, os planos estratigráficos. Estas últimas formações, silurianas talvez, cobrem de todo as demais à medida que se caminha para NE e apropriam se a contornos mais corretos. Esclarecem a gênese dos tabuleiros rasos, que se desatam, cobertos de uma vegetação resistente, de mangabeiras, até Jeremoabo.

Para o norte, porém, inclinam se mais fortemente as camadas. Sucedem se cômoros despidos, de pendores resvalantes, descaindo em quebradas onde enxurram torrentes periódicas, solapando-os; e pelos seus topos divisam se, alinhadas em fileiras, destacadas em lâminas, as mesmas infiltrações quartzosas, expostas pela decomposição dos xistos em que se embebem.

À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente — ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

As erosões constantes quebram, porém, a continuidade destes estratos que ademais, noutros pontos, desaparecem sob as formações calcárias. Mas o conjunto pouco se transmuda. A feição ruiniforme destas, casa se bem a dos outros acidentes. E nos trechos em que elas se estiram, planas, pelo solo, desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos, crivam se, escarificadas, de cavidades circulares e acanaladuras fundas, diminutas mas inúmeras, tangenciando se em quinas de rebordos cortantes, em pontas e duríssimos estrepes que impossibilitam as marchas.

Deste modo, por qualquer vereda, sucedem se acidentes pouco elevados mas abruptos, pelos quais tornejam os caminhos, quando não se justapõem por muitas légua aos leitos vazios dos ribeirões esgotados. E por mais inexperto que seja o observador — ao deixar as perspectivas majestosas, que se desdobram ao Sul, trocando as pelos cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente de calcar o fundo recém sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens...

uM sONHO dE gEÓLOGO*


É
uma sugestão empolgante.

Vai se de boa sombra com um naturalista algo romântico, imaginando se que por ali turbilhonaram, largo tempo, na idade terciária, as vagas e as correntes.

Porque, a despeito da escassez de dados permitindo uma dessas profecias retrospectivas, no dizer elegante de Huxley, capaz de esboçar a situação daquela zona em idades remotas, todos os caracteres que sumariamos reforçam a concepção aventurosa.

Alentam na ainda: o estranho desnudamento da terra; os alinhamentos notáveis em que jazem os materiais fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de nível, os flancos das serranias; as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes a prumo, que recordam falaises; e, até certo ponto, os restos da fauna pliocena, que fazem dos caldeirões enormes ossuários de mastodontes, cheios de vértebras caldeirões desconjuntadas e partidas, como se ali a vida fosse, de chofre, salteada e extinta pelas energias revoltas de um cataclismo.

Há também a presunção derivada de situação anterior, exposta em dados positivos. As pesquisas de Fred. Hartt, de fato, estabelecem, nas terras circunjacentes a Paulo Afonso, a existência de inegáveis bacias cretáceas; e sendo os fósseis que as definem idênticos aos encontrados no Peru e México, e contemporâneos dos que Agassiz descobriu no Panamá — todos estes elementos se acolchetam no deduzir se que vasto oceano cretáceo rolou as suas ondas sobre as terras fronteiras das duas Américas, ligando o Atlântico ao Pacífico. Cobria, assim, grande parte dos Estados setentrionais brasileiros, indo bater contra os terraços superiores dos planaltos, onde extensos depósitos sedimentários denunciam idade mais antiga, o paleozóico médio.

Então, destacadas das grandes ilhas emergentes, as grimpas mais altas das nossas cordilheiras mal apontavam ao norte, na solidão imensa das águas...

Não existiam os Andes o Amazonas, largo canal entre altiplanuras das Guianas e as do continente, separava as, ilhadas. Para as bandas do sul o maciço de Goiás — o mais antigo do mundo — segundo a dedução dedução de Gerber, o de Minas e parte do Planalto Paulista, onde fulgurava, em plena atividade, o vulcão de Caldas, constituíam o núcleo do continente futuro . . .

Porque se operava lentamente uma sublevação geral: as Nassas graníticas alteavam se ao norte arrastando o conjunto geral das terras numa rotação vagarosa em torno de um eixo, imaginado por Em. Liais entre os chapadões de Barbacena e a Bolívia. Simultaneamente ,ao abrir se a época terciária, se realiza o fato prodigioso do alevantamento dos Andes; novas terras afloram nas águas: tranca se, num extremo, o canal amazônico, transmudando se no maior dos rios; ampliam se os arquipélagos esparsos, e ganglionam se em istmos, e fundem se; arredondam se, maiores, os contornos das costas; e integra se lentamente, a América.

Então os terrenos da extrema setentrional da Bahia, que se resumiam nos cachopos de quartzito de Monte Santo e visos de Itiúba, esparsos pelas águas, avolumaram se, num ascender contínuo. Elas nesse vagaroso altear-se, enquanto as regiões mais altas recém desvendadas, se salpintavam de lagos, toda a parte média daquela escarpa permanecia imersa. Uma corrente impetuosa, de que é forma decaído a atual da nossa costa, enlaçava a. E embatendo a longamente, domina enquanto o resto do país, ao sul, se erigia já constituído, e corroendo a, e triturando a, remoinhando para oeste e arrebatando todos os materiais desagregados, modelava aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo o movimento geral das terras, feito informe amontoado de montanhas derruídas.

O regímen desértico ali se firmou, então, em flagrante antagonismo com as disposições geográficas: sobre uma escarpa, onde nada recorda as depressões sem escoamento dos desertos clássicos.

Acredita se que a região incipiente ainda está preparando se para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando a terra. E lutando tenazmente com o flagelar do clima, uma flora de resistência rara por ali entretece a trama das raízes, obstando, em parte, que as torrentes arrebatem todos os princípios exsolvidos — acumulando os pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza — sem impedir, contudo, nos estios longos, as insolações inclementes e as águas selvagens, degradando o solo.

Daí a impressão dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão — quase um deserto — quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire, monotonamente, em descampados grandes...





*Preliminares do primeiro capítulo da maior grande reportagem apurada no Brasil até hoje: a obra-prima Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha - o qual, na verdade, era militar. O livro divide-se em três partes: A terra, O homem e A luta. Vai da prosa científica à artística, da sociologia à geografia e da história à crítica humanista.

É uma expedição literária que todos (sobretudo os jovens) deveriam experimentar: custa apenas o preço de um livro.

A gravura no post de abertura foi retirada da HQ Os Sertões (Agir), que tem assinatura do desenhista Rodrigo Rosa e do roteirista Carlos Ferreira.

domingo, 26 de abril de 2009

rETRATO dE uMA gERAÇÃO

POR MARCELO BENVENUTTI

Escolhi publicidade na fila da inscrição
pro vestibular da PUC em 1995. Tinha feito Um semestre de jornalismo em 1988 e largado para fazer uma só faculdade por vez, em vez de Duas ao mesmo tempo, e me formei contador pela UFRGS.

Não sei se foi certo ou errado, sempre gostei de jornalismo e nunca trabalhei até hoje em publicidade, e nem acredito que vá trabalhar. Tinha apenas o ingênuo pensamento em fazer uma faculdade que eu pudesse usar minha habilidade em escrever. Baita engano.

Na publicidade logo vi que o lance era todo visual e eu, um pretenso escritor, estava perdido naquele meio de Photoshops, máquinas digitais e programas de desenho. Mas ainda me enganei por alguns semestres.

Nos três primeiros semestres, com o curso básico e as turmas de PP, Jornal e RP misturadas, é que as amizades se formavam. Eu fazia um trio com dois colegas, o Andrezinho, que até hoje trabalha com uma empresa de vídeos de formaturas, casamentos e o cacete, e o Tiago Carnevale,
vulgo Testa, colorado doente, que é um dos melhores editores de vídeo de Porto Alegre.

Saíamos da aula para os malfadados bares da Bento, Sbornia e aquela escória toda. Com o tempo minhas amizades foram aumentando e, por afinidade como diriam os macacos do BBB, eu só andava com o povo do Jornalismo.

O Cocó, colorado e maconheirista, o Alisson e o T.Rex formavam um trio tenebroso no saguão da Famecos, olhando peitos e bundas das minas que passavam, bebendo ceva e utilizando-se de narcóticos proibidos no pátio.

Naquela época, antes da invasão da BM lá por 1997, o pátio da FUMECOS era o centro global da maconheirização da PUC. Depois aos poucos tudo foi sendo proibido, inclusive a ceva, cujo último reduto foi o bar do Hospital, do outro lado da Ipiranga.

T.Rex, Cristiano Bastos, jornalista que considera os cotovelos um órgão erógeno, tinha esse apelido por sua tara insana por Marc Bolan.

Juntavam-se a nós o mau caráter do Rafael Rossatto, comedor de travecos e bicha não-assumida, e Carlos Carneiro, vulgo Carlinhos, Carneiro ou, para os íntimos, o Gordo.

Sem falar, claro, em Francisco Bretanha, mais conhecido como Chicão ou o nosso Personal Preza.

Em torno dessas mentes insanas adentrei-me invadindo, vi que eles eram doidos como eu, só que eu de cara, e logicamente me identifiquei com suas causas desmotivadas de qualquer interesse comercial, somente porralouquice inconsequente, traduzida pelo lema:

"TREPEM NAS RUAS!".

Ou como diria Kátia, nossa musa inspiradora esborniana, moça romântica que encontrou o amor e hoje espera o segundo filho: "PAU PRA FORA!".

O zine ZÊ foi apenas um dos caminhos percorridos por essa trupe, a qual muitos outros nomes se juntam. Lembro que certa vez, largando minhas histórias impressas em word da pré-história, eu que tinha um zine no GEOCITIES, e mostrava pros malucos.

Certa vez, furando a roda de bate-papo, todos me olharam incrédulos, quando Carlinhos me defendeu (ninguém me conhecia): "Ele é louco mas é gente boa".

Dessa época, insulflado pelo auge do Garagem Hermética, da psicodelia osvaldiana, Lancheira do Parque, fim do século 20, do mundo e da escrita em primeira pessoa, nasceu em uma festa organizada pelo mkoviemaker selfmademan Cristiano Zanella chamada Cinemeando que nasceu
o significativo grito de guerra Flesh Nouveau!:

ARRRRTE!!!

Gritado ao extremo quando na presença de qualquer manifestação intelectualóide que nos tirasse
de nossa misantropia alcoólica. O mundo estava mudando e nossa rebeldia pós-punk era vista com maus olhos pela estética WEB dos neo-nerds.

Retratamos nossa inconformidade no texto "CHUTE O TRASEIRO DOS ALTERNATVOS", na qual fomos repelidos pela sociedade, assim como nossos ícones, uns velhos que hoje se auto-intitulam MC5.

A nos iluminar fulgura a sombra de William Caveman, o verdadeiro espírito punk, morto pela AIDS, e sobre o qual estamos escrevendo um romance documentário chamado TESTEMUNHAS DE JOHN LENNON.

Obviamente não desistimos.

Estamos mais velhos e cada vez piores.

Ou, como diria T.Rex, excitado em um Garagem lotado, de braços cruzados, sorriso largo e olhos tenebrosamente amáveis:

"SINTO PEITINHOS EM MEUS COTOVELOS".

sexta-feira, 24 de abril de 2009

sERESTA mODERNA


CRISTIANO BASTOS
A caminho de 2010, um trecho do livro Eu Não Sou Cachorro Não - Música Popular Cafona e Ditadura Militar, do jornalista Paulo César Araújo (autor que viu sua biografia do Robertão ser banida via "decreto real"), é indispensável para compreender porque o elitismo brabo reina há tempos na "crítica musical" brasileira.

Especialmente, aquela traçada nos suplementos culturais de grandes jornais em circulação. Tradicionais redutos de gélida lúmpen-intelectualidade - que torna incapaz a demonstração de mínima sensibilidade para apreciar a dupla Teixeirinha & Mary Teresinha, por exemplo.

E dizer ao final: "Que ducaralho!".

Mesmo que o artista goze popularidade no Japão. Caso do Teixeirinha. Que, por seu turno, é esquecido também por veículos do Rio Grande do Sul, seu Estado Natal - aquele que "cuida de sua tradição"...

Durante sete anos, Araújo estudou a história da chamada canção cafona (ou brega) entre 1968 e 1978 – os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil. Ele foi atrás de respostas:

Porque artistas como Odair José, Benito Di Paula e Agnaldo Timóteo foram ignorados por estudos e livros sobre o período e marginalizados na história cultural do país?

Constatou que os chamados cafonas, que embalavam as massas, eram abominados pelos intelectuais. Foram quase tão vitimados pela censura quanto os "coitadinhos-queridinhos" Chico & Caetano.

Em Eu Não Sou Cachorro (título do grande sucesso do falecido Waldick Soriano, na foto post), o historiador - "exército de um homem só" - se esforça para fazer justiça aos ídolos populares da nação.

O cantor Nelson Gonçalves, entre eles.

Na obra, o autor lembra que Nelson, nos seus 60 anos de carreira, enfrentou fortes resistências com a crítica "identificada à modernidade".

Em 1966, quando o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro iniciou a gravação de uma série de depoimentos para a posteridade com alguns artistas da MPB, a ênfase recaiu sobre personagens da velha guarda ligados à "tradição": João da Biana, Donga, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ataulfo Alves.

O que não impediu, contudo, que um jovem chamado Chico Buarque (22 anos à época) também fosse convidado a falar...

Nelson Gonçalves, àquela altura já com quase 50 anos de idade e mais de 25 de carreira, considerava-se também pronto para relatar ao museu sua rica história de vida.

Entretanto, os altos integrantes do Conselho Nacional de Música Popular do MIS (o nome já entrega...) - os quais elegiam os nomes para depor - julgaram que "a produção musical do cantor não justificava a gravação de seu depoimento naquela instituição".

Este fato magoou profundamente Nelson Gonçalves.

A tal ponto que, anos mais tarde, quando o MIS finalmente se convenceu de que o cantor merecia ser ouvido, desta vez foi ele próprio que se recusou a falar, morrendo em 1998 sem deixar seu depoimento registrado.

Bem feito.

O lamentável episódio exemplifica a dificuldade que um artista popular - não totalmente identificado à "tradição" ou à "modernidade" - encontra para ser enquadrado na memória da MPB.

O intérprete de "A Volta do Boêmio" nunca esteve identificado à "modernidade".

Ao contrário de nomes como Dick Farney e Johnny Alf, o Metralha não revelou influências de jazz (o que, contudo, não é inteiramente verdade).

Como também os seus sambas-canção, em parte de autoria do compositor Adelino Moreira, eram considerados abolerados, descarecterizados ou de "mau gosto".

No perfil jornalístico Hóspede das Tempestades, sobre o cantor Vicente Celestino, o romancista baiano Guido Guerra descobriu outros fatos interessantes.

A canção "Seresta Moderna", decifra Guerra, interpretada pelo Metralha no álbum Nós e a Seresta, de 1962, na realidade é uma canção-protesto de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves.

Contra a bossa nova:

Seresta moderna não tem poesia
Não tem noite de lua
Não tem luar
Não tem cavaquinho

Não tem violão
E nem mesmo um pandeiro
Para o sambar ritmar
Seresta moderna
Agora é Hi-Fi

Num canto de sala
Num apartamento
Vitrola tocando
Bebida rolando

Gritinhos nervosos
A todo momento
Um gaiato cantando sem voz
Um samba sem graça
Desafinado que só vendo

Parece até coisa de "indie"...

Seresta Moderna



Não resta dúvida:

O "gaiato cantando sem voz" e o "desafinado" é João Gilberto.

"Seresta Moderna" é um murro certeiro desferido por Nelson, na cara da instituição crítica-especializada, nos jornalistas e mesmo nos historiadores que, pós-advento da bossa, passaram a sofrer de gritante cegueira: não enxergam mais o samba antigo em seu campo de visão crítica.

Chico, Gil, Caetano, Tom, Vinícius e tantos outros, porém, não são culpados por serem considerados "gênios". Mas, a crítica lhes exaltou (ainda exalta!) sobremaneira.

Para mim, como relegar a Kinks, Byrds, Pretty Things, The Sonics grandeza menor em relação à beatlemania: nem Lennon agüentava mais ficar falando sobre a sua própria criatura.

A história dos Beatles virou um troço chato.

Em sua memória, a inteligência brasileira não preservou uns "gigas" para poder processar o legado artístico da legião de almas que - a vagar - deprimi-se no limbo da história.

Emudecidos, tesouros dormem debaixo da terra.

Mas o Caetano - que tolo não é - conhecia o valor da "lost generation" desde criança. Ouviu "Maria Bethânia" irradiada do rádio de sua casa, em Salvador, e ficou impressionado com a letra, a beleza da melodia, o timbre de voz do Metralha.

Sugeriu à mãe que desse o nome da música (do recifense Capiba) à irmã. Por pouco, Bethânia não foi batizada "Maria Gislaine". Em 1978, no Fantástico, os manos apresentaram "Maria Bethânia" coladinha num hit daqueles tempos:

"Leãozinho".

quinta-feira, 23 de abril de 2009

mESAS bELGAS



*Sérgio Bittencourt, jornalista, compositor e filho do bandolinista Jacob do Bandolim - maior autor de choros do Brasil - escreveu "Naquela mesa" para homenagear o pai, que se foi em 1969.

Em 1975, Nelson Gonçalves deixou na música seu vozeirão, reverberando a milhares de léguas submarinas: primeiro lugar nas paradas de sucesso na Bélgica (!).

Acredite se quiser. Absurda prova de universalidade da arte musical.

Nessa apresentação em p&b, na antiga TV Record, Elizeth Cardoso canta "Naquela Mesa" acompanhada do próprio Bittencourt ao violão. De mãos dadas com a"Divina" (madrinha' vocal de Maysa), Dona Adylia, viúva de Jacob.

A versão eternizada pelo Nelson:






Jacob do Bandolim (1918/1969)

tOP 11: mALANDRAGEM


Rainha da Lapa

Quando Eu Me Chamar Saudade

Juca Mulato

Boêmio 72

O Dono das Calçadas

Mais Um Ano Sem Noel

Chico Dum-Dum

Louco (dueto com Alcione)

A Turma da Saudade

Renúncia (dueto com Tim Maia)

Funeral de um Sambista


fREE cLASSICS

terça-feira, 21 de abril de 2009

fREE cLASSICS

eNTREVERO dE aMIZADE

Falar de Nelson Gonçalves é chover no molhado. Conheci Nelson Gonçalves no ano de 1950, apresentado por um amigo. Daí por diante foi fácil, conheci o grande homem e grande cantor que é.

Durante estes 33 anos, tivemos muitos altos e baixos nas nossas relações. Mas, a verdade é que ultrapassamos todos os males entendidos, superamos todos os ti-ti-tis, e hoje somos compadres três vezes.

Nelson batizou minha filha quando nasceu e é padrinho de casamento dela, e eu sou seu padrinho de casamento com a Maria Luiza. Dessa forma, se houve algum entrevero entre nós, foi esquecido, prevaleceu a amizade.

Somos dois grandes amigos para qualquer situação, amigos de sucessos que fizemos, amigos nos momentos mais duros, mais amargos e também nos mais lindos.

Por esse motivo, reconheço no meu fabuloso Nelson tudo de bom como homem, como amigo e como grande cantor que é, inegavelmente

Pena é que nem daqui a 50 anos teremos outro Nelson. Seria sonhar muito alto. Pelo menos, mais 20 anos com a graça de Deus nós ainda o teremos entre nós.

Saúde Nelson.

Adelino Moreira, Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 1987.

*Nelson Gonçalves foi intérprete majoritário do compositor português, naturalizado brasileiro, Adelino Moreira. Juntos, assinaram mais de 20 canções - fora as mais de 370 que Adelino fez para Nelson cantar.

Uma "caçamba" de hits poderosos, como "Êxtase", "A Volta do Boêmio", "Enigma", "Fica Comigo Esta Noite", "Meu Vício é Você", "Doidivana" e "Flor do Meu Bairro".

Vários outros cantores gravaram as canções de Adelino. Entre eles, Angela Maria, Carlos Galhardo, Núbia Lafayette e Orlando Silva:

"Eu compunha para todo mundo. Todos os cantores de sucesso gravavam coisas minhas. Eu fazia música de acordo com a necessidade. Se precisava fazer 36 músicas por ano, eu fazia" lembrou o compositor de fôlego.

Em 1966, certos desentendimentos separaram Adelino Moreira de Nelson Gonçalves. A briga durou até 1971, quando voltaram a trabalhar juntos.

O enorme carinho que Adelino tinha por Nelson foi notório, e tão grande quanto o sucesso da parceria musical que mantiveram até o fim. No velório de Nelson, m
uito emocionado Adelino disse que recém tinha feito uma canção pra ele:

"Lua Namoradeira"...

Diz-se que, em 1966, quando o Metralha foi enjaulado (preso sob acusação de tráfico de cocaína), Moreira foi visitá-lo na cadeia.

Ao ver o amigo no cárcere,
chorou copiosamente. Ao invés de consolar, porém, foi consolado pelo célebre prisioneiro:

- Não se preocupa, Adelino. Vai ficar tudo bem de novo - dizia
Nelson, do outro lado das grandes, ao amigo legítimo.

tOP 11: aDELINO


Pecado Ambulante

Pedestal de Lágrimas


Escultura

A Volta do Boêmio

Fica Comigo Esta Noite

Deusa do Asfalto

Meu Vício é Você

O Amanhã do Nosso Amor

Chore Comigo

Negue


Revolta


segunda-feira, 20 de abril de 2009

fREE cLASSICS







tOP 11: gURIAS


A Deusa do Maracanã

Mariposa

Maria e Mais Nada

Leviana

Figura Mingnon

Normalista

Flor do meu Bairro

Dolores Sierra

Ela hoje é diferente

Certinha

Abigail (ao vivo na Rádio Nacional, 1952)


domingo, 19 de abril de 2009

cHOCANTE!

O disco tem toda uma temática de vida, boêmia e fossa, que é uma ligação minha com o Nelson Gonçalves, Lupicínio Rodrigues e Ataulfo Alves. Um dia ainda chamo o Nelson Gonçalves para cantar uma música com o Barão. Se isso chocar algum roqueiro, é sinal que ele precisa se libertar desse trauma.

*Cazuza sobre o álbum Maior Abandonado. Folha de São Paulo (08/09/84).

tOP 11: lOVE sONGS


Camisola do Dia

A Deusa da Minha Rua

Maria Bethânia

Fantoche

Castigo

Pensando Em Ti

Deixe Que Ela Se Vá

Três Apitos

Segredo

Destino

Dos Meus Braços Tu Não Sairá

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